Leituras: a mulher e a mãe em conflito desde finais do século XX

Elisabeth Badinter é feminista, mas na linha da Primeira Vaga e de Simone de Beauvoir. Por isso neste livro critica-se o feminismo da Segunda e Terceira Vagas, por ter voltado a colocar a ênfase no determinismo fisiológico (ou seja nas diferenças). A mulher tem condições fisiológicas para ser mãe. Logo, a mulher para ser realizada deve ser mãe ou abster-se totalmente de o ser. A maioria das mulheres prefire, ainda assim, o meio-termo (ser mãe e trabalhar, umas mais centradas nos filhos outras nas profissões): isso gera um permanente conflito entre os deveres de uma boa mãe (cada vez maiores) e os deveres de uma boa profissional (idem,  a começar nas que são despedidas por engravidarem). A pressão é enorme!

É bem explicada a contra-revolução feminista, encabeçada pelos tradicionalistas. Desde os anos 80 do século XX, com as sucessivas crises económicas, mais mulheres ficaram desempregadas ou viram frustradas as suas hipóteses de ter uma boa carreira. Assim, viraram-se para a ideia de que serem boas mães compensava a ausência de um emprego ou contentam-se com trabalhos a meio tempo (part-time; nos países onde isso é possível).

A autora dá especial destaque a uma La Leche Ligue, organização fundada por mães católicas nos Estados Unidos, de âmbito tradicionalista (ou seja, para elas o lugar da mulher é em casa com os filhos, companheira passiva do marido). Graças a esta organização, e à sua capacidade de persuadir e de se aliar a outros movimentos (entre os quais as feministas da Terceira Vaga) a amamentação e o parto natural tornaram-se numa verdadeira ideologia, sendo neste momento apoiados pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e por outras organizações internacionais.

A amamentação e o parto natural não são maus por si. A criação de um sistema em que as mulheres são obrigadas a escolhê-lo é que é mau. Neste sistema nasceram as doulas , mulheres por vezes sem grande formação que vão a casa fazer partos. A elas juntam-se, nos hospitais e clinicas, as enfermeiras e os médicos. Isso é totalmente recomendado e estudado por pedopsiquiatras,  psicólogos, antropólogos, etc. (mesmo sendo alguns estudos de carácter muito duvidoso): para não perderem o comboio do progresso. Isto sabendo-se que nem toda a mulher tem condições ou vontade de ter um parto natural ou de amamentar. A mulher que não amamenta porque não tem leite, por exemplo, sente-se socialmente diminuída (o leite artificial é considerado antinatural).

A pressão da La Leche Ligue já chegou ao ponto de a OMS obrigar todos os estados, a criarem hospitais onde apenas o parto natural é permitido (Hospitais Amigos dos Bebés).

A mulher conquistou uma maior licença de maternidade, no entanto nem em todos os países europeus o homem é motivado (por licenças de paternidade) a estar próximo dos filhos. Incute-se nas mães a ideia que durante os primeiros anos (até o bebé parar de amamentar) deve-se afastar os homens-pais do convívio com os filhos e as esposas-amantes. A mulher deve amamentar até o filho estar satizfeito (o que nalguns casos pode significar a sua exaustão) e até ter leite (o que pode significar, nalguns casos, amamentar até aos 2-3 anos). Em face disso, os homens podem ser machistas sem esforço. Por outro lado, aumentam os divórcios de casais com filhos.

Elisabeth Badinter coloca assim, de forma oposta aos lugares-comuns actuais, a questão demográfica, verdadeiro cavalo-de-batalha hoje para os governos europeus, por causa da ameaça de falência da segurança social.

Nota: Elisabeth Badinter é uma filósofa, política, professora universitária e gestora francesa. É especialista no Iluminismo e faz parte do Conselho de Supervisão do grupo Publicis (de que seu pai é fundador e dono), para além de ser uma das principais accionistas.

Fonte da Imagem: Fnac.

Leitura de: Elisabeth Badinter, O conflito : a mulher e a mãe (Lisboa, Relógio d’Àgua, 2010).

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