No Centro

Não-Lugar-IX.Acrílico s.tela.50X70cm

Entra-se no Centro Comercial e o mundo fica lá fora. Ficamos encadeados pelas luzes.

Lá, pensamos que podemos comprar produtos das marcas mais conceituadas. Mas afinal a roupa estraga-se depois de duas lavagens.

Lá, vemos o último filme acompanhado de pipocas cujo degustar se torna ruidoso, incomodando o vizinho que o quer ver silenciosamente.

Lá, pensamos ter um menu único de comida saudável, cheia de opções e vinda de qualquer ponto do globo. Mas não: quando voltamos a fazer análises, descobrimos que o colesterol aumentou.

Lá descobrimos o livro que queríamos mesmo ler ou o CD que precisávamos. Mas depois descobrimos que o nosso cartão de crédito já não é suficiente para pagar a despeza.

Está tudo concentrado na mesma praça desta mini-cidade.

Lá, as luzes disfarçam a crise económica, o desemprego e as tristezas. Mas por pouco tempo.

Por momentos podemos ser todos igualmente felizes. Mas a ilusão, ao olhar mais de perto, passa.

Ir a um Centro Comercial lembra-me sempre o conceito de não-lugares de Marc Augé: espaços de passagem, impessoais.

Fonte da Imagem: Ana Pais Oliveira (“Não Lugar IX”, acrílico sobre tela).

Nota: Postal repaginado de um outro, inicialmente publicado em 04/03/2006 num blogue cujos arquivos tirei da internet, tendo apenas guardado o seu conteúdo.

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