Citações para memória futura (5)

«Os representantes do BCE, da Comissão Europeia e do FMI convidaram todos os partidos para reuniões. Tratava-se de uma oportunidade para fazer chegar a quem vai intervir neste País durante os próximos anos a voz, as propostas, o aplauso ou a indignação dos portugueses. De todos os portugueses. De aceitar ou recusar esta forma de intervir nas economias. De aceitar o veneno que nos vai ser oferecido ou de apresentar alternativas. De mostrar a quem votou nos vários partidos que não se desistiu completamente da soberania e que os eleitos ainda os representam. De dizer aos cangalheiros do País quais serão as consequências sociais e políticas – as económicas eles conhecem de ginjeira – do pacote que se preparam para apresentar.

Um quinto dos eleitores não se fez ouvir. Bloco de Esquerda e PCP decidiram  não comparecer.

Porque não se encontram com o inimigo? Desde quando só se fala com aliados? Dizem que cabe ao governo negociar. Verdade. Mas não cabe à oposição de esquerda aproveitar esta oportunidade para dizer de sua justiça? Prefere ficar calada? Vai deixar que os partidos do bloco central repitam que são os únicos a querer lidar com a realidade? As pessoas estão assustadas e desesperadas. Todos os sinais de esperança, que só a apresentação de alternativas pode dar, são poucos. E qualquer sinal de irresponsabilidade será mal recebido.

(…) Sabemos que BE e PCP são contra este empréstimo nos moldes e nas condições que foram impostos à Irlanda e à Grécia. Eu também sou e não me canso de o dizer. E lutam calados? Para não se sujarem ao se sentarem na mesma mesa que os representantes do FMI e da União? Nos princípios não se cede. Mas ir a uma reunião não fere qualquer princípio. E nunca se fecha a porta à possibilidade de dizer o que se pensa e a tentar minorar os efeitos de uma derrota. Também é isto a política. (…)»

Daniel Oliveira (19/04/2011) (1)

«Alguns dos comentários aqui publicados insistem neste apelo ao Bloco de Esquerda: por favor, vão depressa ter com o FMI e negociar com eles o pacote da intervenção externa. Representem-nos, dizem os mais aterrorizados, sejam amigos uns dos outros.

Venho aqui responder directamente a este apelo: representar quem nos elegeu e quem quer uma alternativa para o país começa por esse elemento mínimo de decência e de respeito pelas pessoas que é não as enganar. Exige a capacidade de alternativas e nunca promover uma fraude sem soluções.

Por isso, escrevo com toda a clareza: os partidos que fingem que estão a “negociar” estão a enganar os portugueses. É uma desonestidade e uma baixeza. E isso é lastimável e condenável, porque substitui a política séria por uma farsa para mesquinhos efeitos eleitorais. No momento mais difícil, esses partidos – o PSD e o CDS – estão a fugir à responsabilidade e a propor uma encenação.

Perguntemos-lhe por isso que “negociação” é esta que anunciam com fanfarra.

Tiveram uma reunião. Vão ter mais alguma? Não.

Sabe-se o que propuseram? Não.

Sabe-se o que o FMI respondeu? Nada, presume-se: tomaram nota e despediram-se educadamente.

Esperam alguma resposta? Não.

Vão fazer novas propostas, procurar entendimentos? Não.

Há então três negociações paralelas em curso, uma de Sócrates, outra de Passos Coelho, outra de Portas? Cada uma dela com resultados, com um contrato final, com um acordo, com conclusões? Não há.

A negociação não existe nem podia existir.

(…) E a pergunta essencial é esta: havia alguma coisa para negociar entre cada partido e o FMI com a Comissão Europeia? A resposta honesta é não: o comunicado do Ecofin que determina o mandato desta “missão” estabelece que as medidas a impor são as do PEC4 e mais alguma coisa por acrescento. Aos homens do FMI e da Comissão Europeia é absolutamente indiferente o que diga este ou aquele partido, só lhes interessa que assinem as medidas que vão ser definidas, e nada mais.

É claro que, sabendo que vai aceitar a redução das pensões, Paulo Portas tem de fingir que influenciou alguma coisa no resultado e vai tentar apresentar como bom resultado o facto de todos os pensionistas perderem 10% em 3 anos, menos os mais pobres que vão só perder 7% em 3 anos – uma atenuação da pena que o governo já tinha aceite depois da pressão do Bloco de Esquerda em nome dos pensionistas. E o PSD vai fazer o mesmo: aceitar o aumento dos impostos, porque aliás deseja o aumento dos impostos, e fingir que influenciou alguma coisa nessa escolha. Mas é mesmo nessa farsa que os meus amigos do FB querem acreditar?

Os que me pedem que vá ter com o FMI acreditam mesmo que se disser àqueles homens que há dois milhões de pobres em Portugal eles caem em si, consternados, de mãos na cabeça, a dizer: vejam lá o que nós íamos fazer com o congelamento das pensões! Acreditam que eles se desfazem em lágrimas quando lhes disser que o seu mandato inclui a privatização de empresas que provocarão mais défice do Estado e portanto mais impostos no futuro, o que é o mesmo que dizer mais desemprego? Acham que quando lhes disser que 10 biliões de euros já estão destinados para os bancos que causaram esta crise, eles vão olhar para as contas para descobrir com espanto e indignação que é mesmo assim e que os impostos podem vir a pagar todos estes BPNs? Que me vão dar razão quando lhes disser que o que fizeram na Grécia está a destruir esse país – e que eles vão daqui a correr para Atenas para reparar o mal que estão a fazer?

(…) Sei que nos momentos difíceis é preciso ter coragem e se é criticado por não ceder à chantagem. Sei que é preciso ter clareza, mesmo contra a corrente. Eu serei claro nas soluções e nas propostas. Porque só assim a esquerda pode convocar o povo para a mais difícil das alternativas, a única que existe: salvar a economia e o país de se tornar um protectorado em que a democracia é um faz-de-conta.»

Francisco Louçã (20/04/2011) (2)

(1) Expresso Online.

(2) No Facebook.

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