Coisas Giras de Portugal em 2012 (3)

«Se há uma verdade na chegada da Televisão Digital Terrestre (TDT) a Portugal é esta: tem sido um processo feito de meias-verdades. A começar pelo número de pessoas que vão ser afectadas e a acabar nos apelos ao adiamento do apagão analógico. O que é realmente certo é que esta migração vai sair cara, estimando-se que custe mais de 131,3 milhões de euros aos portugueses. E que vai deixar muitas pessoas sem televisão de um segundo para o outro, já a partir da próxima quinta-feira.

Só na sexta-feira é que uma das meias-verdades veio a público. Ao contrário do que se dizia, nem toda a faixa litoral do país vai ser desligada a 12 de Janeiro. Este apagão, ao qual se seguirá o das ilhas e do interior, vai, afinal, ser repartido por cinco subfases, começando pelo emissor de Palmela e pelos retransmissores de Álcacer do Sal, Melides e Sesimbra (ver infografia).

A decisão foi tomada no início do mês pela Autoridade Nacional de Comunicações (Anacom) e guardada a sete chaves. Isto porque se receava que a população adiasse ainda mais a preparação para a migração, caso se soubesse mais cedo que nem todas as estações vão ser afectadas. O regulador já sabia, o Governo já sabia, a PT (que ganhou o concurso para implementação da TDT em Portugal) também já sabia. A população… não.»

Raquel Almeida Correia (08/01/2012) (1)

«O fim do sinal analógico e a transição para a Televisão Digital Terrestre, que começa a 12 de Janeiro e acaba a 26 de Abril, não podia calhar em pior altura. Muitos dos portugueses que não têm televisão por cabo e compraram o seu aparelho antes de 2009 – geralmente os que têm menor folga financeira, onde se incluem muitos idosos – terão de pagar um aparelho descodificador. São 77 euros mais IVA, com reembolso de 22 euros pela PT para os pensionistas com menores rendimentos e algumas pessoas mais desfavorecidas. Uma coisa chocante para os senhores da ANACOM: 55 euros é muito dinheiro para quem tenha reformas abaixo dos 300 euros ou para quem esteja desempregado. Pior: quem tenha um televisor sem tomada de interface SCART ou HDMI terá mesmo de comprar uma televisão nova ou um modulador de sinal RF, não comparticipado. E não podemos esquecer todos os que vivem nas zonas não cobertas pela TDT (cerca de 13% da população) que terão de de usar o satélite.

Não ponho em causa as vantagens da TDT para a modernização do sector. Mas elas não se farão sentir, de forma evidente, para a maioria dos consumidores. O sinal poderá ser melhor mas continuarão, apesar da despesa, a ter direito aos mesmíssimos quatro canais do costume.

Se a transição tecnológica não traz serviços novos e relevantes porque têm de ser os cidadãos a pagá-la? Parece, a quem tenha alguma noção das situações dramáticas que se vivem, no meio desta crise, por este país fora, que esta é uma despesa prioritária para as famílias? Se obrigam as pessoas a isto não seria normal darem-lhes qualquer coisa em troca? Um exemplo: se já pagamos a RTP nos nossos impostos não seria uma boa solução aproveitar as potencialidades da TDT e oferecer no pacote gratuito os restantes canais da televisão pública? Porque temos de pagar duas vezes (nos impostos e na subscrição por cabo) a mesma coisa?»

Daniel Oliveira (29/12/2011) (2)

(1) No Público Online.

(2) No seu espaço de opinião do Expresso Online, Antes pelo Contrário.

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