Matar os Jovens (uma ideia)

«(…) Então, por que (…) não alguma extrapolação de factos inegáveis, ainda que exagerada visões apocalípticas? No fundo São João, em fazê-lo, ganhou fama imortal, e, ainda hoje, para cada desgraça que acontece connosco, somos tentados a dizer que é exactamente o que ele havia previsto. Me apresento, então, como o segundo vidente da ilha de Patmos. No princípio era o papel de carbono.

Ao menos no nosso país [Itália] (e limitado a este) há mais velhos que jovens. Antes se morria aos 60, hoje aos 90; consomem, portanto, mais 30 anos de aposentadoria. Como é sabido, esta pensão têm de pagá-la os jovens. Mas, com uns velhos invadindo e estando presentes à frente de muitas instituições públicas e privadas pelo menos até início do seu marasmo senil(e, em muitos casos, mais além disso) os jovens não estão trabalhando e, portanto, não podem produzir para pagar a pensão para os idosos.

Nessa situação, mesmo se o país colocar a sua dívida no mercado títulos a taxas atractivas, os investidores estrangeiros não se fiarão, e, consequentemente, não haverá dinheiro para as pensões. No entanto, devemos ter em conta que, se os jovens não conseguem encontrar trabalho, têm de viver mantidos pelos seus pais ou financiados pelos pensionistas antepassados. Tragédia.

Primeira solução, e a mais óbvia. Os jovens têm de começar a elaborar listas de eliminação para os idosos sem descendentes. Mas não bastará, e como o instinto de sobrevivência é o que é, os jovens terão de resignar-se a eliminar todos os anos velhos com descendência, ou seja, os seus pais. Vai ser duro, mas apenas para se acostumar. Você tem 60 anos? Nós não somos eternos, Pai, todos nós vamos levar-te até à estação para sua última viagem aos campos de eliminação, com os netos que dizem “Olá avô.” Ou então, se os anciãos se revoltarem, seria accionar a caça ao idoso, com ajuda de informantes. Se isso aconteceu com os judeus, por que não com os aposentados?

Mas aqueles idosos que estão jubilados, e mesmo assim estão no poder, aceitariam este destino sem protestar? Antes de tudo, deviam ter evitado com tempo ter filhos para não trazer ao mundo potenciais exterminadores, de modo que o número de jovens diminuirá ainda mais. E, finalmente, os velhos capitães (e cavalheiros) da indústria, forjados em mil batalhas decidirão, mesmo com toda a dor do seu coração, acabar com filhos e netos. Não é mandá-los para campos de concentração, como têm feito com seus descendentes, como uma geração permanecerá ligada aos valores tradicionais da família e do país, desencadeando guerras, mas, como sabemos, foi exibido na quinta e mais jovem são, como disse o inspirador que agora nos governam, a única cura para o mundo.

Teremos assim um país sem jovens e com muitíssimos anciãos, saudáveis e florescentes, ocupados a erigir monumentos aos mortos e comemorando aqueles que haviam dado generosamente a vida pela Pátria. Mas quem trabalha para pagar as suas pensões? Os imigrantes, com imenso desejo de conseguir a cidadania italiana, ansiosos por trabalhar no duro a baixo custo e no mercado negro, e propensos, por antigas taras, a morrer antes dos 50 anos, deixando espaço a outra força de trabalho mais fresca. Assim, no transcurso de duas gerações, dezenas de milhões de italianos bronzeados garantirão o bem-estar a uma elite de nonagenários brancos com nariz vermelho e as grandes afortunadas (senhoras de rendas e chapéus), a beber uísque com soda nos pórticos das propriedades coloniais, nos lagos ou no oceano, longe dos miasmas das cidades, habitadas apenas por zumbis de pele escura que se embriagam com a bebida publicitada na TV. (…)»

Umberto Eco

Fonte da Imagem: Homevideos.com.

 

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