As costas largas da crise internacional

«O Governo tem procurado culpar a crise internacional pela profunda crise económica, financeira e social em que Portugal está mergulhado. Pessoalmente, que há pelo menos doze anos escrevo sobre as fragilidades da economia portuguesa e sobre os sucessivos erros das políticas governamentais, aturo com dificuldade as diferentes desculpas e mentiras do Governo sobre o assunto. O que além do mais é desonesto, na medida que ao desconhecer as causas, o Governo não prepara convenientemente o País para as soluções. Neste texto resumirei alguns dos erros e omissões das decisões políticas, relacionando-as com algumas das previsões e alertas que fiz ao longo dos anos:

1 – Há cerca de doze anos na comunicação que apresentei no III Congresso da Sedes, defendi uma economia apostada na inovação, nos sectores produtivos, nos bens transaccionáveis e nas exportações. Infelizmente, em vez disso os governos apostaram nos sectores de bens não transaccionáveis, no consumo e nas obras públicas, esqueceram a agricultura e as pescas e realizaram um absurdo processo de desindustrialização.

2 – Há muitos anos que chamo a atenção para a impossibilidade do crescimento económico se fazer com o mesmo modelo herdado da EFTA, baseado na mão-de-obra barata e com produtos que concorrem directamente com a China. Todavia os governos apostaram na utopia do bom aluno europeu e deixaram que os interesses dos outros países se sobrepusessem ao interesse nacional, como aconteceu com a Espanha na Figueira da Foz.

3 – Há cerca de dez anos sustentei uma polémica pública ao denunciar como prejudicial o investimento português no estrangeiro, por ser feito em sectores e em países que não conduziriam ao crescimento dos fluxos comerciais com Portugal, leia-se exportações, tendo ressalvado o caso da PT. No Parlamento denunciei, por exemplo, o investimento decidido pelo Governo de António Guterres, através do IPE, para, com a Sonae, investir no Brasil, o que rapidamente a própria Sonae considerou um erro. Hoje podemos verificar que apenas a PT obteve resultados aceitáveis e nada sabemos dos quinze a vinte mil milhões de euros investidos no Brasil, o que aumentou, e de que forma, o endividamento português.

4 – Na educação sempre defendi a prioridade ao ensino pré-escolar e à engenharia, além da necessidade de melhorar a qualidade e a exigência em todo o sistema de ensino. Denunciei em todo o lado o crescimento do número e variedade de cursos superiores sem qualquer relação com as necessidades futuras da economia. Os milhares de licenciados sem emprego aí estão agora para atestar a cegueira dos governos e a filosofia de facilidade deixada instalar.

5 – Nas moções que apresentei a dois congressos do PS escrevi: “Eliminar os circuitos paralelos da gestão do Estado. Reavaliar a necessidade de institutos, fundações e empresas de capitais públicos e impedir a sua proliferação.” Em vez disso os governos criaram centenas de novas instituições e a despesa do Estado e o endividamento cresceram em conformidade.

6 – Nas mesmas moções defendi: “Moralizar os ordenados dos administradores das empresas públicas, que não devem ultrapassar níveis compatíveis com a dimensão da economia portuguesa e das remunerações que em geral se praticam em Portugal.” Como sabemos a decisão dos governos, em particular do actual, foi em sentido contrário, com os custos inerentes, a desmoralização geral da administração e os prejuízos acumulados pelas empresas públicas.

7 – Ainda nas duas moções reivindiquei: “Combater por todas as formas os movimentos de capitais sem controlo dos governos. Como sabemos a ausência de controlo sobre os capitais facilitou o endividamento e a corrupção e aplanou o terreno para que as empresas, em particular as públicas, como a EDP e Águas de Portugal, tenham gasto milhares de milhões de euros sem qualquer retorno visível, além dos juros proibitivos que estamos agora a pagar.

Penso que estes exemplos chegam para que os leitores compreendam que estas são as razões para a profunda crise nacional e deixemos em paz a crise internacional, que apesar de existir e ser grave, não nos afecta tanto como se quer fazer crer»

Henrique Neto

Fonte do Texto: Jornal de Leiria, 10/02/2011

Fontes da Imagens: Oje.

Anúncios

Os comentários estão desativados.