Estar atenta aos sinais: Portugal, 2009

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«A maior parte dos homens que ali se encontravam serviria, pelo menos, a quatro governos; e teriam vendido a França ou o género humano para garantir a sua fortuna, para não sofrerem um mal-estar, uma dificuldade, ou até por simples baixeza, por adoração institiva da força. Todos declararam crimes políticos indefensáveis»

Gustave Flaubert

«(…) Também mostrava que a cruzada corporativista podia avançar por estes métodos patentemente autoritários e continuar a ser aplaudida como sendo democrática só porque havia eleições (…)»

Naomi Klein

Compreendendo porquê o Estado Novo durou tanto tempo, é pertinente que se faça uma análise sintética & ponto de partida para outras análises da situação portuguesa actual, 35 anos depois do 25 de Abril:

– Antes tudo o que era feito era “a bem da nação”. “A bem da nação” não havia discussão. Hoje tudo é feito a bem do “desenvolvimento do país”, do “progresso” e da “competitividade”. Mesmo quando o que se faz prejudica o país. A bem da “competitividade” temos:

  • Aposta única e exclusivamente no turismo como indústria em desenvolvimento.
  • Aposta na imigração, na mão-de-obra barata e na precaridade como desenvolvimento interno.
  • Aposta no fecho de hospitais e serviços públicos por todo o país, com especial prejuízo no interior.
  • Colocação de grande parte do território nacional na mão de estrangeiros ou de grandes empresas e não preservação dos espaços naturais do país – esta política, seguida por vários governos, atingiu um climax com a invenção dos chamados PIN (Projectos de Interesse Nacional).

– O Estado Novo fazia questão de deixar grande parte do país analfabeto. Hoje a todos são dadas novas oportunidades de estudar, sucesso a rodos no primeiro e segundo ciclos e diplomas universitários. Mas o eduques oficial esconde mal a iliteracia funcional (e mesmo o analfabetismo funcional) de pessoas com diploma. Continuamos analfabetos, agora com diploma!

– Não criamos nada: todas as nossas ideias – políticas, culturais, económicas, etc. – ou são importadas dos Estados Unidos, recicladas e vendidas como novas, ou vêem em forma de directiva ou resolução da União Europeia.

– Quem quer ser apelidado de bom democrata temos de escolher entre o neo-liberalismo versão PSD e o neo-liberalismo versão PS. Eventualmente, podemos escolher neo-liberalismo versão CDS. As diferenças entre propostas desvanece-se cada vez mais. E Cavaco Silva, na sua campanha, tentou ressuscitar o mito do político apolítico!

– Quem pensa de uma forma diferente é tachado de comunista ou de extrema-direita. Na prática, a mão invisível do mercado oferece às pessoas a hipótese de escolha entre um pensamento quase único e ser marginalizado politicamente.

– Continuamos com a mentalidade que já vem do absolutismo:

  • Subserviência aos poderosos e aos poderes instituídos (poderes político e económico).
  • Amor pela “ordem”, que é uma forma falsa de resolver todos os problemas. Promoção da passividade e da não-discussão.

– Existe um claro apoio dos grandes empresários à situação actual, que lhes traz vantagens.

– Continuamos no Estado Novo…

  1. Alimenta-se a ideia de que a caridade é uma forma de solidariedade e que substitui a justiça social. Esta ideia é alimentada, esquecendo-se muitas vezes que a caridade também recebe financiamento estatal!
  2. Voltámos a ter os números de emigração dos anos 60 do século XX.
  3. O Estado continua a alimentar-se de impostos e coimas (que depois são mal geridos porque se pensa mais em interesses privados que nos interesses dos cidadãos contribuintes).
  4. Os cofres de alguns empresários mantém-se cheios, tendo este cada vez mais móbil com que despedir.
  5. Quere-se convencer toda a gente, que se vive no melhor dos mundos.
  6. Promoção da corrupção, do clientelismo, do amiguismo tudo isso agora às claras (sem a capa da “moral e bons constumes” do Estado Novo) entre interesses públicos e privados.

– Corporativismo: a UGT é um sindicato dependente do regime, sempre a fazer acordos proveitosos.

– Têm sido cada vez mais completamente ignoradas as manifestações dos descontentes, especialmente de professores e agricultores. Os governos comportam-se como se elas não existissem, como se não se baseassem em motivos reais de descontentamento.

Fonte da Imagem: Grandes Empresas.

Leituras Adicionais (neste blogue):

João & Xavier falam de política

Sinais

Máquina Alegre

Testemunho: formadoras(es) do sector público

Duas situações, 81 anos de diferença

Última Actualização: 25/06/2009

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