Leituras: Kafka para principiantes – parte 3

franzkafka2Aproveitando que estava a ler Kafka, reli também os “Diários” e li outros escritos íntimos.

Nos “Diários” encontrei um Kafka inicialmente alegre, que se torna com o tempo melancólico e taciturno. Senti que há medida que lia a atmosfera soturna, que tinha sentido da primeira vez, aumentava. Mas por outro lado os “Diários” estão carregados de ironia, tanto em relação a si mesmo, como em relação aos que se relacionam com ele. Nos “Diários” Kafka esboça a sua visão acerca da família, da Praga judaica, dos amigos e das relações amorosas que teve. Conta sonhos, ficciona acontecimentos, esboça aforismos e contos, fala das suas leituras (Goethe, Kiekergaard e Dickens são os mais citados). Mas à medida que envelhece os momentos tédio, de apatia, de indiferença aumentam (diz-se que Kafka sofria de ansiedade e depressão crónicas). Também a partir de 1917 a tuberculose se vem juntar ao ror de problemas de Franz Kafka (embora ele nem sempre a considere algo negativo). Os “Diários” terminam em 1923 (mas penso que Franz Kafka escreveu cartas até ao momento da sua morte).

Li também “Meditações sobre o pecado, o sofrimento, a esperança e o verdadeiro caminho” (recentemente editadas como Aforismos pela Assírio & Alvim). Foram escritas em Zürau (aldeia do nordeste da Boémia, onde Kafka se encontrava de férias, em casa da sua irmã Ottla, depois de lhe ter sido detectada a tuberculose). Estas meditações são uma espécie de balanço da vida pessoal. E são também, obviamente, o balanço possível do mundo possível. A consciência da doença e da proximidade da morte, o fim do seu segundo noivado e o ar campestre (que Franz Kafka muito apreciava) moldaram a sua escrita. A doença era encarada como uma libertação, na época. Estas meditações estão também impregnadas de judaísmo, mas sempre de um ponto de vista distanciado. Várias vezes perguntei-me se estes epigramas se poderiam considerar literatura religiosa, se ateia. Por exemplo:

«69 – Teoricamente, só há uma possibilidade perfeita de felicidade: acreditar no indestrutível em si sem a ele aspirar».

Há também nelas qualquer coisa de hedonismo. Também o problema do conhecimento – o que e como podemos conhecer – é um tema que aparece nestes epigramas (tema desenvolvido em toda a obra).

Para além destas, existem outras “Meditações”, escritas no fim da vida, de carácter sem dúvida mais religioso. Kafka começa-as com uma interrogação directa à sua alma («De que tnewkafkae queixas, alma abandonada?»). Kafka conhecia a psicanálise, e penso ter tentado usá-la como método de cura. Aqui mostra-se contra ela: «Todas estas pretensas doenças, por mais tristes que sejam as suas formas, são realidades de crença, fixações do homem em perigo em qualquer solo materno; assim a psicanálise, quando procura o fundo original das religiões não encontra mais do que aquilo que institui as “doenças” do indivíduo; é verdade que falta hoje a comunicação religiosa, que as seitas são inúmeras e se limitam na maior parte das vezes a pessoas isoladas». Este é apenas um excerto de um pensamento onde Franz Kafka tenta mostrar que a religião é a cura das doenças, não a psicanálise.

Também fala da importância do jejum. Alternam observações entre o que é a vida e o caminho de Franz Kafka e outras, ligadas à religião judaica.

Na “Carta ao pai” encontramos um Franz Kafka revoltado perante um pai castrador, que lhe tolhe e condiciona todos os movimentos (e todos os noivados) e que não sabe apreciar o talento literário do filho. Esta carta consegue facilmente captar a adesão do leitor (quem nunca se sentiu esmagado pelo poder de alguém?). Hermann Kafka, o pai, era de facto uma pessoa dura e exigente com os outros. Começou a trabalhar aos 14 anos e conseguiu tornar-se num homem rico. Mas para Luís Izquierdo esta carta, nunca entregue ao remetente, contém exageros. É necessário ter cuidado na leitura senão «corre-se o risco de que se tome por factos o que são, do principio ao fim, estilizações resultantes da muita experiência adquirida por um homem já maduro e, além disso, escritor».

Leituras de Franz Kafka:

– Franz Kafka, Os melhores contos de Franz Kafka ( [Lisboa?], Arcádia, imp. 1966).

Selecção e tradução de A. Serra Lopes. Prefácio de Armando Ventura Ferreira. 2ª ed.

– Franz Kafka, O Covil (Mem Martins, Europa-América, 1990). Prefácio e tradução de João Gaspar Simões.

– Franz Kafka e outros, Três novelistas contemporâneos (Lisboa, Presença, 1966).  (Contém “Investigações de um Cão”).

– Franz Kafka, O Processo (Porto, Público Comunicação Social SA, 2004). Tradução de João Costa e Delfim de Brito.

– Franz Kafka, O Castelo (Mem Martins, Europa-América, 1991). Tradução de Maria Helena Rodrigues de Carvalho.

– Franz Kafka, América (Mem Martins, Europa-América, 1990). Tradução de Maria de Fátima Fonseca. 2ª ed.

– Franz Kafka, Antologia de páginas íntimas (Lisboa, Guimarães, 1961). Selecção, prefácio e tradução de Alfredo Margarido.

– Franz Kafka, Diários: 1910-1923 (Lisboa : Difel, [199-?]. Tradução de Maria Adélia Silva Melo.

Leituras Complementares:

– Luiz Izquierdo, Conhecer Kafka e a sua obra. (Lisboa? : Ulisseia, [198-?] ).

– Claude Thébaut, As metamorfoses de Franz Fafka (Lisboa, Quimera, 1993).

Kafka em Portugal

Wikipédia em Inglês – Franz Kafka

Zadie Smith on Kafka

Metamorfose – de Kafka

Fonte das Imagens: Don Stevens Gallery Postcards; Myspace de Jen.

Fim da série “Kafka para principiantes”

Parte 1

Parte 2

Última Actualização: 30/03/2009

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