Leituras: Kafka para principiantes – parte 1

Desde acerca de uma década que de vez enquanto alguém me diz: “Tens de ler Kafka!”. Hannah Arendt refere-o várias vezes, Milan Kundera também. Demorei a pegar nos livros de Kafka pois tinha uma ideia que era um escritor difícil (para eruditos) e nebuloso. Tinha lido, há alguns anos os “Diários” e a atmosfera soturna levou-me a adiar a leitura da obra o que só aconteceu nos últimos meses. O objectivo desta série de postais é desmistificar preconceitos à volta de Kafka, para aqueles que já se sentiram como eu.

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franz-kafka-wwwFranz Kafka nasceu em Praga, em 1883. É necessário lembrar que até 28 de Outubro de 1918 esta cidade, bem como grande parte do território que é hoje a República Checa pertenceu ao Império Austro-húngaro. Praga era o centro do Reino da Boémia. Em 1918, tendo Franz Kafka 35 anos, foi proclamada a República da Checoslováquia.

Kafka passou a vida divido entre uma tripla identidade:

– Era judeu e as suas relações familiares e as maiores amizades foram judeus (e Kafka interessou-se muito pela cultura judaica, chegando a estudar ídiche e hebreu). Chegou a pensar mudar-se para Israel com uma das suas noivas. Mas o judaísmo nem sempre o satisfazia e Franz Kafka não foi um judeu praticante durante muitos anos.

– Escrevia em alemão, tendo a sua educação superior sido nessa lingua. Admirava muito Goethe. Isso eram coisas que o aproximavam do círculo germanófilo (embora nunca tenha sido aceite em círculos germanófilos).

– Era checo (identidade pré-existente à independência da Checoslováquia, com uma língua diferente do alemão; penso que Kafka nunca se sentiu checo, apesar de se ter dado conta da existência de uma cultura popular checa e das suas potencialidades; para além disso, muitos empregados do pai eram checos e Kafka deixa transparecer algum respeito por eles).

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Aconselho a quem vai ler as obras de Franz Kafka deve começar pelos contos, que para mim são o melhor do autor. Estes são filosóficos e anedóticos, sendo possível encontrar as duas características juntas (tudo depende da analise de quem lê).

“A Metamorfose” é um clássico e com razão. Relata as consequências da transformação de um caixeiro-viajante num news2_0insecto. Inicialmente ele estranha a mudança e ainda pensa como um homem cheio de deveres (sendo o principal dever sustentar a família). Pouco a pouco vai-se habituando à vida de ócio (ao mesmo tempo que os seus familiares começam a tomar decisões difíceis), actuando como um verdadeiro verme.

Ao nível da família, passa-se de uma total dependência do caixeiro-viajante para uma autonomia cada vez maior dos seus membros, cuja coroação é o amadurecimento da irmã do protagonista e a morte deste. Li “A Metamorfose” depois de ter lido “Carta ao Pai” e a animosidade entre pai e filho é semelhante. Mas à medida que o conto flui, Franz Kafka abandona esses considerandos e este passa a ser uma paródia melancólica à vida e à liberdade.

Outro conto que tem como tema a relação pai-filho é “A Sentença”. Com este título que nos remete para o mundo dos juízes e das leis, Kafka constrói um conto à volta da verdade, da mentira e da amizade. O clímax do conto é uma conversa entre pai e filho. Sentenciado como culpado, o filho cometerá o suicídio.

Kafka usa o mundo das leis (os tribunais e as prisões) como pano de fundo de muita da sua ficção. “Diante da Lei”, a história de um agricultor que deseja passar por uma porta mas é impedido por um guarda. Mais parece um prelúdio de O Processo (mais tarde esta estória acompanhava esse romance, nalgumas edições).

“A Colónia Penal” é a estória de uma morte que não aconteceu e de outra que acaba inesperadamente por acontecer.mar_postercolony

“Chacais e Árabes” é um conto que liga Franz Kafka ao sionismo. Foi inicialmente publicado no Der Jude (“Os Judeus”), um jornal que advogava a cooperação entre judeus e árabes para a criação de um estado binacional israelo-palestiniano. Trata-se de um conto centrado no diálogo entre um viajante europeu e alguns chacais encontrados no deserto. Estes pedem ao viajante que acabe com um ódio antiquíssimo entre eles. O viajante é tratado como um messias e os chacais queixam-se que os árabes são sujos e insensatos (ao contrário dos homens do Norte, ou seja, da Europa). O conto termina com os chacais a beberem o sangue de um camelo morto e a serem chicoteados por um árabe, que refere o ódio existente. Segundo algumas interpretações, os chacais são os judeus ortodoxos que na altura viviam na Palestina.

“Um médico de aldeia” trata das desventuras de um médico numa noite escura em que é chamado para uma falsa urgência. Este conto tem uma atmosfera pesada e está cheio de seres mitológicos (e simbólicos).

No conto “O Vizinho” voltamos ao mundo das profissões liberais, em que um solicitador se sente ameaçado por um vizinho colega de profissão, a ponto de se sentir perseguido e vigiado constantemente. A obsessão pela perfeição é tratada no conto “O primeiro desgosto”, que conta a história de um trapezista que faz da profissão a sua vida. O animal do conto “O Covil” também partilha a obstinação pela perfeição: quer construir o covil perfeito, inacessível aos outros animais e com comida sempre à mão. Mas, tal como o solicitador de “O Vizinho” acaba por se sentir acossado – por um animal que não conhece mas que sente que pode matá-lo a qualquer momento.

“Reminiscência do caminho-de-ferro de Kalda” é o elogio da vida solitária. Esta é uma história que faz parte dos “Diários” mas que eu encontrei publicada separadamente. O autor põe as palavras num antigo empregado dos caminhos-de-ferro russo. Ainda dentro desta temática, encontramos “O Solteirão”, a descrição dos hábitos de Préflury, o solteirão, que parece ser uma caricatura do próprio Franz Kafka (uma auto-caricatura bem-humorada?).

“Fábula curta” é uma versão curta e filosófica da história do gato e do rato. Franz Kafka usa ainda os animais para ridicularizar os homens: “O novo advogado” trata de um cavalo no mundo do direito. “Comunicação a uma academia” é a história um símio que se decidiu tornar humano, contada na primeira pessoa, numa palestra ficcionada. Quando se comparam homens e animais, os primeiros ficam sempre a perder. Mas este palestrante acaba por escolher aprender a ser homem, deixando-se contagiar pela paixão pelo saber.

Fontes das Imagens: Franz Kafka – Prague Wax Museum; Iconocast; Blogue do Teatro Municipal da Guarda.

Fim da Primeira Parte

Última Actualização: 30/03/2009

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