O deus vingador português

«No fim deste II milénio, para boa parte dos Portugueses, o conceito de Deus ainda tem o timbre dos antigos deuses semitas, um deus vingativo. As sociedades concebem os deuses à sua imagem; as religiões reflectem as respectivas culturas. A expressão “Deus não dorme” é um ditado corrente e aceite quando alguém deseja mal a outrem, ou quer vingar alguém. O pior dos defeitos humanos, a vingança (que “está na massa do sangue”), é atribuído também a Deus. Imaginam-no como se encontram a si próprios. Se a coragem falha ou o inimigo se escapa, pede-se a Deus que faça o papel de vingador, como alguém que espreita às esquinas aguardando o momento propício para executar o castigo. “Justiça de Deus” é vingança de Deus. É também a mais antiga concepção semita de Deus: “Deus das vinganças, o eterno Deus das vinganças; ele é ciumento e vingativo; ele exala a cólera, vinga-se dos seus adversários, é rancoroso para com os seus inimigos. A impunidade nunca Deus tolera!”.

As pragas, as maldições e as imprecações são outras tantas formas de pedir a Deus que pratique a vingança e, neste domínio, são bem instrutivas não tanto as pragas folclóricas tradicionais mas as novas pragas contra o “mal da inveja”, de que encontramos exemplos nos estabelecimentos comerciais: “Deus te dê o dobro daquilo que tu me desejas”. O “mal da inveja”, um poder sobrenatural que Deus atribui aos humanos para destruir o bem alheio com um simples olhar, é como a lusitana, em que o infantilismo intelectual é um comportamento normal e um modelo de conduta, aquele que tem algo pensa que os outros o cobiçam e podem destruir por processos mágicos. É o produto do conceito de Deus-vingador, uma projecção do desejo de vingança. O “mal de inveja” é uma tara das antigas culturas semitas.

O meio urbano português, onde o Deus popular ocupa cada vez menos espaço, transborda de crendices propaladas pelos mass media de grande audiência. Pode ser de bom tom dizer que Deus “não existe” mas “essas coisas”, obscuras e maléficas, que constituíam o pólo negativo do conceito tradicional de Deus, continuam a existir…»

Moisés Espírito Santo

Fonte da Imagem: Jerzy R. Trybeck photography (Brasil 2001).

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