Claustrofobia democrática, União Europeia e Vítor Gaspar

«Na reunião do Eurogrupo que se realiza hoje em Bruxelas, Vítor Gaspar e o seu homólogo alemão, Wolfgang Schäuble, vão poder falar à vontade, sem receio de que as conversas que mantenham venham a ser difundidas: os serviços de imprensa do Conselho de Ministros da União Europeia decidiram na semana passada implementar regras mais restritivas para a recolha de imagens nos instantes que antecedem o início das reuniões ministeriais, os chamados tour de table, e suspender durante um mês o repórter de imagem da TVI responsável pela recolha das imagens da polémica.

Esta decisão surge na sequência de diligências efectuadas em Bruxelas por Portugal, com o apoio da Alemanha. A Espanha, cujo ministro das Finanças também viu declarações suas serem gravadas e difundidas na mesma ocasião, no decorrer da última reunião dos responsáveis pelas Finanças da zona euro, juntou o seu peso a estes argumentos.

As novas regras ficaram definidas no decorrer da semana passada, em reuniões dos porta-vozes das Representações Permanentes (REPER) dos 27 junto da União, as embaixadas dos Estados-membros junto das instituições europeias, e os serviços de imprensa do Conselho.

TVI à porta
Maria Rui Fonseca, porta-voz da REPER portuguesa, disse ao Expresso ter agido “em articulação e segundo instruções do Ministério das Finanças” e explicou que estas decisões ficam aquém do defendido por Portugal: “A recolha de imagens pelas televisões devia acabar e passar a ser feita pelos serviços do Conselho, que posteriormente as distribuiriam”.

E em relação à suspensão do jornalista da TVI, que ficará proibido de aceder à sala das reuniões ministeriais, a postura é semelhante. Maria Rui diz que se trata de uma decisão “infantil”, uma vez que a estação portuguesa tem “antecedentes” na matéria e “nada garante que não voltem a fazer a mesma coisa”. “A TVI devia ser banida para sempre do tour de table“, opina.

A REPER portuguesa acusa a TVI de ter tido uma atitude semelhante em 2008, ao divulgar uma conversa de Rui Pereira, ministro da Administração Interna no Governo de José Sócrates. Maria Rui Fonseca diz que desde essa altura decidiu vedar o acesso da estação de Queluz de Baixo ao tour de table das reuniões do Conselho Europeu, em participam os chefes de Estado e de Governo dos 27: “No que depender de mim, a TVI não volta a recolher imagens em nenhum tour de table“.

“Estamos de consciência tranquila. Fizemos o nosso trabalho”, afirmam por seu turno Pedro Moreira, o correspondente da TVI em Bruxelas, e António Galvão, o repórter de imagem visado pela decisão em causa. Numa declaração conjunta, os dois jornalistas manifestam ainda um desejo: “Esperamos que o facto da câmara da TVI não estar na sala ajude o Conselho Europeu a combater a recessão económica e o desemprego de 24 milhões de pessoas”. (…)»

Daniel do Rosário (20/02/2012) (1)
«A prova de que a conversa entre Vítor Gaspar e o ministro das Finanças da Alemanha é de relevante interesse público, justificando portanto a sua divulgação, está no facto de, como se refere aqui, o ministério das Finanças ter sido o “mandante” da decisão dos serviços de imprensa da UE de proibição de entrada da TVI na sala do Eurogrupo para a captação de imagens no habitual “tour de table”.
Se o ministro ficou tão  incomodado com a divulgação de uma conversa que não era sobre a sua vida pessoal ou privada – ele que gosta de dizer as suas graçolas em conferências de imprensa e nas suas prestações  no Parlamento – lembremos o seu gesto teatral a explicar o “desvio colossal” e os seus trejeitos inconfundíveis –  é porque a conversa  era de facto até talvez mais importante e comprometedora do que se tem dito e escrito.

Porque não é natural que o ministro se tenha imiscuído no trabalho dos serviços de imprensa da UE a ponto de “mandar” ou sugerir (é o mesmo, para o caso) que um canal de televisão do seu País seja impedido de trabalhar.

No fundo, o ministro não despiu a pele de funcionário europeu e sabia que  agora  como ministro uma palavra sua dita em Bruxelas a funcionários, seus “ex-colegas”, seria uma ordem. 

E foi assim que assistimos a uma responsável dos serviços de imprensa da UE ultrapassar ainda o ministro das Finanças na dureza da medida a aplicar à TVI. Dizem os serviços de imprensa que a TVI em 2008 divulgou uma conversa privada de um ministro gravada nas mesmas circunstâncias. Porque não fizeram então, nessa altura, os serviços de imprensa, a alteração das regras de captação de imagens?

A resposta é simples: agora estamos de cócoras perante os alemães e não podemos tolerar que uma conversa com o nosso “patrão” (o ministro das Finanças alemão) tenha sido “violada”.

Na cena de 2008, o ministro era Rui Pereira e fez um comentário (de mau gosto) sobre a primeira dama francesa. Ninguém se incomodou em Bruxelas, nem a França proibiu a TVI  de entrar na sala para o “tour de table”…

É que nessa altura não estávamos de cócoras perante os donos da Europa como agora estamos…»

Estrela Serrano (21/02/2012) (2)

(2) Blogue Vai e Vem.
Fonte da Imagem: Kopfschrott.
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