Leituras no passado, caminhos do futuro e ironia no presente

Portugal, 1939

Eles só tiveram acesso a livros porque os pais eram médicos, professores, pintores ou funcionários públicos. Só souberam o que era um escritor quando os pais lhe apresentaram amigos escritores. Alguns pais até tinham casado com estrangeiros, pelo que se lia nas línguas originais, já que não havia quase nada traduzido. Eles estudaram em bons colégios privados e foram para as mais prestigiantes universidades públicas.

Se queriam ir à Biblioteca tinham de ir à associação recreativa da Casa do Povo ou associação local. E mesmo assim os livros estavam fechados, como na prisão. Era preciso pedir autorização ao funcionário dono da chave para ir ver os livros e para os levar para casa. E o funcionário podia não autorizar. Ou poderia estar ausente, e aí a porta não era aberta. Em casa tinham a sorte de ter os livros do pai, fechados à chave de todos, incluindo da polícia do pensamento. Se queriam escrever tinham de submeter-se à censura.

E depois havia os milhões que não tinham pais com livros e que não tinham tempo para ir à biblioteca. Pelo menos cinquenta por centro era analfabeta, logo fugiam do livro. Aqueles que podiam estudar ficavam pelo 3º e 4º ano. Depois havia que ajudar os pais a pôr dinheiro em casa. Sabiam o que lhes era autorizado saber. Deus, pátria e família. Horizontes estreitos. A maioria trabalhava desde os 10 anos.

Portugal, 2029

A maioria até possui as novas tecnologias (versões avançadas do Ipad, do Kindle e de outros gadgets), ou… rouba-os. Mas tem apenas meia dúzia de livros nos aparelhos electrónicos, que são aqueles que os chefes máximos da nação e os executores das suas políticas colocarão à venda. Poucos saberão o que é ler um livro. Os escritores irão lançar livros em livrarias de centros comerciais (onde os seguranças vigiarão quem entra), embora uma minoria ainda vá às bibliotecas.

A maioria das bibliotecas serão propriedade privada – de empresas (nomeadamente livreiras) e de associações e fundações filantrópicas. Paga-se uma taxa para entrar, outra para obter o cartão de leitor e outra para levar para casa o recheio autorizado a sair. Assim, não é necessário fechar os livros a cadeado.

Haverá pouco analfabetismo mas muita iliteracia. As pessoas estão divididas em quatro ou mais tipos. Uma minoria que não vai à escola porque está a trabalhar desde os dez anos. Outra minoria que tem aulas em casa com uns pais ou com um tutor. Outra minoria, maior que a anterior, que frequência colégios privados usando um cheque-ensino. Por fim, uma maioria que frequenta o ensino público em escolas sobrelotadas, com metade dos professores e condições para ter aulas. Essa maioria vai para a escola com pouco interesse. E vai saindo para não voltar, ou no 9º ou no 12º ano. Ainda assim alguns ainda saem da escola antes, no 4º ou 6º ano. Dentre deste grupo, uma parte é muitíssimo pobre, outra muito pobre e outra tem uma pobreza envergonhada (ou seja, aparentam ser os mais ricos). Uma parte acabará a sua vida numa prisão, sejam inocentes ou culpados (fechados na cadeia, a maioria sairá de lá criminosa).

Uma minoria daqueles que frequentam as escolas públicas vai para a universidade, graças às bolsas de algumas fundações. Uma maioria daqueles que frequentam colégios privados está nas universidades, pagando os pais as propinas. As universidades mais prestigiadas são as privadas, depois de há algumas décadas terem sido privatizadas. As outras só dão acesso à emigração e ao desemprego.

Ironia no Presente

«O Prémio Nobel da Literatura 2011, Mario Vargas Llosa, considera que os jovens que abreviam as palavras e infringem as regras gramaticais nos chats da internet, no Twitter ou no Facebook pensam “como um macaco”.

A afirmação do escritor peruano consta de uma entrevista publicada na edição de hoje do semanário uruguaio Búsqueda, e durante a qual considerou “aterradora” a linguagem usada pelos jovens na internet e nos dispositivos móveis.

“Se escreves assim, é porque falas assim; se falas assim, é porque pensas assim, e se pensas assim, pensas como um macaco. E isso parece-me preocupante. Talvez as pessoas sejam mais felizes assim. Talvez os macacos sejam mais felizes que os seres humanos. Não sei”, sublinhou.

“A Internet acabou com a gramática, liquidou-a. De tal forma que se vive numa espécie de barbárie sintética”, disse o autor de “Conversa na Catedral”.»

(Lusa, publicado no sítio do Correio do Minho de 28/04/2011)

O escritor Mario Vargas Llosa tem razão em reclamar da iliteracia dos jovens. Mas Llosa é um adepto fervoroso que cada homem se torne um empreendedor e um criativo. E que defende a privatização de quase tudo e a força do mercado. Então porque está contra aqueles que usam o Twitter ou no Facebook? Não são estas duas empresas no topo da pirâmide daquilo que Mario Vargas Llosa acredita?

Bem, a emergência das redes sociais faz com que os jovens do futuro tenham menos vontade de ler e comprar os livros que Mario Vargas Llosa escreve e de se informarem dos seus pontos de vista. Como Llosa ignora o que seja a coacção social e as redes sociais, resta-lhe chamar aos jovens “macacos”. Isto para não ver o que está por detrás dessa falta total de literacia, dessa inferiorização do Homem através da “linguagem SMS”. Isto para não ver as vantagens da internet na divulgação das suas ideias, também.

O que disse Mario Vargas Llosa tem alguma coisa a ver com o passado e o futuro da leitura em Portugal? Tem tudo a ver.

Fonte da Imagem: My Dreams My Life My World.

Anúncios

Os comentários estão desativados.