Leituras: Mergulhar na China

Leituras: esta é a rubrica onde se fala do que tenho andado a ler. E é também uma forma de se falar do que tenho andado a pensar. A propósito dos Jogos Olimpicos de Pequim 2008 (mas não só), li
O Grande Bluff Chinês do jornalista francês Thierry Wolton. Para ele, a abertura da China não passa de uma grande mentira: as maiores empresas chinesas são estatais ou pertencentes às famílias do poder, a China esconde as suas ambições imperialistas, todas as inovações chinesas foram conseguidas à custa do roubo de tecnologia dos países que aí estabelecem contratos, a China vive da exploração da sua mão-de-obra, entre outras revelações. Para o autor tudo isto está à frente dos nossos olhos há muito, mas as pessoas (e os políticos) têm preferido não ver. O autor acredita que mais tarde ou mais cedo o sistema chinês entrará em colapso.
Depois, as circunstâncias levaram-me a ler também, recentemente, dois livros do escritor francês André Malraux: A Condição Humana e Os Conquistadores. André Malraux é um escritor extraordinário quando usa a descrição: a forma como descreve as faces e os corpos dos homens-protagonistas (há poucas mulheres nestes dois romances) e a China onde ajem (Malraux descreve sobretudo pessoas a agir). Também foi um grande conhecedor da China do início do século, antes de 1949: desse ponto de vista, apresentou-me uma China desconhecida, onde o marxismo-leninismo começava a tomar cada vez mais o poder mas ainda não o detinha e onde os fuzilamentos se sucediam (e o desprezo pela vida humana era cada vez maior).
Por outro lado, fiquei um pouco entediada com as suas reflexões “filosóficas” sobre a morte, o ser e o destino (Malraux põe todo o peso possível nesta palavra). Também não gostei da ideia de “bom colonizador”, uma espécie de homem-espiritual-europeu (nestes dois romances convertido ao comunismo e/ou à ideia de poder) que duvido que existisse no inicio do século XX (mais propriamente anos 20-30, onde se situam temporariamente os romances), muito menos hoje. Por fim, André Malraux apresenta no posfácio de Os Conquistadores uma teoria sobre a decadência da Europa que eu não compartilho. Para ele, caberia a China a herança da cultura europeia decadente.

Última Actualização: 31/08/2008

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