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Excertos da entrevista com Carvalho da Silva, secretário-geral da CGTP, no Rádio Clube (ontem, 1 de Maio)

Jornalistas: António Ribeiro Ferreira, jornalista do Correio da Manhã (ARF); Nuno Domingues, jornalista do Rádio Clube (ND)

«(…) ARF – Uma proposta seguramente alternativa?

– Claro, naturalmente por caminhos alternativos, não para continuação das políticas que nos conduziram a isto. Mas permitam-me dar até um exemplo sobre o subsídio de desemprego.

ARF – Que agora está na agenda do dia porque o Governo quer reduzir as suas prestações.

– É o resultado das políticas e das práticas patronais que têm sido seguidas que leva ao desemprego, que empurra as pessoas para o desemprego. As pessoas não se desempregam por vontade própria. Os desempregados são vítimas desta situação. E depois vemos esta hipocrisia de colocar nos desempregados a responsabilidade de se encontrarem no desemprego.

ARF – Tudo em nome da redução do défice.

– Eles foram vítimas, o descalabro e o desequilíbrio que levou ao défice público não é da responsabilidade dos salários, não é da responsabilidade do subsídio de desemprego. Foram os milhões que foram deslocados do Orçamento do Estado para servir o sector financeiro e os grupos económicos. E agora lança-se sobre os desempregados, os pobres e sobre o conjunto dos trabalhadores o velho estigma, conservador e reaccionário, de que são potencialmente malandros. Isto quando a malandrice está lá em cima.

ARF – O Governo e o PSD estão de acordo sobre essa matéria.

– Pois é. No dia em que o primeiro-ministro, de manhã, recebe o líder do PSD, ao fim da manhã o primeiro-ministro vem dizer que vão tomar uma série de medidas em relação ao subsídio de desemprego. E que vão fazer cortes. Como um facto consumado. E à tarde, em sede de concertação social, o Governo, os patrões e os sindicatos estão a fazer de conta que vão discutir as condições em que vão mudar o subsídio de desemprego. Isto não dá.

ARF – O que é que não dá?

– Há uma coisa fundamental na sociedade quando se está numa situação de grande bloqueio. É haver clareza, transparência, rigor e responsabilização das instituições e pessoas na discussão dos problemas. Este autismo, esta inevitabilidade imposta por uma entidade superior que nos impõe isto e aquilo é demolidor.

RF – O que é que não dá?

– Há uma coisa fundamental na sociedade quando se está numa situação de grande bloqueio. É haver clareza, transparência, rigor e responsabilização das instituições e pessoas na discussão dos problemas. Este autismo, esta inevitabilidade imposta por uma entidade superior que nos impõe isto e aquilo é demolidor.

ARF – O primeiro-ministro diz que há muitos desempregados que recusam trabalho porque ganham mais com o subsídio. Isto é verdade?

– Essas afirmações chocam-me profundamente, essencialmente do ponto de vista ético. Para além de terem do ponto de vista económico, do ponto de vista material, dimensões que nos devem revoltar.

ARF – Revoltar porquê?

– Nas últimas décadas o País assistiu a uma camada da grande burguesia que se instalou no poder. Grandes accionistas de grupos económicos, gestores ao seu serviço, um grupo de poucos milhares que se move em troca de favores e que entre si vão repartindo o poder e a riqueza. Com muita corrupção e compadrio. É por isso também que remuneram principescamente os gestores. Este grupo apoderou-se do fundamental da riqueza. E o povo vê que não há valorização do trabalho, do esforço, vê este exemplo que corrói a sociedade. E nós estamos numa sociedade humana. Se em cima há maus exemplos, por aí abaixo com certeza que também os há.

ARF – Mas esses comportamentos são maioritários?

– Não. A grande massa dos portugueses, a juventude que está sem perspectivas, os trabalhadores em geral o que querem é ter emprego e trabalhar. Não querem viver sem trabalho. Isso é usar o estigma de que os pobres e os desempregados são potencialmente malandros. Isso já foi usado no século XIX, em que os indigentes eram condenados à morte.

– O País não vai sair dos bloqueios em que está se não confrontar uma certa burguesia que se instalou no poder, que troca favores entre si. Eu não estou a dizer para se acabar com eles.

ARF – Não é pô-los no Campo Pequeno.

Não, não é isso. Nós estamos numa sociedade capitalista, o lucro tem o seu lugar. Agora, tudo tem de ter regras. Nós temos obrigação de fazer esse afrontamento. E no plano da governação temos de deixar de ter esta espécie de ciclo vicioso, em que a crise e as chamadas reformas são duas faces da mesma moeda. A crise em Portugal transformou-se numa instituição. Há falta de argumentos, invoca-se a crise, por culpa externa para não se olhar para os problemas internos. E porque há crise fazem reformas. Mas são falsas reformas.

(…) ND – Acha que o subsídio de desemprego, com estas alterações, vai acabar por ser inferior ao salário mínimo em certos casos? Vamos chegar aí?

– Há duas coisas ligadas ao subsídio de desemprego que são claras. O desemprego para uma parte significativa dos empresários, não é a generalidade, nós temos também gente séria, e os esquemas em torno do subsídio de desemprego, leva-me a dizer que o desemprego tornou-se, é um negócio para uma certa camada parasitária de empresários.

ND – E não vai diminuir?

Não vai diminuir. Andam à procura de coisinhas para a política activa de emprego e cada vez tornam o emprego mais precário. A instabilidade aumenta, mas vão aqui e ali à procura de vantagens, de não pagarem à segurança social e por aí adiante. E andam nisto. É uma mesquinhez que destrói emprego. E repare. A precariedade é o maior destruidor do emprego.

ARF – Fazem isso para pagarem menos?

– É uma estratégia que está em marcha. Não sei se o primeiro-ministro já se apercebeu. É todo um processo que conduz à diminuição da retribuição do trabalho. Isto é inadmissível.

ND – E esses esquemas não criam emprego?

– Não criam emprego. Repare. O secretário-geral da OIT já o disse. Não se chame saída da crise a políticas que não criam emprego. E outro dos factores que pesa negativamente na economia e no emprego é o facto de estar a haver uma diminuição da retribuição do trabalho.

(…) ARF – Quantas pessoas em Portugal perderam emprego e já não têm subsídio?

– Não há números certos. Mas são muitas. Pode estar entre as 150 e as 200 mil. Há também os que já desistiram de procurar emprego e não entram nas estatísticas, há os que vão fazer uns meses a França ou a Espanha. E há a juventude. A precariedade é tal ordem que muitas vezes não conseguem preencher o tempo de trabalho para receberem o subsídio.

ARF – São números assustadores?

– Se somarmos os que estão oficialmente no desemprego, mais os que estão no desemprego a fazer formação, esse número já ultrapassa os 660 mil.

(…) ARF – Olha-se para o PEC e vê-se que com o crescimento de 1,7 em 2013 o desemprego não irá baixar, pois não?

– Quando o Governo apresenta o PEC vangloria-se de ter reduzido 73 mil postos de trabalho na administração pública entre 2005 e 2009. Isto é um desastre. É um sinal que se está a dar à sociedade que é preciso destruir emprego. Isto não tem sentido.

ND – Estes números aparecem quando a Espanha está com mais de 20 por cento de desempregados. O que é mais grave? Os 10,5 em Portugal ou os 20,5 em Espanha?

– Uma nota prévia e um comentário. Quando nós falamos em crise o que tem que estar no centro são as pessoas. Temos de ver as condições concretas. A Espanha tem um desemprego muito elevado, mas o nível médio de vida dos espanhóis está muitos furos acima do nosso.

(…) ARF – Está tudo unido.

Está tudo unido nessa lógica. O que o PSD veio acrescentar de novo são três coisas que apenas aprofundam o problema. É o acelerar uma revisão subversão da Constituição, a ver se encontram as condições para depois darem a porrada na legalidade, é a afirmação de que os direitos sociais devem ser entregues ao mercado. E eu digo que Portugal corre o gravíssimo risco de fragilização do Estado social e em particular da segurança social. Várias das propostas apresentadas no PEC e não só são perigosíssimos engulhos para o futuro da protecção social e da segurança social. Ai de nós se desarmamos a segurança social.

ARF – Porquê?

– Lembro que temos neste País 18 a 20 % de pobreza oficial porque nos últimos anos se aguentou alguma protecção e evitou-se que se alastrasse. Porque se as medidas não fossem adoptadas o que se afirma é que o número duplicava.

ND – Para 40 % ?

– Para 40 a 42 % de portugueses considerados pobres. Portanto, muito cuidado com isto. E aqui é o drama. Há uma convergência total entre o Governo, o Presidente da República e os partidos de direita. O PSD vem com esta história agravar e com a outra invenção extraordinária, que é privatize-se tudo para não haver corrupção. Como se não houvesse corrupção no privado. O cenário é este para as presidenciais e há outro problema.

ARF – Qual é?

– O Presidente da República, que vai ser candidato, está quieto. Se puder encanar a perna à rã durante estes oito meses para não criar chatices, melhor é. Ora quando o Pais está com problemas profundíssimos isto desarma o que deveria ser o conteúdo fundamental do debate das presidenciais. Definir uma estratégia para o futuro.

(…)»

Entrevista complecta em: Pobreza na Imprensa.

Fonte das Imagens: Observatório das Desigualdades do ISCTE.

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