Leituras: Gorbachev, Determinismos e o Pós-comunismo – parte 3

Continuação da Leitura de O Pós-comunismo: do Atlântico aos Urais, de Jacques Lesourne e Bernard Lecomte (Venda Nova, Bertrand, imp. 1991).

Jacques Lesoune e Bernard Lecomte, debruçam-se seguidamente sobre a situação dos países da Europa de Leste e, em especial da Alemanha. Este foi um processo mais fácil, pois mesmo durante o comunismo havia muita gente que simpatizava com as democracias europeias e via o comunismo como um regime importado e opressor. No entanto, também aqui Mikhail Gorbatchev e os reformistas de Moscovo tiveram, de 1985 a 1990, uma acção dúbia. E em cada país tomou um caminho diferente.
– A Polónia foi, de todos, o país menos permeável ao comunismo. Mais uma vez, para analisar o país, os autores recorrem a Emmanuel Todd:
«O sistema de parentesco polaco revela da família nuclear igualitária, como no norte da França e em certas regiões da Itália, Espanha ou Portugal: igualdade dos irmãos, ausência de coabitação dos filhos casados e de seus pais, recusa entre o casamento entre os filhos de dois irmãos, ou seja, entre primos. Este sistema opõe-se tanto na família rude alemã como na família comunitária russa, dando origem a uma cultura igualitária e individualista que muitas vezes comprometeu o destino do Estado polaco, mas que não deixou de corroer o comunismo panificador imposto por Moscovo».
Os autores evocam também a vontade de independência polaca: entre 1795 e 1918 a Polónia foi desmembrada e os seus territórios fizeram parte, do império austríaco (no século XIX designado Império Austro-húngaro), do reino da Prússia e do e do império russo. A independência foi declarada no fim da 1ª Guerra Mundial e a 2ª Guerra Mundial aumentou a coesão nacional. Foi o país que desde o início mostrou mais hostilidade aos russos, sobretudo depois do massacre de Katyn em 1940. Por isso, depois da morte de Estaline os polacos tentaram de todas as formas livrar-se da dominação soviética. No entanto, depois do fracasso da Primavera de Praga os polacos tiveram durante alguns anos sem mostrar hostilidade directamente. Mas a elevação de Karol Wojtyła a Papa João Paulo II e a politica seguida por Mikhail Gorbatchev foram as oportunidades que os polacos esperavam. Este último conduziu negociações que visavam manter o poder russo por mais algum tempo, através de eleições, onde 65% dos lugares pertenceriam ao POUP e os 35% restantes às forças da oposição. Mas o POUP acabou por perder essas eleições, bem como o referendo feito anteriormente. Como consequência o POUP praticamente desaparece do espectro político e “converte-se” à social-democracia.
– A Hungria seguiu um caminho diferente. Em Outubro de 1956 a revolução contra o poder de Moscovo ter foi esmagada pelos soviéticos. János Kádár, líder comunista que por várias vezes chefiou o Conselho de Ministros polaco, conseguiu de Moscovo alguma autonomia em troca do alinhamento da Hungria na política externa soviética. Essa autonomia permitiu os húngaros ter pequenos espaços de liberdade que eles aproveitaram o máximo que poderam. Quando Mikhail Gorbatchev sobe ao poder os húngaros não se sentiram por isso mais livres, até porque tiveram medo que este pusesse em causa a autonomia conquistada. Em Maio de 1988 János Kádár é substituído por Karoly Grosz. Mas nessa altura já havia políticos, como Imre Pozsgay, que consideravam o comunismo irreformável e que desejavam a democracia. Em Fevereiro de 1989 o Magyar Szocialista Munkáspárto (Partido Socialista dos Operários Húngaros, o partido do poder) pronuncia-se a favor do multipartidarismo e em Outubro do mesmo ano transforma-se em partido socialista. E em Março de 1990 o Magyar Demokrata Fórum (Fórum Democrático da Hungria), de centro-direita, chefiados por József Antall, venceu as primeiras eleições livres do pós-comunismo.
De notar que, durante este processo, os húngaros acolheram dentro do seu país emigrantes que fugiam da RDA e deram-lhes abrigo. A Hungria serviu assim de porta de entrada nos países democráticos da Europa e nos Estados Unidos, para muitas pessoas sem esperança.
– Em relação à Republica Democrática Alemã (ou RDA) esta foi uma criação artificial de Estaline para quebrar a força alemã. Foi erguida uma Cortina de Ferro e o muro de Berlim. Estes obstáculos foram deitados abaixo em 1989, pela vontade dos povos húngaro e da RDA. Em Outubro desse ano realizam-se desfiles em Leipzig (território da RDA) para exigir a democracia. Mikhail Gorbatchev, em 6 e 7 de Outubro desse ano, durante uma visita (por ocasião do 40º aniversario da RDA), encoraja os reformadores comunistas e pede paciência aos jovens. Em 18 desse mês Erich Honecker é substituído por Egon Krenz. No entanto as manifestações pela democracia continuam, levando Egon Krenz a abrir o muro e a fronteira com a República Federal Alemã (RFA). Em Novembro de 1989 Hans Mosrow substitui Egon Krenz, mas antes o muro de Berlim já tinha caído e o reformismo comunista de Mikhail Gorbatchev tinha deixado de fazer sentido. A Alemanha começou o caminho para a reunificação.
– Em relação à Bulgária, a situação foi mais complexa. Os autores consideram que a Bulgária tem afinidades demográficas com a Rússia (mais uma vez baseados nos dados de Emmanuel Todd): «Com as suas afinidades eslavas, a sua religião ortodoxa e a sua família comunitária exógama, a Bulgária aceitou sem grande resistência um comunismo directamente importado de Moscovo. E por isso também não deve espantar que, como a URSS, o impulso tenha sido dado de cima».
Em Novembro de 1989, já depois da queda do Muro de Berlim, Todor Jivkov da direcção do conselho de Estado (que governava o país) é demitido pelos seus pares. O pretexto usado foi a sua politica de repressão aos muçulmanos búlgaros, que tinham começado a sair do país. Foi substituído por Petar Mladenov, que tinha sido ministro dos Negócios Estrangeiros até àquela data. Apenas no dia 18 de Novembro de 1989 o búlgaros vieram para a rua exigir democracia. Realizaram-se as primeiras eleições livres para a presidência da República em Julho de 1990 que resultaram na vitória do mesmo Petar Mladenov. No entanto, ele teve de resignar do cargo quando foi acusado de ter sugerido o uso de tanques contra as manifestações anti-governo realizadas no ano anterior. Foi substituído por Jeliou Jelev, que foi eleito por uma Assembleia Constituinte. Em 1992 este foi confirmado no cargo. Em Agosto de 1990 uma multidão provocou um incêndio na sede do Partido do Povo da Bulgária (como era conhecido o partido comunista), como forma de represália por causa dos anos de opressão.
– A Checoslováquia era um país que existiu entre 1918 e 1993. Entre 1948 e 1989 foi dominada pelos comunistas. Hoje são dois países diferentes, a República Checa e a Eslováquia. Mais uma vez, na sua análise, os autores seguem Emmanuel Todd:
«À família “rude” da Boémia, terra de eleição da sócio-democracia de entre as duas guerras, opõe-se a família comunitária exógama, mais autoritária e autoritária, da muito católica Eslováquia. A Boémia manifesta, de resto, desde o desastre da Montanha Branca que provocou o esmagamento dos Habsburgos da nobreza checa (1620), uma certa repugnância pela luta armada, não sem manter uma longa tradição de resistência passiva à dominação cultural que alimentará, em 1968, a “Primavera” histórica».
A Primavera de Praga, em 1968, foi liderada por intelectuais reformistas do Partido Comunista Checo. Esse movimento teve final infeliz, pois em Agosto de 1968 a Checoslováquia foi invadida pela URSS. O fracasso deste movimento levará a que só em 1989 os checoslovacos soltem a sua voz contra o comunismo. Em 17 de Novembro ocorre a primeira manifestação, organizada (segundo Jacques Lesourne e Bernard Lecomte) pela polícia politica. A partir daí, sob impulso de Vaclav Havel, que liderava o Fórum Cívico, ocorreu a “revolução de Veludo”, que mudou a maior parte dos dirigentes do país. Vaclav Havel foi eleito presidente da República da Checoslováquia nas primeiras eleições livres. Depois conduziu o processo de separação das duas repúblicas, apesar de ser favorável à manutenção da federação.
– Na Roménia as coisas ocorreram de forma muito violenta. Os autores comentam que a revolução romena foi praticamente seguida, momento a momento, pelas televisões do Ocidente.
«Mas retomemos os factos tal como hoje eles podem reconstruir-se, num país em que o comunismo se fez caricatura de si mesmo e se distingue dos países vizinhos em dois planos: com a família nuclear igualitária, fortemente marcada por influências comunitárias, a Roménia, ao mesmo tempo tentada pela anarquia e o autoritarismo, não se situa nos limites da democracia nem do comunismo. Revela-se como um pequeno país e o seu nacional-comunismo, afastou-se profundamente do grande irmão soviético, que nunca manifestou uma excessiva simpatia por esta nação latina».
A Roménia tinha perdido parte do seu território para a URSS e para a Hungria antes da 2ª Guerra Mundial. Por isso, os romenos apoiaram Hitler contra os soviéticos no inicio da guerra. Em Agosto de 1944 um golpe de estado conduzido por Miguel de Hohenzollern-Sigmaringen (que foi o último rei do país) com o apoio de políticos de oposição e do exército, depôs a ditadura Antonescu e colocou os exércitos romenos sob o comando do Exército Vermelho. Aproveitando a situação romena, os soviéticos ocuparam o país e tornaram-no um país comunista. Passou a ser chamado de República Popular da Roménia. Entre 1965 e 1989 quem governou o país foi Nicolae Ceauşescu. Este foi genuinamente popular no início do seu governo e manteve relações com o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional, bem como com países como Israel, China, República Federal Alemã e Albânia. No entanto o período de aparente liberdade teria vida curta. Desde 1971 havia uma conspiração para depô-lo. Ian Iliescu foi afastado nos anos 70 do século XX e fundou uma organização politico-militar composta por antigos dirigentes comunistas – a Frontul Salvarii Nationale (FSN, Frente de Salvação Nacional). Em 16 de Dezembro de 1989 uma manifestação em favor de László Tőkés, um pastor da Igreja Reformada da Roménia (calvinista) é fortemente reprimida, levando à morte de 100 pessoas. Essa repressão levará a uma revolta violenta, que levará à fuga de Nicolae Ceauşescu. Ian Iliescu conseguiu eleger-se e ao seu partido como novos representantes do país, matando depois, sem demora, os comunistas da Securitate que ainda apoiavam o poder anterior e o próprio Nicolae Ceauşescu (julgado e morto em poucos meses). O Partido Comunista foi declarado ilegal e as medidas mais impopulares de Nicolae Ceauşescu, como a proibição do aborto e da contracepção, foram revogadas.
Em 2005 começaram as investigações que podem levar ao julgamento de Ion Iliescu sob acusações de crimes contra a humanidade. Também se especula acerca das suas ligações ao KGB.
Os autores comentam que a mão de Mikhail Gorbatchev teve sempre na condução destes acontecimentos, nomeando reformadores do partido para tentar condicionar os acontecimentos. Mas em quase todos os casos essa intervenção não adiantou de muito, pois as pessoas estavam fartas do comunismo.
Depois desta avalanche, apenas a Albânia se manteve comunista. Os autores apenas falam da Jugoslávia de passagem, já que o seu comunismo à muito se tinha desligado da URSS.

Fonte da Imagem: Transitions Abroad.com

Fim da 3ª Parte

Anúncios

Leituras: Gorbachev, Determinismos e o Pós-comunismo – parte 2

Continuação da Leitura de O Pós-comunismo: do Atlântico aos Urais, de Jacques Lesourne e Bernard Lecomte (Venda Nova, Bertrand, imp. 1991):

No capítulo seguinte os autores debruçam-se sobre o “império deslocado”, ou seja, as repúblicas que faziam parte da União Soviética mas que na altura (1990) estavam a pedir a sua independência. Segundo a tese oficial comunista, o regime tinha erradicado o racismo e promovido a paz e a união entre os povos. Ora a realidade era bem diferente. Especialistas como Michel Garder, Andrei Amalrik, Emmanuel Todd e Hélène Carrère d’Encausse nunca acreditaram nessa tese. Apesar da homogeneização crescente promovida durante decénios na União Soviética, os povos nunca perderam totalmente as suas características específicas. Estes povos têm características que os diferenciam, seja do ponto de vista religioso, nas tradições, na demografia e mesmo na história. Ora, a glasnost deu oportunidade de manifestações a todas estas especifidades nacionais e regionais, trazendo para primeiro plano o nacionalismo latente. Os autores fazem notar que em muitos casos Estaline apoiou as independências nacionais para depois, em 1940 as anexar e submeter.
Para os autores, o desmembramento da União Soviética era algo que não podia ser adiado eternamente, visto que mais tarde ou mais cedo seria inevitável acontecer. As políticas de Gorbatchev apenas deram o impulso inicial necessário.
Jacques Lesoune e Bernard Lecomte comentam que durante todo o processo de desmembramento da União Soviética Mikhail Gorbatchev teve um acção dúbia. Se por um lado não conteve totalmente as revoltas nacionalistas por outro tentou, de todas as formas possíveis, manter o poder e a influência da Rússia sobre os outros estados.
A independência declarada de várias nações levou ao despertar do nacionalismo russo. Este nacionalismo manifestou-se pela «preservação da Natureza, restauro dos monumentos históricos, o estudo da História, o restabelecimento dos antigos nomes de ruas e de cidades» e renascimento da igreja ortodoxa. No entanto, com o tempo (e isso já se notava em 1990) sobressaía a sua componente xenófoba, com «um triplo alvo: os judeus, os outros povos da União Soviética e o estrangeiro em geral». Nesse contexto nasce o movimento Pamiat (que significa memória em russo), que glorifica a Rússia pré-revolucionária e tem carácter neo-fascista, entre outros.

Leitura Complementar, relativa à situação actual: Estado e Igreja russos cada vez mais fundidos; A Juventude NASHI.
Fonte da Imagem: The Berdichev Revival.

Fim da 2ª Parte

Leituras: Gorbachev, Determinismos e o Pós-comunismo – parte 1

Nota: Leitura de O Pós-comunismo: do Atlântico aos Urais, de Jacques Lesourne e Bernard Lecomte (Venda Nova, Bertrand, imp. 1991).

1990: o prémio Nobel da Paz é atribuído ao ainda presidente da URSS, Mikhaïl Gorbatchev. Reunificação alemã. Em face de tudo isto, Jacques Lesoune (economista e na altura director do jornal Le Monde) e Bernard Lecomte (jornalista francês, que na altura trabalhava para o L’Express) escrevem uma obra para tentar explicar como se chegou até ali e quais as perspectivas de futuro.
Os autores, como base para as suas análises, usaram os dados de Emmanuel Todd, um cientista social francês. Ele desenvolveu uma tipologia de famílias e relacionou isso com as ideologias, sistemas políticos, crenças e acontecimentos de determinado país. Em 1976 previu o colapso da União Soviética, baseado em vários indicadores, como por exemplo a mortalidade infantil. Este tipo de abordagem trouxe novas possibilidades para a teoria e praticas política. No entanto, é uma concepção determinista (para cada povo só há uma ou duas hipóteses de regime, a partir dos dados demográficos).
Os autores não acreditavam na ideia de fim da história, ressuscitada em 1989 por Francis Fukuyama, e usaram o capítulo inicial para esclarecer isso mesmo. Para eles o fim da União Soviética traria novos problemas. Para eles, a acção da União Soviética durante a Guerra Fria trouxe indirectamente alguns benefícios e alguns equilíbrios, que o seu fim iria pôr em causa.
A figura em destaque de toda a obra é Mikhail Gorbatchev. A ele é dedicada a primeira parte do livro, onde os autores tentam perceber quais as condições para o seu aparecimento, qual o seu percurso até ao poder, como e porquê actuou de determinada forma entre 1985 e 1990. Para os autores a ascensão de Mikhail Gorbatchev foi tanto produto do acaso como da necessidade. Em 1981 ninguém poderia prever que um homem assim assumisse o poder, dado que o regime tinha ganho uma certa estabilidade, e os apartchiks e a numenklatura estavam no auge da sua força. Por outro lado, havia necessidade de alguém como Gorbatchev, dado que a crise do modelo soviético em 1985 era uma realidade. Por isso alguns dos chefes do Bureau Politico soviético viram nele alguém que lutaria contra imobilismo e com ideias claras, tanto para a política interna como externa. Gorbatchev era o modelo de bom aparatchik («Sedutor, obstinado, boas falas», com capacidade de persuasão e tenacidade).
Seguidamente, os autores fazem um pequeno resumo do que foi a politica de Gorbatchev entre 1985 e 1989. Antes porém, fazem um pequeno apontamento acerca das características das famílias russas, a partir de Emmanuel Todd:
«A família camponesa russa é, com efeito, uma família comunitária exógama que, dentro das características tradicionais deste tipo de famílias (igualdade de irmãos nas regras de sucessão, coabitação dos filhos casados e dos seus pais, ausência de casamento entre filhos de dois irmãos), acrescenta um “igualitarismo marcado pelas relações entre os sexos, manifestando-se por uma diferença de idade muito fraca entre um homem e a sua mulher”». Um tal sistema leva a que, na família, o pai seja uma figura todo-poderosa «que domina os seus filhos mesmo adultos concentra nele raiva e amor», uma igualdade entre filhos que «asfixia a iniciativa individual, excepto nos limites da coerência familiar; igualdade que se harmoniza com a propriedade colectiva, do mir aldeão ao kolkhose soviético; igualdade que reina, enfim, no seio de um mesmo estrato social da burocracia».
Essa ideia do pai todo-poderoso foi usada pelos sucessivos dirigentes do país, de Pedro, o Grande, passando por Catarina II a Estaline, que se diziam “pai do Povo”. Está ligada a um governo centralista, com uma hierarquia de previligiados. Por isso, «a despeito da revolta latente dos filhos, que fazem da morte do pai uma das constantes da vida política russa, é sempre de cima que partem as reformas (…). Trata-se de reformas muitas vezes violentas, porque a sociedade opõe aí uma enorme resistência passiva». Algo de semelhante se passou durante a chefia de Mikhail Gorbachev.

Seguindo Emmanuel Todd, os autores concluem que não foi o comunismo que fez a Rússia, mas a Rússia que fez o comunismo, numa produção autóctone. Pelo contrário, nos países de Leste ele foi imposto e nunca aceite completamente. Jacques Lesoune e Bernard Lecomte também chamam a atenção para as relações ambíguas que a Rússia mantém desde sempre com o resto da Europa: os russos desde sempre culparam os europeus por tudo o que de mal lhes acontece. Por outro lado sempre tentaram importar os modelos e as ideias europeias:
«A autocracia czarista e o totalitarismo comunista alimentaram-se dessa relação psicanalítica conflitual com a Europa, cobiçada e difamada. A “Terceira Roma” pôs em prática a mentira propagandística ou a chantagem afectiva para impressionar o Ocidente. Servindo-se dos seus abomináveis sofrimentos, como Custine observava desde 1839, que eram os únicos capazes de alimentar o messianismo de um povo pouco seguro de si. E cioso da sua especificidade».
Assim, os nacionalistas mais radicais podem dizer hoje, por exemplo, que o comunismo foi uma importação do Ocidente, já que Karl Marx era um judeu exilado em Londres. Os autores consideram que, dado que os russos consideram a democracia e o respeito pelos Direitos do Homem como importados da Europa, não têm pressa em aderir a esses valores.
Entre 1985 e 1990 Mikhail Gorbatchev estabeleceu várias politicas internas na URSS, entre elas a glasnost e a perestroika:
– A glasnost foi uma politica de transparência de informação, como forma de abrir a economia soviética e reabililitar o comunismo através da renovação da massa critica e da conquista de intelectuais, cientistas, engenheiros e estudantes) e criar u contra-poder para lutar contra a burocracia, para alem de mobilizar os responsáveis dos meios de comunicação russos para apoiarem as reformas politicas. Para Jacques Lesoune e Bernard Lecomte o objectivo primordial da glasnost não era o aumento da liberdade de expressão, mas isso foi uma consequência inesperada desta politica.
– A perestroika consistiu na produção sistemática de legislação reformista ao nível da economia. Esta legislação teve como consequência uma economia desorganizada e o descontentamento, tanto das populações como dos funcionários do estado (os burocratas). O fracasso da perestroika criou condições para o fim da União Soviética. Para os autores, a perestroika foi «conduzida de uma forma ao mesmo tempo superficial, precipitada e incoerente». Mas nem o melhor dirigente do mundo conseguiria em quatro anos mudar a economia de alto a baixo na União Soviética, sem que isso tivesse consequências negativas.
Por fim, os autores destacam a corrida ao poder pessoal de Mikhail Gorbatchev. Depois de em 1986 ter renovado as gerações dentro do Bureau Politico. De em 1987 demite Boris Ieltsine da direcção do Partido de Moscovo. Depois muda a Constituição, para um regime presidencialista forte, criação de um Congresso dos Deputados do Povo (provindos dos sovietes) e redefinição do papel do Partido Comunista, que de condutor do estado passa a ser apenas espaço de reflexão ideológica.
Assim, nas eleições de Março-Abril de 1989 apareceram candidaturas múltiplas, mesmo se muitos dos candidatos foram designados pelo Comité Central do Partido Comunista soviético e outras “organizações sociais” do género. O resultado é um Parlamento com 80% de deputados do Partido Comunista e 20% de reformadores desse mesmo partido. E a eleição de Mikhail Gorbatchev como presidente da União Soviética. Mas é precisamente em 1989 que a União Soviética se começa a desmembrar, pelo que o seu poder real é muito pouco.

Fontes das Imagens: Breakthrough Blog; Cover Browser – Time Covers.

Fim da 1ª Parte

Última Actualização: 29/09/2008

O Século do Medo

«O século XVII foi o século das matemáticas; o século XVIII o das ciências físicas, e o século XIX o da Biologia. O nosso século XX é o do medo. Dir-me-ão que isto não é uma ciência, mas, antes de tudo, a ciência é certamente uma causa do medo, porque os seus últimos progressos técnicos obrigam a negar-se a si mesma, e porque os seus aperfeiçoamentos práticos ameaçam de destruição a Terra inteira. E ainda que o medo em si próprio não possa ser considerado uma ciência, está fora de dúvidas que o é enquanto teoria.
O que mais efectivamente nos chama a atenção neste mundo em que vivemos é, em geral e em primeiro lugar, que a maioria dos homens (excepto os crentes de todas as espécies) não tem futuro algum. Nenhuma vida é válida sem projecção no futuro, sem promessa de amadurecimento e progresso. Viver contra um muro é vida de cão! Pois bem. Os homens da minha geração, e da que hoje entra nas fábricas e nas faculdades, viveram e vivem cada vez mais uma vida de cão.
Evidentemente que esta não é a primeira vez que os homens se encontram perante um futuro materialmente impossível. Mas costumavam vencê-lo com a palavra e o grito. Faziam então apelo a valores que eram uma esperança. Hoje, já ninguém fala (excepto os que se repetem) porque o mundo nos parece ser conduzido por forças cegas e surdas, incapazes de ouvir os gritos de alerta, os conselhos e as suplicas. Algo em nós foi destruído pelo espectáculo dos anos que acabamos de passar. E esse algo é a eterna confiança do homem, uma confiança que nem sempre fez crer que podia obter de um outro homem relações humanas desde que lhe falasse na linguagem da humanidade. Mas nos vimos mentir, envilecer, matar, desterrar, torturar e nunca foi possível persuadir os que o faziam a deixarem de fazê-lo, porque estavam seguros deles próprios e porque é impossível convencer uma abstracção, isto é, o representante de uma ideologia.
O longo diálogo entre os homens acaba de se esvair. É evidente que um homem que não pode persuadir é um homem que faz medo. É assim que alastrava ao lado de pessoas que nunca falavam, porque pensavam que é inútil, e continua a alastrar, uma imensa conspiração de silêncio, provocada pelos mesmos a quem ela interessa, (que têm interesses nela) e aceite pelos que tremem e têm excelentes razões de ocultar aos seus próprios olhos esse facto. “Não deveis falar da depuração dos artistas na Rússia, porque isso seria aproveitado pela reacção”. “Deveis calar-vos se os Anglo-Saxões mantêm Franco no poder, porque isso seria aproveitado pelo comunismo”. Eu bem dizia que o medo era a técnica. Entre o medo muito geral de uma guerra que todos preparam e o medo, muito particular, das ideologias criminosas, não há dúvida alguma que vivemos em pleno terror. Vivemos no terror porque a persuasão já não é possível, porque o homem foi inteiramente entregue à História, e deixou de poder voltar-se para essa parte dele próprio tão verdadeira como a História que descobre na beleza do mundo e dos rostos; porque vivemos num mundo de abstracção, de administração e de máquinas, de ideias absolutas e de um messianismo sem matizes. Abafamos no meio de pessoas que julgam ter absolutamente razão em relação às máquinas ou às ideias. E para todos aqueles que não podem viver privados do diálogo e da amizade dos homens, o silêncio é a pior das coisas. Para sair do terror seria necessário poder reflectir e agir segundo o raciocínio. Mas o terror, justamente, não é um clima favorável à reflexão. Penso, no entanto, que em vez de condenar o medo, devemos considerá-lo como um dos primeiros elementos da situação e, por conseguinte, tentar reagir contra ele. Isto é o mais importante. Porque isto se relaciona com o futuro de um grande numero de Europeus, que, fartos de violência e de mentira, desiludidos em relação às suas maiores esperanças, odeiam a ideia de ter de matar os seus semelhantes, mesmo que seja para os convencer, e, do mesmo modo, a ideia de poderem ser, por sua vez, convencidos da mesma maneira. No entanto, é nesta alternativa que se encontra a grande maioria dos homens que na Europa não pertencem a nenhum partido, ou não estão satisfeitos com o que escolheram, que duvidam da realização do socialismo na Rússia e do liberalismo na América, e que, embora lhes reconheçam o direito de as impor pelo crime, individual ou colectivo. São esses homens sem reino por entre os senhores (todo-poderosos) de hoje. Tais homens nunca poderão admitir (não digo triunfar, mas admitir) os seus pontos de vista, nem reconhecer a pátria senão a partir do momento em que souberem o que querem, e quando forem capazes de o proclamar simplesmente e suficientemente alto para que essas palavras possam constituir o cimento de uma grande soma de energias. E se o medo não é clima que convém a uma reflexão correcta, torna-se necessário, antes de mais, regularizar as situações frente ao medo.
Para que a situação se possa regularizar é preciso saber o que ela significa e o que recusa. Ela significa e recusa um mesmo facto: um mundo em que o crime é legal e em que a vida humana é considerada como fútil. Este é o problema político actual mais importante. Por conseguinte: é necessário, antes de mais, assumir uma posição em relação a ele. Hoje, antes da elaboração de uma qualquer construção, é necessário formular duas perguntas: “Aceitas ou não, directamente ou indirectamente, ser mortos e violentados?” “Aceitais ou não, directa ou indirectamente, matar ou violentar?”. Os que responderem negativamente às duas perguntas provocarão automaticamente uma avalanche de consequências que deverão necessariamente modificar as maneiras de colocar o problema. O meu projecto consiste exclusivamente em esclarecer duas ou três dessas consequências. Entretanto, o leitor de boa vontade pode interrogar-se e responder».
Albert Camus

Comentarium: Este texto apareceu pela primeira vez no jornal Combat, em Novembro de 1948. Tinham passado poucos anos desde o fim da 2ª Guerra Mundial e da derrota do nazismo. Estava-se no começo da Guerra Fria e da corrida aos armamentos por parte da União Soviética e dos Estados Unidos.
No entanto muito deste texto continua perfeitamente actual – embora hoje nem nos seja permitida a esperança do autor, na união das boas vontades, que se nota nas últimas linhas. O século XXI é o século do medo. A Rússia deixou o comunismo e vai a caminho de um regime totalitário (ler Os 10 Passos para o Totalitarismo), dentro do capitalismo internacional e já não esconde os sonhos imperialistas. Os governantes norte-americanos também se dedicam ao imperialismo. O seu poder advém de governos-fantoche e de espalhar militares armados pelo mundo. E chamam a isso espalhar a democracia. Ainda há comunistas e muitos continuam a apoiar todo o tipo de regimes desaconselháveis, só porque estes se mostram contra os norte-americanos. Por fim, estamos aqueles em que em nome da religião matam o seu semelhante, os que escolheram o sofrimento próprio e alheio como única forma de vida e recusam qualquer acordo ou entendimento. E no meio de tudo isto, cada vez se exige mais o silêncio ou então que se escolha um dos lados, sendo cada vez menos espaço dado ao pluralismo e à divergência de pontos de vista. Enquanto for possível, a minha posição será esta: recuso-me a escolher, recuso-me a compactuar com a morte de outrem.
Fonte do Texto: Albert Camus, Cartas a um Amigo Alemão (Lisboa, Livros do Brasil, [197-?], p. 163-171).
Fontes das Imagens: Nietzscheana.com.ar; Galileu.no.sapo.pt.
Última Actualização: 03/07/2011