Leituras: Gorbachev, Determinismos e o Pós-comunismo – parte 1

Nota: Leitura de O Pós-comunismo: do Atlântico aos Urais, de Jacques Lesourne e Bernard Lecomte (Venda Nova, Bertrand, imp. 1991).

1990: o prémio Nobel da Paz é atribuído ao ainda presidente da URSS, Mikhaïl Gorbatchev. Reunificação alemã. Em face de tudo isto, Jacques Lesoune (economista e na altura director do jornal Le Monde) e Bernard Lecomte (jornalista francês, que na altura trabalhava para o L’Express) escrevem uma obra para tentar explicar como se chegou até ali e quais as perspectivas de futuro.
Os autores, como base para as suas análises, usaram os dados de Emmanuel Todd, um cientista social francês. Ele desenvolveu uma tipologia de famílias e relacionou isso com as ideologias, sistemas políticos, crenças e acontecimentos de determinado país. Em 1976 previu o colapso da União Soviética, baseado em vários indicadores, como por exemplo a mortalidade infantil. Este tipo de abordagem trouxe novas possibilidades para a teoria e praticas política. No entanto, é uma concepção determinista (para cada povo só há uma ou duas hipóteses de regime, a partir dos dados demográficos).
Os autores não acreditavam na ideia de fim da história, ressuscitada em 1989 por Francis Fukuyama, e usaram o capítulo inicial para esclarecer isso mesmo. Para eles o fim da União Soviética traria novos problemas. Para eles, a acção da União Soviética durante a Guerra Fria trouxe indirectamente alguns benefícios e alguns equilíbrios, que o seu fim iria pôr em causa.
A figura em destaque de toda a obra é Mikhail Gorbatchev. A ele é dedicada a primeira parte do livro, onde os autores tentam perceber quais as condições para o seu aparecimento, qual o seu percurso até ao poder, como e porquê actuou de determinada forma entre 1985 e 1990. Para os autores a ascensão de Mikhail Gorbatchev foi tanto produto do acaso como da necessidade. Em 1981 ninguém poderia prever que um homem assim assumisse o poder, dado que o regime tinha ganho uma certa estabilidade, e os apartchiks e a numenklatura estavam no auge da sua força. Por outro lado, havia necessidade de alguém como Gorbatchev, dado que a crise do modelo soviético em 1985 era uma realidade. Por isso alguns dos chefes do Bureau Politico soviético viram nele alguém que lutaria contra imobilismo e com ideias claras, tanto para a política interna como externa. Gorbatchev era o modelo de bom aparatchik («Sedutor, obstinado, boas falas», com capacidade de persuasão e tenacidade).
Seguidamente, os autores fazem um pequeno resumo do que foi a politica de Gorbatchev entre 1985 e 1989. Antes porém, fazem um pequeno apontamento acerca das características das famílias russas, a partir de Emmanuel Todd:
«A família camponesa russa é, com efeito, uma família comunitária exógama que, dentro das características tradicionais deste tipo de famílias (igualdade de irmãos nas regras de sucessão, coabitação dos filhos casados e dos seus pais, ausência de casamento entre filhos de dois irmãos), acrescenta um “igualitarismo marcado pelas relações entre os sexos, manifestando-se por uma diferença de idade muito fraca entre um homem e a sua mulher”». Um tal sistema leva a que, na família, o pai seja uma figura todo-poderosa «que domina os seus filhos mesmo adultos concentra nele raiva e amor», uma igualdade entre filhos que «asfixia a iniciativa individual, excepto nos limites da coerência familiar; igualdade que se harmoniza com a propriedade colectiva, do mir aldeão ao kolkhose soviético; igualdade que reina, enfim, no seio de um mesmo estrato social da burocracia».
Essa ideia do pai todo-poderoso foi usada pelos sucessivos dirigentes do país, de Pedro, o Grande, passando por Catarina II a Estaline, que se diziam “pai do Povo”. Está ligada a um governo centralista, com uma hierarquia de previligiados. Por isso, «a despeito da revolta latente dos filhos, que fazem da morte do pai uma das constantes da vida política russa, é sempre de cima que partem as reformas (…). Trata-se de reformas muitas vezes violentas, porque a sociedade opõe aí uma enorme resistência passiva». Algo de semelhante se passou durante a chefia de Mikhail Gorbachev.

Seguindo Emmanuel Todd, os autores concluem que não foi o comunismo que fez a Rússia, mas a Rússia que fez o comunismo, numa produção autóctone. Pelo contrário, nos países de Leste ele foi imposto e nunca aceite completamente. Jacques Lesoune e Bernard Lecomte também chamam a atenção para as relações ambíguas que a Rússia mantém desde sempre com o resto da Europa: os russos desde sempre culparam os europeus por tudo o que de mal lhes acontece. Por outro lado sempre tentaram importar os modelos e as ideias europeias:
«A autocracia czarista e o totalitarismo comunista alimentaram-se dessa relação psicanalítica conflitual com a Europa, cobiçada e difamada. A “Terceira Roma” pôs em prática a mentira propagandística ou a chantagem afectiva para impressionar o Ocidente. Servindo-se dos seus abomináveis sofrimentos, como Custine observava desde 1839, que eram os únicos capazes de alimentar o messianismo de um povo pouco seguro de si. E cioso da sua especificidade».
Assim, os nacionalistas mais radicais podem dizer hoje, por exemplo, que o comunismo foi uma importação do Ocidente, já que Karl Marx era um judeu exilado em Londres. Os autores consideram que, dado que os russos consideram a democracia e o respeito pelos Direitos do Homem como importados da Europa, não têm pressa em aderir a esses valores.
Entre 1985 e 1990 Mikhail Gorbatchev estabeleceu várias politicas internas na URSS, entre elas a glasnost e a perestroika:
– A glasnost foi uma politica de transparência de informação, como forma de abrir a economia soviética e reabililitar o comunismo através da renovação da massa critica e da conquista de intelectuais, cientistas, engenheiros e estudantes) e criar u contra-poder para lutar contra a burocracia, para alem de mobilizar os responsáveis dos meios de comunicação russos para apoiarem as reformas politicas. Para Jacques Lesoune e Bernard Lecomte o objectivo primordial da glasnost não era o aumento da liberdade de expressão, mas isso foi uma consequência inesperada desta politica.
– A perestroika consistiu na produção sistemática de legislação reformista ao nível da economia. Esta legislação teve como consequência uma economia desorganizada e o descontentamento, tanto das populações como dos funcionários do estado (os burocratas). O fracasso da perestroika criou condições para o fim da União Soviética. Para os autores, a perestroika foi «conduzida de uma forma ao mesmo tempo superficial, precipitada e incoerente». Mas nem o melhor dirigente do mundo conseguiria em quatro anos mudar a economia de alto a baixo na União Soviética, sem que isso tivesse consequências negativas.
Por fim, os autores destacam a corrida ao poder pessoal de Mikhail Gorbatchev. Depois de em 1986 ter renovado as gerações dentro do Bureau Politico. De em 1987 demite Boris Ieltsine da direcção do Partido de Moscovo. Depois muda a Constituição, para um regime presidencialista forte, criação de um Congresso dos Deputados do Povo (provindos dos sovietes) e redefinição do papel do Partido Comunista, que de condutor do estado passa a ser apenas espaço de reflexão ideológica.
Assim, nas eleições de Março-Abril de 1989 apareceram candidaturas múltiplas, mesmo se muitos dos candidatos foram designados pelo Comité Central do Partido Comunista soviético e outras “organizações sociais” do género. O resultado é um Parlamento com 80% de deputados do Partido Comunista e 20% de reformadores desse mesmo partido. E a eleição de Mikhail Gorbatchev como presidente da União Soviética. Mas é precisamente em 1989 que a União Soviética se começa a desmembrar, pelo que o seu poder real é muito pouco.

Fontes das Imagens: Breakthrough Blog; Cover Browser – Time Covers.

Fim da 1ª Parte

Última Actualização: 29/09/2008

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