Máquina Alegre

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1.

Em Janeiro de 2006, nas eleições presidenciais que elegeram Cavaco Silva, votei em Manuel Alegre. Dado que não é possível ser ressarcida por esse gesto, serve este texto para acertar contas.

2.

Manuel Alegre de Melo Duarte faz parte da fina-flor portuguesa, daquela que nos governa desde inicios do século XIX. Pertence pois a uma linhagem de barões que rivalizavam com os frades na prosa de Almeida Garrett.  O avô paterno caçava com o rei D. Carlos. O avô materno era republicano. Tal como Mário Soares, teve acesso à melhor educação e à hipótese de exílio, enquanto opositor do regime salazarista.

3.

Na altura não dei conta, mas hoje quando olho para trás vejo que o candidato Manuel Alegre passou a campanha a dar piscadas de olho tanto à esquerda como à direita, dividindo-se entre bispos, monárquicos, touros, caça, comunistas e anarquistas, sem um sentido e um discurso coerente. Votei em Manuel Alegre apesar das dúvidas em relação ao seu carácter, dado que todos os restantes candidatos me pareceram piores.

4.

Manuel Alegre conseguiu um milhão e cem mil votos, um deles o meu. E andou três anos a vangloriar-se deles. Pelo meio criou o MIC, um movimento onde apenas uma certa elite dita “de esquerda” tinha assento e voz. Este movimento ao longo da sua curta existência limitou-se a fazer referendos internos para decidir coisas que devia ser o deputado Manuel Alegre a decidir em consciência! Fazendo assim um mero folclore da sua existência.

5.

Ao longo da legislatura, mostrou-se muitas vezes a única voz incómoda dentro do PS, sendo dos poucos que contestou a revisão do Código do Trabalho. No entanto, à medida que a legislatura ia passando, dividia-se entre a ligação ao Bloco de Esquerda em busca de uma suposta “alternativa de esquerda” e piscadas de olho internas, dentro do PS.

6.

Por fim, em vésperas das legislativas, Manuel Alegre decidiu que era melhor para si e para os acólitos do MIC que tudo ficasse como estava. Por isso, fez uma conferência de imprensa onde bombasticamente (ou não) anunciou que não saia do PS, não fundava um novo partido e não se candidatava nas legislativas. Mas este negócio PS-Manuel Alegre revelou-se lucrativo para o segundo: conseguiu que três dos seus apoiantes – Nuno David, Jorge Bateira e Elísio Estanque – nas listas do PS para as legislativas. Entretanto, Manuel Alegre ficará à espera de uma oportunidade de se candidatar à presidência da república, enquanto recebe a reforma de deputado. Mesmo que o momento certo nunca chegue.

7.

Manuel Alegre provou ser um independente disfarçado, alguém que joga com os partidos e os eleitores, ao sabor das suas conveniências.

Fonte da Imagem: Platonismo político.

Leituras Adicionais:

Manuel Alegre – D. Duarte e a Democracia – uma biografia portuguesa.

“Independentes” nas autarquias – entre o taticismo e o disfarce.

Falemos de coisas importantes: Manuel Alegre.

Pelo menos três apoiantes de Alegre deverão integrar a lista às legislativas.

Última Actualização: 28/07/2009

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