Coberturas muito singulares…

«Os acontecimentos na Tunísia e no Egipto ilustram bem a maneira como a grande maioria dos media europeus concebe a cobertura da actualidade no estrangeiro. Durante anos e anos, longos anos, vão propondo uma visão da situação neste ou naquele país baseada sobretudo naquilo que os meios de negócios e do poder político vão destilando. E se a boa economia liberal e a dolce vita da gente do poder dão os deliciosos resultados esperados, então é porque tudo vai bem no melhor dos mundos…

Para os media europeus, a Tunísia e o Egipto eram exemplares: bons aliados do “Ocidente” (quer dizer: dos Estados Unidos) e economias florescentes (FMI dixit). Ditadura? Qual ditadura? “Politiquices” propagadas pela Europa fora por exilados que sabiam do que falavam. E por especialistas competentes também. Só que, de repente, um pobre desgraçado imola-se pelo fogo. E a população entra progressivamente em ebulição. E a revolta transforma-se em revolução. E os media europeus põem-se estranhamente a falar de “ditadura”!

Verdade, verdadinha: os media ignoravam tudo. Ou mais exactamente: preferiam continuar a ignorar ou a fazer que ignoravam. Havia suficientes interesses europeus nesses países para que não se publicassem informações incómodas. Tanto mais que os partidos políticos dominantes eram perfeitamente mudos sobre o assunto. E até uma chamada Internacional Socialista acolhia os partidos no poder de braços abertos…

Os media nada sabiam. E a maior parte das vezes continuam a nada saber. O que lhes interessa antes do mais é o lado espectacular de um povo em movimento. O lado criador de sensações da revolução. Aliás, os critérios habituais de cobertura da actualidade foram respeitados: de acontecimento em acontecimento, esquecendo rapidamente o primeiro e passando a insistir no segundo. A propósito: o que se passa na Tunísia depois que a agitação tomou força no Egipto? Teremos de esperar pelo próximo episódio, pela ruptura seguinte (de preferência violenta) para que no-lo anunciem…»

J.-M. Nobre-Correia

Nota: Ver mais Artigos do Autor.

Fonte da Imagem: Cutucando de Leve.

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