A Propósito da Velha Capela das Chãs‏

«A polémica em torno da velha igreja de Chãs (Regueira de Pontes, Leiria) é uma amostra da decadência lusa. A lógica é esta: constrói-se um mamarracho, depois deitam-se abaixo as antigas construções circundantes para lhe dar largueza. Abrem-se estradas e constrói-se em terrenos agrícolas, depois diz-se que a agricultura é inviável. Destroem-se as casas para alargar as ruas em função dos automóveis. Destelham-se as antigas mansões senhoriais, fazendo entrar o vento e a chuva, para se justificar a sua demolição. Obstruem-se as fontes públicas para obrigar os naturais a comprar a água da rede. Projecta-se destruir centenas de aldeias para fazer passar um TGV Lisboa-Porto (para ganhar só 30 minutos relativamente à actual linha). Conclusão: percorrendo o País, um estrangeiro dirá que as aldeias vistas da estrada não têm mais do que 40 anos, quando já existem há mais de 5 mil anos. Tudo arrasado. Em Espanha ou França há conjuntos de casas aldeãs que estão intactas desde há 600 ou mais anos (o problema é que os portugueses turistas não analisam, só lá vão pelo lazer). Destrói-se tudo o que lembre o “tempo da miséria” (como diz o povoléu referindo-se aos pais e avós) – visão de gente alienada, desmiolada, é o que isso significa.

Assim é a capela de Chãs. O pároco construiu com dinheiros do povo um “aborto de igreja” (em forma de garagem ou de armazém, o que interessa é fazer diferente do “antigamente”) mas por detrás da antiga. Como a nova ficou encoberta pela velha, propõe agora destruir a velha para a nova se ver, ganhar largueza e um adro afim de (penso eu, já conheço os costumes), uma vez por ano, aí organizarem um sarau com uma “banda rock”, coristas, Zé-Café e Guida, Quim Barreiros ou congéneres. É assim que os párocos alinham com a modernidade. Excitam a vaidade colectiva da aldeia, põem os vizinhos a competir em ofertas, e aí temos uma “igreja digna”. Para a Igreja católica as ideias de reforma, modernização ou actualização do catolicismo traduzem-se unicamente na construção de templos vistosos, caríssimos à custa da vaidade das colectividades que, aliás, os desertificam. A construção de novas igrejas é proporcional à diminuição dos sacramentos. E a Junta de Freguesia e o vereador da Cultura da Câmara de Leiria juntaram-se ao pároco para demolir a velha igreja. Santa aliança para a destruição!

Não haverá em mais parte nenhuma do mundo um lugar onde os autarcas militam ao lado dos clerigos para demolir uma velha igreja. Vemos no Público de16/7 que a Ordem dos Arquitectos defende a igreja antiga, “estimável obra de arquitectura, testemunho da religiosidade do passado” mas, diz o jornalista, “este parecer contraria a vontade da população que aprovou por unanimidade a demolição da igreja”. O pároco defende que a “diocese também tem arquitectos que são a favor da demolição”, que “a igreja não é constituída por pessoas analfabetas” e ele está “com o povo a 100 por cento”. Vamos por partes: é sintomático que sejam os laicos a defender a memória da “religiosidade popular” contra os clérigos. Já chegámos a este ponto. Quanto á “unanimidade da população”, é mentira. Por “unanimidade” entender-se-ia “todos os habitantes” da povoação (que contará 400 fogos), sem faltar uma pessoa, sem um voto contra e sem uma abstenção. Ora, houve várias reuniões em vários locais para debater o assunto mas “só lá foram alguns”, que não se opuseram embora “ficassem tristes com a ideia”, dizem-nos localmente. Quer dizer, o pároco entende por “unanimidade” só os que ele arrebanha (que sejam analfabetos ou letrados é irrelevante). Convoca os adeptos para o apoiarem… e diz ao público que “está com o povo a 100 por cento”. O chefe decide e o rebanho aprova (com medo de represálias politico-religiosas, serem mal recebidos aos balcões, perderem um subsídio…). Quem conhece estes chefes que os compre.

É assim que a memória destes sítios rurais habitados, organizados, laborados e cultuados desde há mais de 5 mil anos desaparece com o cliché popularucho da “modernidade”. Chãs significa “terras rasas, planas”. É o que fazem estes autarcas: em vez de conservar e restaurar, arrasam. Contra o “tempo da miséria”? Ora, eles e os políticos que os cooptaram, com o gastar perdulariamente os dinheiros públicos e privados, é que levaram à miséria – doravante moderna – em que os portugueses vão entrando… mas empenhados no bom “look” e na fachada de rico»

Moisés Espírito Santo

Fonte da Imagem: Dispersamente.

Anúncios