Coisas Giras de Portugal em 2011 (3)

«Segundo Carlos Moedas, que é um dos principais conselheiros do presidente do PSD, Pedro Passos Coelho, os mercados “olham para uma nova equipa de gestão como uma boa notícia”, porque “há muito tempo não dão credibilidade ao Governo português”.

No seu entender, “assim que os mercados incorporem a informação de que o PSD vai respeitar as metas do défice, e fará tudo o que for necessário para que se cumpram essas metas até porque foi o PSD que sempre anda atrás do Governo para cortar, essas agências voltarão a dar credibilidade a Portugal”.»

Lusa (1)

«A Moody’s, uma das principais agências de rating, cortou ontem a avaliação de Portugal para uma classificação equivalente a “lixo”, sublinhando o risco de o país precisar de um segundo empréstimo externo e de não conseguir cumprir as metas orçamentais do acordo com a troika.

Este corte violento de quatro níveis – o primeiro desde que o país pediu oficialmente apoio financeiro externo – irá agravar a já limitada capacidade de financiamento da banca portuguesa, piorando as condições de crédito às pessoas e às empresas. O governo e vários economistas reagiram ontem ao princípio da noite em desacordo com a decisão da agência de rating.

Para explicar o corte para a nota Ba2 – que leva Portugal a tornar-se no segundo país da zona euro cuja reputação como devedor caiu para território de “lixo” (a gíria usada nos mercados financeiros) – a Moody’s começa por admitir o risco do país precisar de um novo empréstimo.

“Há uma probabilidade cada vez maior de Portugal não ser capaz de se financiar a taxas sustentáveis nos mercados de capitais no segundo semestre de 2013 e durante algum tempo depois disso”, indica o relatório assinado pelo vice-presidente Anthony Thomas. O dinheiro que a troika empresta a Portugal não significa que o país está livre de ter de pedir dinheiro aos mercados. Já amanhã, por exemplo, haverá um leilão de dívida de curto prazo – operação (entre 750 e mil milhões a três meses) que deverá resultar em juros ainda mais altos depois deste corte, precisamente na véspera. O buraco que o dinheiro da troika não cobre continua no próximo ano (em que o país terá que pedir cerca de 9 mil milhões em títulos de curto prazo) e em 2013 (mais 18,8 mil milhões, com 10 mil milhões em obrigações).»

(…) A primeira razão para o cepticismo da Moody’s é a opinião negativa que a agência tem da solução europeia para a crise da Grécia, país que funciona como a lebre para Portugal na crise do euro – uma demonstração de que a situação portuguesa não tem uma solução puramente interna.

(…) O que tem isto a ver com Portugal? A Moody’s diz a Portugal – e sobretudo à Europa – que o precedente de envolver os credores privados em segundos empréstimos aumenta o risco para estes credores. Isto desencoraja o regresso dos credores privados à dívida deste país, “reduzindo a probabilidade de Portugal ser capaz de reconquistar o acesso ao mercado em condições sustentáveis”. A União Europeia tem-se esforçado para fazer Portugal descolar da situação grega, mas as agências fazem questão de mostrar que por elas o contágio será real.

“Se Portugal está a ser usado como arma entre as agências e a Europa sobre a questão grega isso é inaceitável”, comenta Paulo Soares Pinho, professor de finanças na Universidade Nova de Lisboa.

(…) Outra razão para levar Portugal a ficar fora dos mercados depois de 2013 é interna: o risco de incumprimento do programa da troika, sublinha a Moody’s. A agência desfia o seu rol de argumentos: os planos de redução de despesa na saúde, nas empresas públicas ou nas autarquias “podem ser difíceis de implementar”, o crescimento económico “pode ser mais fraco do que o esperado”, os bancos podem precisar de um apoio além dos 12 mil milhões previstos (a agência não explica porquê e não esteve disponível para comentários).

“Perante decisões como o imposto sobre o 13º mês talvez este downgrade não seja o mais correcto”, indica o economista Miguel Beleza. O governo reagiu na mesma linha, com um comunicado escrito no qual sublinha que “a decisão da Moody’s ignora os efeitos da sobretaxa extraordinária em sede de IRS anunciada pelo Governo”.

O corte da Moody”s vai ter impacto “em primeiro lugar sobre os bancos”, aponta Soares Pinho. O colateral que os bancos entregam ao Banco Central Europeu para receberem financiamento vai aumentar, retirando mais capital à banca. “O impacto será sentido por toda a economia”, diz Soares Pinho.»

Bruno Faria (2)


«O economista João Duque desvalorizou hoje o corte do ‘rating’ de Portugal feito pela agência de notação financeira Moody’s, acreditando numa reviravolta nos mercados até final do ano.

“Prefiro uma crise em ‘v’, afundar rápido para depois começar a subir, que uma crise que não tem ‘v’, é só um dos lados, é um plano inclinado”, disse o economista à agência Lusa, no dia em que a Moody’s cortou em quatro níveis o ‘rating’ de Portugal de Baa1 para Ba2, colocando a dívida do país na categoria de ‘lixo’.

Com “algum esforço e muita dureza” Portugal pode “voltar rapidamente aos eixos”, e o importante agora, frisa João Duque, é mostrar “até final do ano” que o país está a cumprir o acordo firmado com a ‘troika’ internacional.

“De certa maneira, este ‘downgrade’ tem uma grande vantagem, que é podermos, espero, até final do ano, fazer um balanço e mostrar que estamos a cumprir o que tínhamos acordado e que os portugueses nos momentos difíceis são capazes de dar a palavra e cumprir”, sustenta o presidente do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG).

“Temos todos de tentar fazer o melhor para que Portugal tenha sucesso no cumprimento das metas a que se comprometeu”, sublinha, destacando que as mesmas foram assinadas por três partidos (PSD, PS e CDS-PP) e têm “um suporte de um conjunto muitíssimo alargado” da população “empenhada em sair da situação em que está”.

O Governo, através do ministério das Finanças, considerou que a agência Moody”s “ignorou” o anunciado corte do subsídio de Natal e “não terá tido em devida conta” o “amplo consenso político que suporta a execução das medidas acordadas com a ‘troika'”.»

Lusa (3)

«José Silva Lopes, que falava na conferência “E Depois da ‘Troika’?”, organizada pelo Instituto de Direito Econonómico Financeiro e Fiscal (IDEFF) e pela Ordem dos Técnicos Oficiais de Contas (OTOC) a decorrer em Lisboa, destacou a situação grega como um dos maiores riscos para Portugal, e esbateu as diferenças entre Portugal e Grécia.

“Portugal é diferente da Grécia? Não é não. Só somos um bocadinho melhores que a Grécia nas finanças públicas. Não tenhamos dúvidas. Se acontecer alguma coisa na Grécia, nós somos logo a seguir”, disse.

Silva Lopes disse ainda que, na sua opinião, os 78 mil milhões de euros que Bruxelas e o Fundo Monetário Internacional (FMI) acordaram emprestar a Portugal é “largamente insuficiente” e que “a União Europeia tem de arranjar novos esquemas para apoiar países, nomeadamente Portugal”, caso contrário o problema só se vai agravar.

“Se a União Europeia não nos emprestar mais dinheiro, se continuar a acreditar que os mercados vão resolver o problema, estamos arrumados. Eu não acredito que os mercados resolvam o problema, pelo contrário, vão agravá-lo”, acrescentou.»

Lusa (4)

Comentarium: Outros economistas e outros políticos (ou noutros países), diriam que os comentário de José Silva Lopes e de João Duque são antipatrióticos. Mas em Portugal, depois do “malvado” José Sócrates ter saído de cena, opta-se agora por um novo tipo de patriotismo completamente contracorrente. Este consiste em planificar a pobreza de um país e vender o resto aos bocadinhos a brasileiros, alemães, norte-americanos e outros. Nesse caminho de irreprimível progresso rumo à bancarrota, jamais deveremos prescindir dos nossos gurus, que devem ser citados até que a saliva se esgote e o papel (ou o espaço virtual) acabe. Eis alguns deles: José Silva Lopes, João Duque, Miguel Beleza e Carlos Moedas.

(1) Notícia publicada no Expresso Online, 24/03/2011.

(2) Com Carlos Ferreira Medina. Notícia do I, de 06/07/2011.

(3) Notícia publicada no Diário de Notícias Online, 05/07/2011.

(4) Notícia publicada no Diário de Notícias Online, 04/07/2011.

Fonte das Imagens: Oblogouavida (de Gui Castro Felga) e Rampas.no.sapo.pt.

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