Dominique Wolton, os intelectuais e a televisão

746052 Voltando ao Elogio do grande público de Dominique Wolton…

«Não há unidade no mundo cultural, também não existe no mundo intelectual. É pois para facilitar a argumentação que as palavras “meio cultural” e “intelectual” serão utilizadas neste capítulo e nos outros. Há com efeito profundas diferenças de hierarquia, de natureza de actividades no mundo cultural como no mundo intelectual. Partido desta premissa, o autor analisa o comportamento dos intelectuais relativamente aos media. Se aparentemente todos os intelectuais concordam que os media, e em particular a televisão, estupidificam o ser humano, na prática eles têm diversas atitudes perante eles:

– Existem os intelectuais mediáticos (e os tecnocratas mediáticos, seus primos, normalmente empresários e ex-governantes) que utilizam os media de forma sistemática. Poucos, no entanto, reconhecem esse carácter sistemático e a sua importância para a sua exposição pública (logo credibilidade).

– Para Dominique Wolton tinha aparecido recentemente (o livro é de 1990) um grupo novo, os intelectuais estrategos, composto por gente mais nova que ambicionava tornar-se conhecido, embora estes criticassem a televisão pretendiam-se servir-se dela para alargarem a sua esfera de influência (tornando-se intelectuais mediáticos).

– O autor refere ainda os intelectuais que usam os media como instrumento de trabalho, a que ele chama intelectuais utilizadores.

– Por fim, Dominique Wolton refere o grupo dos intelectuais anónimos, que permanecem afastados do mediatismo e da televisão. Isso acontece ou porque eles estão a desenvolver investigações que não lhes permitem ser alvo de mediatismo, ou porque simplesmente não são consultados sobre nada.

Para Dominique Wolton cada país tem cerca de 20 pessoas a quem os media nomeiam como “intelectuais” e que são consultados a propósito de tudo o que acontece, tornando-se omnipresentes. Esses intelectuais acabam, por vezes, por ter uma credibilidade diferente nos media e na academia. Para a televisão o que importa é que um intelectual consiga resumir em menos de 5 minutos, de forma clara, uma ideia sobre determinado tema. Para o autor, aliás, os intelectuais mediáticos só existem com a concordância dos profissionais de comunicação.

Em França, segundo dá a atender o autor, os media têm preferência por dois tipos de intelectuais: os filósofos (quanto mais pessimistas e radicais melhor) porque têm um amor infinito ao saber e podem fornecer uma futurologia rapidamente. O autor menciona Raymond Aron, que no fim da vida se recusava a comentar tudo o que lhe pediam, alegando: «Não sou a consciência universal». São poucos os que actualmente mostram esta modéstia e falta de egocentrismo… E os historiadores, que têm como função evocar o passado (a televisão, sobretudo, vive muito de imagens feitas anteriormente, que podem servir como pano de fundo. Outro grupo que tem grande prestigio nos media são os médicos. Para Dominique Wolton, o grupo menos consultado são os cientistas, pois normalmente são menos divertidos que os grupos aqui elencados. Para o autor os que são “parentes pobres” no mediatismo são os profissionais da cultura (realizadores, escritores, coreógrafos, programadores, etc.) e os cientistas sociais (economia, sociologia, psicologia, ciências politicas). Neste ponto a situação portuguesa é diferente.

Em Portugal praticamente não há filósofos mediáticos: Desidério Murcho, José Gil e João de Almeida Santos são ainda as excepções, e apenas na imprensa. São os cientistas sociais quem mais é chamado a comentar na televisão e nos media em geral. Seguem-se os próprios jornalistas, os ex-jornalistas e os historiadores. E por fim os homens das ciências puras e aplicadas.

Para Dominique Wolton o mediatismo trouxe uma nova forma de legitimidade e é um sinal que os grupos profissionais perderam legitimidade interna: dantes quem era mediático mas não tinha credibilidade entre os seus pares não tinha grande valor; presentemente quem é mediático tem mais valor entre os seus pares e quem não o é torna-se invisível. Isso não se deve a um qualquer mecanismo perverso dos media mas ao enfraquecimento dos laços dentro dos várias comunidades profissionais (professores, arquitectos, médicos, engenheiros, padres, etc.) causadas pelo enfraquecimento do prestigio do autocontrole interno. Embora subsistam esses mecanismos de autocontrole, deixaram de ter real valor. Triunfou a publicidade individual, o individualismo mediático, como modo de legitimação.

Nota: Não tenho nada contra os intelectuais mediáticos. Mas é muito “interessante” ouvir o seu “duplo discurso” (emição de opiniões contrariadas pelas suas acções) de muitos e por isso considero a análise de Dominique Wolton certeira. O livro de Dominique Wolton tem muito a explorar, temas que não vou focar para já. Apesar de datado, é uma leitura que vale a pena fazer.

Leitura de: Dominique Wolton, Elogio do grande público (Porto, Asa, 1994).

Fonte da Imagem: Edições Asa.

Última Actualização: 06/12/2008

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