Coisas Giras de Portugal em 2011 (21)

«No primeiro encontro entre Pedro Passos Coelho e Angela Merkel desde que o primeiro-ministro português tomou posse, a chanceler alemã aplaudiu as medidas de austeridade anunciadas pelo governo português.
Já o primeiro-ministro Passos Coelho convidou os investidores alemães a participar no processo de privatizações.
“Transmiti que vemos com bons olhos os investidores alemães neste processo de privatizações em Portugal”, declarou o primeiro-ministro na conferência de imprensa conjunta com a chanceler alemã Angela Merkel.
Com uma agenda sobretudo bilateral, segundo fontes diplomáticas, no encontro entre a chanceler do país que mais contribui para os fundos de resgate europeus e o primeiro-ministro de um dos países resgatados não faltarão, no entanto, as grandes questões da nova arquitetura para o governo económico da zona euro.
A vertente bilateral e do governo da zona euro acabam também por se confundir, até porque se a exposição dos maiores bancos alemães à dívida soberana portuguesa é de 3,577 mil milhões de euros, segundo dados do banco central alemão e da Associação Europeia de Bancos, a exposição do Banco Central Europeu (BCE) a Portugal é de pelo menos 20 mil milhões de euros, segundo cálculos de analistas, e é à Alemanha, que tem a maioria do BCE, que cabe assumir a maior parte deste risco.
Quanto ao reforço dos mecanismos de governo da zona euro e às medidas de consolidação orçamental, Berlim e Lisboa andam a velocidades diferentes, desde logo, no que toca aos limites constitucionais ao endividamento público.

(…) Para além do debate sobre o futuro da zona euro, as relações bilaterais com a Alemanha são por si só de peso, até porque os alemães são dos maiores clientes e os maiores investidores em Portugal.
Em 2010, segundo estatísticas oficiais, a Alemanha surge logo a seguir a Espanha como o segundo maior cliente e o segundo maior fornecedor português.
Portugal, por outro lado, é apenas o 27.º maior cliente alemão e o 30.º maior fornecedor. Em 2010, as exportações para a Alemanha renderam 4,8 mil milhões de euros a Portugal, que gastou 7,9 mil milhões de euros em importações alemãs.
A Alemanha é também o país que mais investe em Portugal – 6,43 mil milhões de euros em 2010 -, mas a tendência recente tem sido de redução de investimento.»

Lusa (01/09/2011) (1)

«(…) Angela Merkel aplaudiu o “esforço extremo que Portugal está a tentar fazer para dominar a difícil situação” em que se encontra, para depois acrescentar que tanto ela como o primeiro-ministro português têm uma “visão conjunta sobre aquilo que será necessário fazer no futuro para evitar os erros do passado”.

A chanceler alemã reafirmou que as eurobonds [euro-obrigações] são a resposta errada. “É o caminho totalmente errado pensarmos que vamos ficar livres de dívida se as atirarmos para uma panela, misturando-a”.

Sublinhando que “felizmente vivemos em democracia”, a chanceler alemã está confiante de que “encontraremos um caminho para haver conformidade nos mercados”. (…)»

Radio Renascença (01/09/2011)

«Todos sabem que o primeiro-ministro de Portugal foi à Alemanha visitar a chanceler Merkel e, pelo menos desta vez, não é necessário perguntar qual o conteúdo das conversações.

Basta olhar para as fotografias que nos chegaram pela imprensa – elas dizem tudo. Tenho diante de mim a foto de destaque de um quotidiano generalista e popular. Que vejo? Passos Coelho está inclinado para a frente, quase a fazer uma vénia e com as mãos juntas como numa prece. Olha amedrontadamente para a chanceler, como se estivesse a pedir desculpa por alguma coisa. A chanceler alemã, por seu turno, caminha com desenvoltura, não olha para Passos Coelho, transmitindo uma impressão de enfado e de pressa ou, quando muito, de condescendência em relação à presença do primeiro-ministro.

Uma interpretação possível desta foto seria a seguinte: ela espelha, com objectividade, a posição actual do Estado português diante da Alemanha, desde que esta assumiu a qualidade de líder informal da Europa e dos programas de ajuda aos países periféricos do euro. A postura de subserviência do primeiro-ministro português e a atitude autoritária da chanceler alemã são uma consequência da dependência do nosso país face à ajuda externa e da consciência portuguesa de que essa ajuda depende da vontade da Alemanha. Por isso, fosse qual fosse o primeiro-ministro português (e o chanceler alemão), nada seria muito diferente. Esta interpretação contém certamente alguma verdade, mas está longe de a esgotar.

Uma outra interpretação, aquela que eu prefiro, é a seguinte: a fotografia em causa espelha não uma inevitabilidade, mas antes a posição específica da actual maioria no Governo e do seu líder diante da Alemanha e da Europa. Sendo assim, a postura física de Passos Coelho corresponde a uma atitude psicológica de “servidão voluntária”, para usar a famosa expressão de La Boétie, e mesmo a um desejo de auto-punição, correspondente à vontade castigadora dos países centrais do euro em relação aos países do sul. Ao ver Passos Coelho na fotografia recordei-me das declarações, igualmente servis e pueris, de Paulo Rangel quando, diante das críticas de Merkel ao derrube do Governo Sócrates, disse: “a chanceler Merkel quando vir o Governo do PSD vai respirar de alívio”.

Se a segunda interpretação é a melhor, ela pode pelo menos ajudar a explicar a ausência de política europeia deste Governo, a vontade de aplicar uma austeridade para além da que nos é pedida e a subalternização das medidas favoráveis ao nosso crescimento, a venda inoportuna das nossas melhores empresas, etc. É claro que há também razões ideológicas – liberais, como se tem dito – para estas opções do Governo. Mas a psicologia dá uma ajuda.»

Joao Cardoso Rosas (09/09/2011) (2)

(1) Reproduzido no Expresso Online.

(2) Cronica do Diário Económico.

Fonte das Imagens: Record; Momentos’‘.

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