Intervalo


Este blogue vai ficar fechado para balanço durante algum tempo: tanto pode ser uma semana como um mês. Tudo dependerá das circunstâncias e da inspiração. Entretanto, continuarei a acompanhar o que se escreve pela blogosfera.

Fonte da Imagem: Font River

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O Contrato Mediático

«Os Governos da Europa fazem planos que o bom senso indica, claramente, que não vão poder cumprir. Este malogro com pré-aviso vai servir para aqueles que querem menos Estado e menos Governo possam falar com voz ainda mais grossa.
Em breve ouviremos mais discursos favoráveis a “mais mercado”, para que as potencialidades a nível económico se desenvolvam na base de jogo livre de agentes sociais, de modo a que se “possa obter maior eficiência e produtividade”.
A questão é que o discurso político desapareceu submerso e ingredientes económicos, ironicamente quando a liberdade económica dos Estados e dos cidadãos é cada vez menor.
Levado ao limite, deixem-me que pergunte: Que estamos, afinal de contas, a eleger quando votamos para um Parlamento de cuja constituição resulta um Governo? Simplisticamente, estamos a escolher o alvo do nosso descontentamento por não vir a cumprir aquilo que em campanha nos prometeu.
A Imprensa económica portuguesa não difere da restante congénere europeia: “É necessário proceder-se às reformas estruturais”. Por outro lado, e a juntar a estas palavras de ordem, alguns, em número e influência significativos, defendem a teoria segundo a qual pagando nós menos impostos a retoma acelerará o desenvolvimento.
Multiplicar a divida pública, diminuir a poupança e comprometer a longo prazo o crescimento económico, como Reagan conseguiu, não impede que os jornalistas económicos continuem a bater o pé por duas coisas absolutamente contraditórias: reduzir o défice público e baixar os impostos. Curiosamente, já ouvimos um primeiro-ministro, pelo menos, se nos ficarmos pelo tempo presente, defender exactamente a mesma coisa(a).
(…) Todavia, o futuro para que nos encaminham é, indubitavelmente, o da lógica da especialização. Quer isto dizer, na óptica dos especialistas, que poucos pensarão, a esmagadora maioria tomará conhecimento dos seus pensamentos através dos jornais, rádio e televisão e não só não teremos outro remédio se não os aceitar, bem como os defender e vivermos segundo os seus pontos de vista. Reconheça-se, em abono da verdade, que já avançámos muito neste domínio…
De resto, se excluirmos deste fenómeno os velhos e os reformados, os mais jovens e activos não só parecem não dispor de tempo ou grande interesse em pensar, mas também seguem o diktat, seja de auriculares nos ouvidos, seja de telemóvel na mão, a abanarem a cabeça como os passarinhos»
Joaquim Letria
Comentário da Sabine: Este é o excerto de um capítulo de A Verdade Confiscada, editado em 1998. É um livro de um jornalista cansado e de um cidadão decepcionado. É espantoso como as suas palavras se mantém actuais. Serve este postal de comentário à situação jornalística, económica e politica portuguesa e europeia actual. Este postal é dedicado ao Mário Ventura.
(a) Quando o livro foi escrito o primeiro-ministro era António Guterres.
Fonte do Texto: Joaquim Letria, A Verdade Confiscada (Lisboa, Notícias, 1998).
Fontes das Imagens: Defender o Quadrado; Prova Oral.

Leituras: Revisitando a acção de Winston Churchill – parte 3

A Loucura de Churchill, de Christopher Cathewood levou-me a ler Churchill, uma biografia escrita por Keith Robbins, também historiador inglês.
Esta biografia é um pequenino resumo da vida de Churchill, em todos os seus aspectos (Martin Gilbert, o biografo oficial de Churchill escreveu uma muito maior). Vou destacar um: o papel de Churchill na 2ª Guerra Mundial.
Winston Churchill queria estar no poder, mas só com a 2ª Guerra Mundial teve oportunidade de ser 1º Ministro. Durante grande parte do conflito foi chefe de um governo de união nacional, composto pelo Partido Conservador + Partido Liberal + Partido Trabalhista. O governo de coligação de Churchill era mandatado pelo Parlamento Britânico, que o podia destituir a qualquer momento.
O poder foi-lhe “passado” por Neville Chamberlain (que fora até então 1º Ministro e era o líder do Partido Conservador) em 1940. Chamberlain viu nele o salvador, visto Churchill ter sido dos poucos a ter a intuição acerca da perigosidade de Adolf Hitler. Chamberlain estava nessa altura totalmente desacreditado, mesmo dentro do Partido Conservador. O autor alega que um dos motivos porque Chamberlain hesitou em combater Hitler e preferiu o apaziguamento foi, para além do trauma da 1ª Guerra Mundial, a convicção de que o império não sobreviveria a mais uma guerra (já que a autoridade da Grã-Bretanha começava a ser colocada em causa, cada vez mais).
Já Winston Churchill pensava que a guerra era necessária e teve à altura da tarefa. Até 1941 combateu praticamente sozinho Hitler: os seus aliados eram a China (que combatia o Japão no seu território) e a França Livre (chefiada por Charles De Gaulle era um exército muito pequenino, ainda por cima dependente da ajuda da Grã-Bretanha). E era uma guerra dispersa por três continentes: Europa, Ásia e África. Em Julho de 1941 os soldados alemães, a mando de Hitler, invadiram a União Soviética. Churchill nessa altura pôs de parte o seu anticomunismo e aliou-se a Estaline para derrotar Hitler. Em Dezembro do mesmo ano foi a vez dos Estados Unidos entrarem na guerra, depois do ataque de Pearl Harbour.

Churchill rejubilou com estes novos aliados mas pouco a pouco foi-se dando conta de que tanto o Reino Unido como ele próprio ia perdendo o seu poder enquanto potência mundial, pois as decisões principais iam passando a ser tomadas por Estaline e Franklin Roosevelt. Por exemplo, foram os britânicos que começaram a investigações para a bomba atómica. Mas como chegaram à conclusão de que não tinham capacidade tecnológica para a fazerem, pediram ajuda aos Estados Unidos. Em pouco tempo os Estados Unidos tomaram conta do projecto e a opinião de Winston Churchill não foi tida em conta. Mesmo assim, achava que era seu dever ir às reuniões dos Aliados.
Nas eleições realizadas logo após a 2ª Guerra Mundial, Winston Churchill e o Partido Conservador perderam. Quem venceu foi o Partido Trabalhista (pela primeira vez). Churchill passou então cinco anos alternando entre conferências internacionais e as actividades como líder da oposição. Foi numa dessas conferências que usou a famosa expressão “cortina de ferro” (em 1946) para designar a nova configuração do mundo.
No entanto, a partir do momento em que teve conhecimento que os soviéticos detinham a bomba atómica defendeu um entendimento entre os Estados Unidos e a União Soviética para a divisão do mundo (aquilo que ficou conhecido como détente).
Tal como De Gaulle, Churchill via-se como um predestinado. E tinha uma enorme vontade de ter poder e planeava as suas acções para que fossem conhecidas. Como não havia a mediatização actual ele mesmo se encarregava de as relatar, primeiro escrevendo artigos para jornais, depois fazendo livro. Tinha uma extraordinária preocupação com a imagem e ao mesmo tempo era uma pessoa excêntrica e volúvel, e não se preocupava com isso. Foi um político muito contraditório.

Leitura de:
Keith Robbins, Churchuill (Mem Martins, Inquérito, 1997.
Imagens retiradas de: Buy.com; Annualia.

Fim das Leituras sobre Churchill
1ª Parte
2ª Parte

Leituras: Revisitando a acção de Winston Churchill – parte 2


(Continuando a leitura de A Loucura de Churchill, de Christopher Cathewood)

Os otomanos perderam a guerra, juntamente com os alemães. Mas, ao contrário do que os britânicos previam, Kemal Atatürk, o fundador da Turquia actual, manteve-se a lutar por mais uns anos, até 1922. E venceu. Se a 1ª Guerra Mundial tinha acabado, haviam agora outros focos de conflito. Winston Churchill, agora Ministro do Armamento encarava as seguintes situações:
– A guerra civil russa, depois do golpe de estado liderado por Lenine. Os britânicos, e acima de tudo Winston Churchill, sentiam que era importante contribuir com tropas.
– Guerras entre os gregos e os turcos otomanos. A Grécia tinha proclamado a independência do império otomano em 1821, sendo a guerra da independência durado até 1830. Antes da 1ª Guerra Mundial tinha havido um “cisma nacional”, entre o rei Constantino I (pró-alemão) e o seu primeiro-ministro Elefthérios Venizélos (pró-entendente). Como consequência, Constantino I foi deposto e a Grécia manteve-se em guerra com o império Otomano até 1923. David Lloyd George queria ajudar os gregos.
– Na Irlanda do Norte lutava-se pela independência, através de sucessivas revoltas e atentados. Era necessário por isso ter lá militares.
Dentro destas circunstâncias, os britânicos tinham de dispor de tropas para combater nestas frentes. Para além disso tinham de controlar a economia do pós-guerra, que tinha deixado as populações à beira da pobreza. E ainda queriam manter o império britânico com a pujança do século XIX. Isto, numa altura em que as ideias de autodeterminação dos povos estavam a ser aplicadas na Europa. Um dos grandes impulsionadores delas era Woodrow Wilson, presidente dos Estados Unidos, que também as queria espalhar por outras partes do mundo.
O autor mostra que Winston Churchill, ao contrário dos seus generais na Mesopotâmia e dos norte-americanos nunca teve consciência do potencial económico do petróleo que nessa altura tinha sido ali descoberto. Ele apenas queria manter o modelo de império que tanta riqueza tinha trazido no século anterior e se possível gastar o mínimo de dinheiro possível na sua gestão. Não lhe interessava o que os árabes pensavam nem sequer se punha essa questão.
O Reino Unido no final da 1ª Guerra Mundial ficou com um mandato provisório sobre a maior parte do território que se chama hoje Médio Oriente (a outra parte ficou para os franceses, que criaram à sua conta o que é hoje o Líbano e a Síria). Cabia a Winston Churchill e aos outros membros do governo de David Lloyd George decidir qual o futuro do território. Depois de tantas promessas e tratados no antes e pós-1ª Guerra Mundial era difícil cumprir quaisquer compromissos. Por outro lado, como queria tomar a melhor decisão possível e isso contribuiu para o arrastamento da situação. Havia também a desconfiança de que os árabes quisessem-se desligar da alçada britânica e mesmo ajudar os turcos (ou que os turcos tentassem fazer alguma manobra de diversão na zona).
Em 1921, Churchill foi nomeado Ministro das Colónias e organizou uma conferência no Cairo para partilhar esse território. Nela tiveram, entre outros, os generais mais importantes arquatelados na região, Gertrude Bell, Percy Cox, T. E. Lawrence, Arnold Wilson e Jafar al-Askari.
Como resultado desta conferência e de negociações posteriores dentro do governo britânico nasceu o actual Iraque. Faisal bin Al Hussein (filho de Hussein bin Ali e membro do clã Hashemite) foi autorizado a tomar posse deste território, recebendo como contrapartida pela sua fidelidade aos britânicos uma mesada e o apoio da força aérea britânica. O seu irmão Abdullah naquela altura já tinha conquistado um pequeno país para si, o que hoje se chama Jordânia. Foi autorizado a manter esse território e a conquistar mais algum. E viu a sua mesada aumentar. Por fim, decidiu-se não só continuar a apoiar o clã Saud, a quem também era dada mesada. Ibn Saud tomara aquilo que é hoje a Arábia Saudita. Com todas estas politicas de suborno, procuravam-se criar estados-fantoche e manter uma certa ideia de império britânico.
Winston Churchill tinha simpatia, já na altura, pela criação de um estado curdo, que era uma forma de conter os turcos. Mas os interesses do governo britânico opuseram-lhe e ele acabou assim por estabelecer uma nação tripartida (composta por xiitas, sunitas e curdos).
Christopher Cathewood construiu um livro apaixonante, muito fácil de ler. E que foca todas as questões importantes à volta da criação do Iraque. Nota-se claramente a sua admiração por Winston Churchill , mesmo quando critica. Subjaz a todo o livro a ideia de que os britânicos estão sempre certos, mesmo quando erram. Isto faz com que quem o leia fique com a sensação oposta àquela que o autor desejaria, a menos que pense que os britânicos são infalíveis. Pelo meio tenta comparar Tony Blair e George W. Bush com Winston Churchill, mas isso apenas contribui para piorar a imagem dos três.

Leitura de:
Christopher Cathewood, A Loucura de Churchill (Lisboa, Relógio D’Água, 2008).
Fontes das Imagens: Center for Contemporary Conflict; Wikipedia in English – Middle East.

Fim da 2ª Parte