O Contrato Mediático

«Os Governos da Europa fazem planos que o bom senso indica, claramente, que não vão poder cumprir. Este malogro com pré-aviso vai servir para aqueles que querem menos Estado e menos Governo possam falar com voz ainda mais grossa.
Em breve ouviremos mais discursos favoráveis a “mais mercado”, para que as potencialidades a nível económico se desenvolvam na base de jogo livre de agentes sociais, de modo a que se “possa obter maior eficiência e produtividade”.
A questão é que o discurso político desapareceu submerso e ingredientes económicos, ironicamente quando a liberdade económica dos Estados e dos cidadãos é cada vez menor.
Levado ao limite, deixem-me que pergunte: Que estamos, afinal de contas, a eleger quando votamos para um Parlamento de cuja constituição resulta um Governo? Simplisticamente, estamos a escolher o alvo do nosso descontentamento por não vir a cumprir aquilo que em campanha nos prometeu.
A Imprensa económica portuguesa não difere da restante congénere europeia: “É necessário proceder-se às reformas estruturais”. Por outro lado, e a juntar a estas palavras de ordem, alguns, em número e influência significativos, defendem a teoria segundo a qual pagando nós menos impostos a retoma acelerará o desenvolvimento.
Multiplicar a divida pública, diminuir a poupança e comprometer a longo prazo o crescimento económico, como Reagan conseguiu, não impede que os jornalistas económicos continuem a bater o pé por duas coisas absolutamente contraditórias: reduzir o défice público e baixar os impostos. Curiosamente, já ouvimos um primeiro-ministro, pelo menos, se nos ficarmos pelo tempo presente, defender exactamente a mesma coisa(a).
(…) Todavia, o futuro para que nos encaminham é, indubitavelmente, o da lógica da especialização. Quer isto dizer, na óptica dos especialistas, que poucos pensarão, a esmagadora maioria tomará conhecimento dos seus pensamentos através dos jornais, rádio e televisão e não só não teremos outro remédio se não os aceitar, bem como os defender e vivermos segundo os seus pontos de vista. Reconheça-se, em abono da verdade, que já avançámos muito neste domínio…
De resto, se excluirmos deste fenómeno os velhos e os reformados, os mais jovens e activos não só parecem não dispor de tempo ou grande interesse em pensar, mas também seguem o diktat, seja de auriculares nos ouvidos, seja de telemóvel na mão, a abanarem a cabeça como os passarinhos»
Joaquim Letria
Comentário da Sabine: Este é o excerto de um capítulo de A Verdade Confiscada, editado em 1998. É um livro de um jornalista cansado e de um cidadão decepcionado. É espantoso como as suas palavras se mantém actuais. Serve este postal de comentário à situação jornalística, económica e politica portuguesa e europeia actual. Este postal é dedicado ao Mário Ventura.
(a) Quando o livro foi escrito o primeiro-ministro era António Guterres.
Fonte do Texto: Joaquim Letria, A Verdade Confiscada (Lisboa, Notícias, 1998).
Fontes das Imagens: Defender o Quadrado; Prova Oral.

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