Intimidades e interesses escondidos no caso das escutas à Presidência

Publico1808091. No dia 18/08/2009 o Público noticiava em manchete: “Presidência suspeita estar a ser vigiada pelo Governo”.

Um mês depois (a 18 de Setembro) o Diário de Notícias publicava um e-mail de Luciano Alvarez, para o seu colega da Madeira, José Tolentino Nóbrega, em que explicava o que se passava e onde era evocado o nome de Fernando Lima, acessor da Presidência da República (e um dos estrategas da comunicação de Cavaco Silva desde os tempos do cavaquismo) como fonte da notícia. O estranho aqui é que a notícia em causa tenha sido assinada por São José Almeida e não por este jornalista.

2. O Sol desta semana noticia que a Comissão da Carteira Profissional do Jornalista abriu um inquérito ao Diário de Notícias por essa revelação de fontes de outro jornal, o que pode levar à quebra de confiança entre jornalistas e fontes.

3. O questionamento do provedor a propósito da notícia “Presidência suspeita estar a ser vigiada pelo Governo” causou, pela primeira vez, mal-estar entre Joaquim Vieira e José Manuel Fernandes. O provedor estranhou não haver contraditório na noticia e não serem aproveitadas as informações versão enviada pelo correspondente no Funchal sobre a visita de Cavaco à Madeira.

O director do Público afirmou que não respondia a mais perguntas do provedor e censurou por escrito o jornalista Tolentino de Nóbrega, correspondente do Público no Funchal, pela resposta escrita dada ao provedor sobre a matéria da crónica e considerou uma “anormalidade” ter falado com ele ao telefone.

Por outro lado, na crónica seguinte, “A questão principal”,  Joaquim Vieira questionou se o jornal tinha agenda escondida. Obviamente, sim:

O director José Manuel Fernandes sempre se deu bem com o cavaquismo e demonstrou-o durante a campanha presidencial e mesmo depois, fazendo editoriais onde Cavaco Silva era apresentado como a melhor escolha.

Belmiro de Azevedo, empresário e proprietário do jornal, gaba-se à muito da sua independência perante o poder politico. Essa independência tem como contraponto a dependência do poder político perante este empresário. Belmiro sempre condicionou as opções editoriais do seu jornal.

4. José Manuel Fernandes alegou que havia escutas do SIS na redacção, informação negada pelo chefe do SIS. Quem está enganado? Quem mente? Se não houve escutas, como um e-mail pessoal de Luciano Alvarez se tornou noticia num jornal concorrente?

Entretanto, o jornal Expresso noticia que a Presidência da República “insiste” em manter as informações sobre a suspeita de que assessores de Cavaco Silva tenham estado sob vigilância.

5. O Diário de Notícias, com gestão pública ou privada, tem sido uma caixa de ressonância do poder. Olhando-se para as manchetes dos últimos meses, fica-se com a sensação que se quer agradar ao governo em funções a todo o custo. Tenho a certeza que se houver mudança de partido no governo, a necessidade de agradar manter-se-á.

capa18-09-20096. João Marcelino adaptou-se bem a essa politica de agrado ao PS. Passou de editoriais de ataque ao PS no Correio da Manhã à defesa incondicional das politicas propostas e aprovadas por este partido. Isso inclui a criação de manchetes como “Cavaco obviamente demitiu-o” (Diário de Notícias, 22/09/2009).

O Sol chama a atenção para o seu modo de proceder dúbio: em 14 de Agosto de 2004 apelidava de «acto nojento» a publicação no extinto semanário O Independente do conteúdo de cassetes roubadas ao jornalista Octávio Lopes, que continham conversas com fontes sobre o processo Casa Pia. Agora defendeu em editorial a publicação do e-mail do jornalista do Público, alegando: «Notícias são notícias».

7. Entretanto, Cavaco Silva apenas retirou funções a Fernando Lima, o acessor citado no e-mail, mas manteve-o no cargo. Numa primeira fase saiu a noticia que ele tinha sido «demitido», mas não foi isso que se passou. O Presidente da República dá apenas um passo atrás, para depois das legislativas puder dar dois à frente… Cavaco Silva prometeu falar depois das eleições.

8. Estranho: Francisco Louça (líder do Bloco de Esquerda) já tinha revelado no dia 9 de Setembro que quem levantou as suspeitas sobre as escutas do Governo à Presidência da República foi Fernando Lima, assessor de imprensa de Cavaco Silva. Como ele soube disso?

9. O PSD tem desenvolvido a campanha sob mote de muito soundbite. Um dos motes tem sido a questão da «asfixia democrática». É um tema apropriadíssimo: este governo PS deu uma contribuição importante para que a Democracia se torne cada vez mais uma palavra oca. O problema é que o PSD-governo também tem dado o seu pequeno contributo para esta situação. Essa quota de ajuda não pode ser esquecida.

Com a exoneração de funções do acessor Fernando Lima, Manuela Ferreira Leite resolveu esvaziar a polémica. No entanto, Pacheco Pereira, o não-militante mais activo do PSD, admitiu que este caso condiciona os resultados eleitorais e que o Presidente deu «uma ajudinha desnecessária” ao PS.

Fonte das Imagens: Herdeiro de Aécio; Jumento.

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