Vínculo social e comunidade nacional

«Os acontecimentos da Europa de Leste e o despertar do nacionalismo no império soviético desde o Verão de 1989, sem mencionar as dolorosas recordações ligadas à reunificação alemã, surpreenderam toda a gente e voltaram a colocar as questões nacionais no coração da Europa. É um pouco como se os quarenta anos de guerra fria se tivessem traduzido num congelamento da questão nacional a ponto de ter sido considerada ultrapassada quando, de facto, ela reaparece intacta e inteira. Pensámos estar desembaraçados da questão nacional entendida como factor de mobilização e de identificação dos povos, ou até como factor de conflito, tendo as duas guerras mundiais servido para ilustrar o modo sinistro a loucura nacionalista. Apercebemo-nos actualmente de que o problema se encontra no ponto em que o abandonámos em 1944, ou em 1918, ou em 1900, consoante os binóculos usados para olhar a Europa. A construção da Comunidade económica ilustra perfeitamente essa ambiguidade. Desejada justificadamente para reconstruir uma Europa numa base não nacionalista, esbarra após trinta anos de progressos lentos e pacientes no desejo profundo de reunificação da “nação alemã” e, em menos de um ano, é todo o capital de confiança, pacientemente acumulado desde a guerra, que ameaça ruir. E não apenas em França! De tanto que se ter tratado a questão nacional como prova de arcaísmo, ela regressa hoje com uma força intacta.

Isolated Television (with Clipping Path)É aqui que se volta a encontrar o papel essencial da televisão. Viu-se sobretudo como um factor de desenclausuramento, descobre-se o seu papel de vínculo social. Contudo, esse papel foi fundamental depois da guerra, quando a maior parte das representações ruíam e que a rapidez de transformação de uma sociedade confrontada com o conflito entre os mundos capitalista e comunista, com as guerras coloniais e com o triunfo progressivo da sociedade de consumo, aí encontrou uma espécie de fio de condutor da modernidade. Se a televisão surgiu então como uma transformação no meio de outras, não se viu o suficientemente que ela era um factor de estabilidade e não de instabilidade. Coloca-se hoje em dia o mesmo problema mas invertido. O duplo movimento de universalismo e individualismo triunfou mas sem mas sem propôr outro valor positivo para além da recusa de modelos caducos e da assunção dos valores da liberdade até à sua consequência extrema, a solidão. Neste contexto de liberdades individuais mas também de solidões institucionalizadas, a televisão pode desempenhar um papel de identificação colectiva, sem por isso ser alvo de suspeita de querer suscitar um regresso ao passado! Reconhecer actualmente a importância do factor nacionalista é assim essencial, sob pena de o dar amanhã de presente à extrema-direita. Apesar das aparências, a televisão não é um instrumento universal de comunicação: só o é a partir de uma identidade construída. Aliás, esta dupla característica parece ser indispensável. Como poderia a televisão desempenhar esse papel de abertura, e portanto de constante desestabilização, e mesmo de problematização dos esquemas e valores, se simultaneamente não representasse, para os espectadores, um elemento de unidade nacional? Não podemos ver o mundo, sobretudo se o olhar e a imagem alargam sem cessar as suas fronteiras, a não ser a partir de um lugar fixo, identificado, e com a consciência das nossas raízes. Senão, somos arrastados pelo fluxo das imagens!»dwolton_5maio03_25

Dominique Wolton

Comentário da Sabine: É claro que este texto se encontra datado (1990) e situado (o autor é francês). No entanto estas palavras têm muito que se lhe digam… Durante o meu curso superior deixei praticamente de ver televisão. Ler o Elogio do grande público de Dominique Wolton. O autor apresenta-se como um defensor da televisão, sobretudo da televisão generalista pública. E tenta demonstrar que o ódio dos intelectuais à televisão generalista não só é injustificado, como por vezes é hipócrita. Neste excerto o autor foca a importância do carácter nacional da televisão generalista e dos perigos de um internacionalismo cego (não só ao nível dos meios de comunicação). Deixar o nacionalismo à extrema-direita é o que vê mais hoje. Aparentemente, só é democrata só vê benefícios na globalização e nos caminhos da União Europeia. Este postal foi dedicado à Helena Araújo, sob os auspícios do 1 de Dezembro de 1640.

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Fontes das Imagens: CECS U. Minho – Seminário com Dominique Wolton; O Maior Clube do Mundo; Penates Publiciti.

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