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Leituras: Regresso ao Futuro, à Construção Europeia nos Anos 60 do século XX – parte 2

«A Alemanha precisa da Europa mais do que qualquer outro país. Na insegurança e solidão do seu pós-guerra, viu na ideia europeia não só uma forma de compensar o passado imediato como também uma saída honrosa para as suas formidáveis energias»

Franz Josef Strauss

«Não somos apenas o clero, somos também os profetas da Europa»

Jean Rey (5)

Charles De Gaulle (1890-1970) foi um politico e militar francês e personificou a independência dos Estados (2). O contraste entre Charles De Gaulle e Jean Monnet é maior porque ambos pertencem à mesma geração, nascida no século XIX e colaboraram pelo menos duas vezes, tendo lutado nas duas Guerras Mundiais do século XX. De Gaulle era a personificação do nacionalismo francês do pós-guerra. Nunca usou a expressão “Europa das pátrias”, mas sim “Europa dos Estados”. Durante a 2ª Guerra Mundial observou os mesmos acontecimentos de Jean Monnet, mas chegou a conclusões opostas. Nunca acreditou numa Europa unificada e supranacional.

Apesar da rivalidade histórica com o Reino Unido, tentou num pós-guerra uma aliança com este país, visto que ambos tinham ficado enfraquecidos com a perda das colónias. Mas Winston Churchill, na altura primeiro-ministro, preferiu aliar-se aos Estados Unidos. Talvez a recordação deste gesto tenha levado mais tarde, em 1963 e 1967. Por outro lado, na altura, o Reino Unido conheceu um período de instabilidade política, com uma série de governos de apenas dois anos, o que segundo o autor poderá ter levado De Gaulle a confundir instabilidade política com instabilidade económica (o país estava bem desse ponto de vista).

O facto da França ter sido dos primeiros países a conceder a independência às colónias deu a De Gaulle, a nível de política externa, uma grande flexibilidade. Este aproveitou-a para fazer alianças com quase todos os países, inclusivé com a União Soviética, menos com os Estados Unidos, com quem tinha uma relação ambivalente. Por isso De Gaulle foi o primeiro a propôr uma aliança franco-alemã, que culminou num tratado com a República Federal Alemã. Com o tempo, a flexibilidade atingiu um limite e o facto de se recusar a fazer alianças com os Estados Unidos, cujo poder pensava ser excessivo, começaram a pesar. Na década de 60 ficaram conhecidos os seus embates com o presidente da Comissão Europeia, Jean Rey, pois De Gaulle não estava disposto a abdicar da soberania da França (ao mesmo tempo, nunca pediu a demissão das instituições supranacionais europeias).

O autor apresenta-nos por fim Franz Josef Strauss (1915-1988), um político de carreira, que era ministro das finanças da República Federal Alemã na altura (1966-1969). Combateu na segunda guerra mundial pela Alemanha, fazendo parte do exército nazi. Logo após esta conseguiu cair nas boas graças do ocupante norte-americano e contribuiu para a desnazificação. Já nessa altura era um fervoroso anti-comunista. Fundou, em 1961, a União Social Cristã (CSU), começando aí o seu caminho político, que só terminaria nas vésperas da sua morte. Strauss era um político democrata-cristão, um antepassado daquilo que hoje poderíamos chamar populismo de direita.

Ficou conhecido por um escândalo com o Der Spiegel. Esta revista seguia uma linha de pensamento segundo a qual Franz Josef Strauss constituia uma ameaça para a democracia, por isso ridicularizava-o todos os anos. Em 1962 deu várias notícias sobre a sua política de defesa (na altura Strauss era ministro da defesa), citando fontes militares o que levou este a ordenar a invasão da revista a meio da noite e a prisão de vários jornalistas e administradores desta. O autor do artigo foi preso em Espanha, quando passava férias. Isso levou ao clamor da imprensa nacionsal contra Strauss, bem como a manifestações organizadas por estudantes. O ministro da Justiça da altura, do Partido Democrático Livre, demitou-se e Franz Josef Strauss foi atacado por todos os partidos no Parlamento. Strauss acabou por demitir-se, mas sem contrição, organizando antes uma parada militar de despedida. No entanto, quatro anos depois voltou a ser convidado para o governo, desta vez pelos socialistas alemães, para ministro das finanças.

De volta ao poder, Strauss preocupou-se também as relações internacionais da República Federal Alemã. Ao mesmo tempo, a nível interno, alimentava o nacionalismo, dizendo «os estrangeiros enganam-se se pensam que nos podem privar do direito de termos de novo um salutar partido nacionalista na Alemanha de hoje» (referindo-se ao Partido Nacional Democrata, de cariz neo-nazi). Para Strauss não era natural que «300 milhões de europeus estejam dependentes de 190 milhões de americanos ou de 200 milhões de russos». A construção europeia constituía, portanto, uma terceira via. Também pensava que os países teriam de abdicar de uma parte da soberania se quisessem subreviver. Ridicularizava a política de alianças de De Gaulle mas achava que o eixo franco-alemão seria a chave da unificação europeia. Era favorável à entrada do Reino Unido na CEE.

Estes três homens – Jean Monnet, Charles De Gaulle e Franz Josef Strauss – representavam, segundo o autor, nos anos 60, três ideias em concorrencia e cooperação para a construção europeia. Jean Monnet é cultuado diariamente pelos politicos e burocratas por toda a União Europeia. Charles De Gaulle só hoje é vagamente é referido e é totalmente dissociado da construção europeia. Franz Josef Strauss foi totalmente esquecido, ultrapassado pelo seu rival político da altura (3), Helmut Kohl (4), considerado o arquitecto do Euro e da União Europeia.

Bruxelas tornou-se na cidade mais importante, na capital da Comunidade, na década de 50 do século XX. O autor descreve-a como (e é ainda hoje) o paraíso dos eurocratas, funcionários públicos internacionais encarregues de construir a Comunidade. Foi escolhida para a capital não ser nem Hamburgo nem Paris, para tentar um equilibrio entre a França e a República Federal Alemã.

A Comissão Europeia nasceu em 1955, primeiramente chefiada por Paul-Henri Spaak, e coube-lhe a ela a elaboração do Tratado de Roma. Inicialmente reunia-se no Castelo Val Duchesse, nos arredores de Bruxelas. O tratado baseava-se na crença do comércio livre, na ideia de que um mercado maior aumentaria a estabilidade politica (seguindo o modelo dos Estados Unidos). Também eram criadas autoridades centrais a nível europeu para controlar a necessária equidade entre países. O Mercado Comum assentava sobre o diálogo entre duas instituições: o Conselho de Ministros e a Comissão Europeia, representando um diálogo entre o nacionalismo e o internacionalismo. Na altura todas as decisões finais passavam pelos Conselhos de Ministros. Vem desde essa altura o método das maratonas negociais, pela noite dentro.

Em 1957 iniciou em funções uma Assembeia, que em 1962 se passou a chamar Parlamento Europeu, onde os partidos desde o inicio foram agrupados não por nações, mas por partidos. Grande parte do seu tempo os deputados ocupavam a fazer relatórios para a Comissão, sobre todos os assuntos. Na prática era (e é) um órgão sem poder. Como referia em 1967 Elena Bubba, directora da documentação parlamentar: «Uma sensação de realização, de vago descontentamento e de preocupações graves pelo futuro das comunidades premeia o Parlamento Europeu… À medida que as comunidades se desenvolvem, surgem cada vez mais pormenores e cada vez menos temas para grandes debates políticos».

Nestes primeiros anos de construção europeia já tinha começado a surgir a tendência dos eurocratas serem homens e mulheres separados tanto da sociedade belga (local de residência mas não laços afectivos) como dos seus países (onde têm relações afectivas mas cujas necessidades desconhecem). Surgiram assim os casamentos entre funcionários da CEE, ou com funcionários da EFTA (6) ou com norte-americanos. Assim, o inglês era já uma língua muito falada na Europa antes da entrada do Reino Unido. Por isso os eurocratas eram e são naturamente européistas (ou eurocrentes), dado o seu estilo de vida.

Na altura os eurocratas e políticos de Bruxelas, sentiam-se derrotados politicamente, visto que o nacionalismo havia triunfado temporariamente na construção europeia, muito graças a Charles De Gaulle, interrompendo os planos de maior integração entre países. Por isso começaram a concentrar-se cada vez mais em pormenores legislativos que longo prazo podiam trazer-lhes poder, como a criação de um imposto único de mais-valias entre países membros (na década de 60 apenas seis) ou negociações comerciais, em conjunto, com os Estados Unidos.

(2) Ver Malraux, De Gaulle e a Independência dos Estados.

(3) Apesar do CSU e a CDU concorrerem em coligação às eleições desde 1976, formando o CDU/CSU, havia rivalidade entre os dois.

(4) Membro do partido União Democrata-Cristã alemã (CDU). Orientou a unificação da Alemanha, que teve inicio em 1990.

(5) Jean Rey (1903-1983) foi um político belga. Foi presidente da Comissão Europeia entre 1967 e 1970. O autor descreve-o como um belga poliglota e desenraizado dentro do seu próprio país. Originário da Valónia, chegou a ridicularizar os valões por considerar só falavam uma língua (ele falava quatro).

(6) Associação Europeia de Comércio Livre.

Fonte das Imagens: Amazon; Wikipedia 1; Wikipedia 2; PlanetWare.


Faleceu Amélia Pais

Só hoje soube que faleceu Amélia Pais, professora do ensino secundário. Escreveu durante muito tempo no blogue Ao Longe os Barcos de Flores, onde colocava citações, sobretudo de poetas e poesia. Ficou conhecida pela divulgação que fez das obras de Luís de Camões (Para compreender os Lusíadas, por exemplo) e de Fernando Pessoa.

Fonte da Imagem e Leitura Complementar: Faleceu Amélia Pais, a professora que ensinou Leiria a amar Camões (Região de Leiria)


Coisas Giras de Portugal em 2012 (44)

«Dívida do empresário português, que é também presidente do clube Naval 1º de Maio, da Figueira da Foz, passou do BPN para a empresa estatal Parvalorem, mas Aprígio Santos garantiu ao “Correio da Manhã” que o grupo tem “bons activos” para pagar o que deve.

O Estado assumiu, através da Parvalorem, a dívida bancária que o grupo empresarial de Aprígio Santos (presidente do clube Naval 1º de Maio) tinha com o BPN e que, segundo o “Correio da Manhã”, chega a 130 milhões de euros.

O empresário confirmou a existência de uma dívida, mas não o montante, tendo indicado desconhecer se o crédito passou ou não para a Parvalorem, a empresa criada pelo Estado para ficar com os créditos de difícil cobrança do Banco Português de Negócios (BPN).

Mas Aprígio Santos diz também ser credor do BPN. “O grupo de empresas tinha créditos do BPN e tem créditos do BPN. O grupo de empresas tem uma acção em tribunal contra o BPN de grande montante”, declarou o empresário.

Aprígio Santos assegurou ainda que as dívidas estão “tuteladas por terrenos hipotecados”. “Ninguém paga as minhas dívidas por mim. Somos um grupo familiar grande com bons activos”, sublinhou o empresário ao “Correio da Manhã”.»

Jornal de Negócios  Online (28/05/2012)

«O turismo de luxo no Alqueva vai receber os primeiros turistas em 2012, ano em que será concluída a primeira fase do Parque Alqueva, megaprojecto de José Roquette num investimento de 940 milhões de euros. Golfe, marina, Wine Club e hotel com 250 camas são as primeiras infra-estruturas a inaugurar em Reguengos de Monsaraz.

impulso para a concretização da primeira fase de obra -com um custo de 80 milhões de euros -, é dado esta segunda-feira naquela cidade com a assinatura de um contrato de investimento de 50 milhões de euros entre a AICEP e a Sociedade Alentejana de Investimentos e Participações (SAIP). A cerimónia é presidida pelo ministro da Economia, Vieira da Silva, e inclui ainda a inauguração das instalações  do pólo de Desenvolvimento Turístico de Alqueva.

O Parque Alqueva é o primeiro projecto a iniciar obra de um total de seis empreendimentos turísticos previstos para as margens de Alqueva, num investimento superior a 1,2 mil milhões de euros e financiados por empresas de magnatas como Aprígio Santos, António Mexia ou Ricardo Salgado.

O projecto de Roquette será construído nas próximas duas décadas em três herdades do concelho de Reguengos e irá gerar um total de 2103 postos de trabalho. Os restantes cincos projectos irão criar mais de 700 oportunidades de emprego. (…)»

Alexandre M. Silva (21/12/2009) (1)

«O empresário e presidente do clube Naval 1.º de Maio, Aprígio Santos, vai construir um empreendimento turístico junto às margens do Alqueva em duas propriedades compradas ao ex-eurodeputado do CDS-PP, Rosado Fernandes. As herdades do Xerez e dos Gagos, ambas situadas em Monsaraz, concelho de Reguengos de Monsaraz, foram adquiridas em Novembro por cerca de 12,5 milhões de euros, apurou o CM junto de fonte próxima do processo.

O projecto turístico, apresentado durante o protocolo de elaboração dos planos de urbanização e de pormenor entre a autarquia de Reguengos de Monsaraz e a Aprigius – Companhia de Investimentos Imobiliários Comerciais, empresa do dirigente desportivo, prevê a construção de três aldeamentos com arquitectura tradicional e uma zona desportiva, refere um comunicado da autarquia.
Aprígio Santos, conhecido como o ‘Abramovich da Figueira da Foz’ por ter comprado recentemente um avião para responder aos inúmeros compromissos empresariais nos ramos da hotelaria, restauração, construção civil e imobiliário, referiu na cerimónia que pretende “avançar com o projecto o mais rápido possível”. Contactado pelo CM recusou, no entanto, divulgar o valor do empreendimento turístico e o investimento realizado na aquisição das propriedades.
Rosado Fernandes, que recentemente publicou um livro que reúne troca de correspondência com a escritora Rita Ferro, já tinha adiantado ao CM em Outubro que estava prestes a vender a quinta do Xerez. “Não tinha condições para mantê–la. Foi um óptimo negócio”, disse após a venda das propriedades.
Nas herdades vizinhas, a do Xerez (191,31 hectares) e a dos Gagos (224,20), vão ficar instalados hotéis e moradias de baixa volumetria, divididos por dois aldeamentos, com um total de 340 camas, mais health club, club house, spa, zona comercial e de serviços, piscina, centro de conferências, campos e clube de ténis e campo de futebol. O terceiro aldeamento terá moradias e uma zona de equipamentos desportivos e de lazer. (…)»

Correio da Manhã (19/12/2012)

«O apart-hotel Colina Sol está há dois anos sem exploração turística. O edifício de 11 andares na falésia junto à praia de Centianes, Lagoa, está degradado e é objecto de guerra entre condóminos.

O maior proprietário, com 17 dos 124 apartamentos, é a Algarve Sol, comprada em 2006 pelo empresário Aprígio Santos. A empresa assumiu a exploração turística e a administração do condomínio até ao final de 2009. Um ano antes, quis fazer obras, mas o condomínio não autorizou por discordar dos orçamentos. O condomínio formou, em 2010, outra administração, que quer fazer obras de pintura e isolamento, mas está impedida pela Algarve Sol, que interpôs uma providência cautelar, por não reconhecer legitimidade às decisões das assembleias de condóminos realizadas pela nova administração. O caso vai ser discutido no Tribunal de Portimão, no dia 5 de Agosto.

Os apartamentos continuam a degradar-se por causa de infiltrações e, este mês, os ânimos exaltaram-se. A nova administração acusa a Algarve Sol de ter cortado a água e a luz das partes comuns, o que a empresa nega. Facto é, confirmado pelo CM, que a GNR teve de intervir no passado sábado, para permitir a instalação de um novo contador de electricidade comum, perante a resistência imposta por alguns elementos, alegadamente, da Algarve Sol. (…)»

Paulo Marcelino (18/07/2011) (2)

«Centro Comercial Foz Atlântico discutido em reunião de Câmara
O empresário Aprígio Santos voltou a submeter à discussão em reunião de Câmara o projecto para instalação de uma grande superfície comercial apresentando ao executivo um pedido de informação prévia.
O Centro Comercial Foz Atlântico contempla, entre outras valências, um hipermercado, lojas âncora e outras variadas, zona de restauração e seis salas de cinema.
A autarquia quer agora reunir com o empresário a fim de apurar “o interesse público” do projecto.

Invocando uma falta de dados suficientes que permita aquilatar a importância do projecto para o concelho, o executivo aprovou apenas, por unanimidade, a «reafectação de zonamento”, remetendo para mais tarde uma decisão definitiva.

A medida permite que o projecto – iniciado em 2006 – possa seguir a normal tramitação. No entanto, foi solicitada uma reunião com o empresário a fim de se poder perceber, ao pormenor, todas as valências deste projecto.

“Não faz sentido “chumbar” o projecto apenas pela questão do zonamento. Vamos manter conversações a fim de apurar a envolvência e analisar o interesse público”, considerou o presidente da Câmara, João Ataíde. Segundo foi informado, o arquitecto do projecto encontra-se disponível para efectuar as alterações sugeridas pelo departamento de Urbanismo.

A O Figueirense Aprígio Santos considerou que “um investimento desta natureza, nesta ou noutra cidade, deveria ser bem aceite tendo em conta que a criação de imensos postos de trabalho irá originar uma maior autonomia financeira para esta região. E neste processo, a prioridade seria para os habitantes da Figueira da Foz”

Sobre a medida aprovada em reunião de Câmara, o empresário diz esperar que “a Câmara tenha muita sensatez e possa desbloquear de uma vez por todas este processo que será, sem dúvida, uma mais-valia para a cidade, para o concelho e para a região centro”. (…)»

Jorge Lemos (09/07/2012) (3)

«Aprígio Santos, empresário e presidente da Naval 1º de Maio, foi condenado ontem pelo Tribunal Judicial de Portimão a dois anos de prisão (com pena suspensa) por um crime de dano contra a natureza e sete crimes de desobediência.

Em causa, estiveram trabalhos de gradagem e remoção de áreas de coberto vegetal na Quinta da Rocha, uma herdade de aproximadamente 200 hectares inserida na Rede Natura 2000.

A propriedade pertence à empresa Butwell, detida por Aprígio Santos, que ignorou por sucessivas vezes a existência de uma providência cautelar e de uma ação interposta pelo Ministério Público, para parar com os trabalhos.

O processo arrasta-se desde 2006 e culminou com a decisão do Tribunal, em primeira instância, de condenação do empresário a dois anos de prisão e ainda a uma multa, a pagar em seis meses, no valor de 150 mil euros, que reverterá a favor da Associação Almargem (Associação de Defesa do Património Cultural e Ambiental do Algarve).

Contactado pelo Expresso, Tiago Branco, da Associação ambientalista “A Rocha” – uma das organizações que denunciou por várias vezes os atentados ambientais em curso – mostra-se obviamente satisfeito com a ‘mão pesada’ da Justiça: “Esta sentença é muito importante para a justiça ambiental em Portugal, porque premiou a verdade dos factos e a proteção da natureza. Infelizmente, em regra é muito fácil destruir, pagar multas e prosseguir com a construção de empreendimentos”, afirma.

No acórdão, os juízes consideraram que, apesar de os crimes poderem ser punidos apenas com pena de multa, tal não seria suficiente tendo em conta a atuação do arguido, que revelou “uma energia criminosa tenaz”.

Segundo o Tribunal Judicial de Portimão, o caso assumiu especial gravidade: “A ilicitude dos factos é elevada, já que enquadrada em actuação mais abrangente e tendente à destruição de património ambiental de considerável extensão e valor(…). O dolo é directo e persistente e a motivação é óbvia, o lucro à custa do património de toda a comunidade”.

Para além disso, os juízes consideraram que, apesar de Aprígio Santos não possuir antecedentes criminais, essa atenuante acabaria por ser relativizada face às obrigações sociais do arguido.

O Expresso tentou contactar Aprígio Santos, mas sem sucesso.»

Mário Lino (16/02/2012) (4)

Comentarium: É bom que Aprígio Santos tenha activos para pagar a  dívida, como alega. Senão podemos pensar que a verdadeira luta de classes é entre aqueles que vivem acima das possibilidades e têm alguém - o Estado, com os nossos impostos – para pagar as suas dívidas - e os outros que não têm ninguém que lhes pague as dívidas, têm de sofrer na pele a terapia de choque e ainda são linchados em praça pública com a acusação de viver acima das suas possibilidades…

(1) Correio da Manhã.

(2) Correio da Manhã.

(3) O Figueirense.

(4) Expresso.


Leituras: Regresso ao Futuro, à Construção Europeia nos Anos 60 do século XX – parte 1

«Devemos proclamar a missão e concepção de uma Europa unida, cujo conceito moral granjeará o respeito e a gratidão da humanidade e cujo poder físico será tal que ninguém ousará molestar o seu tranquilo percurso… Espero ver uma Europa em que homens e mulheres de todos os países darão a mesma importância ao facto de serem europeus como ao facto de pertencerem ao seu torrão natal e em que para toda a parte que forem neste vasto domínio possam pensar verdadeiramente: “Aqui, estou em minha casa»

Winston Churchill

«O Mercado Comum é um processo, não um produto»

Jean Monnet

Anatomia da nova Europa (título original: The new europeans) foi originalmente publicado em 1968 e neste se reflete a construção europeia da década de 60. No entanto, como o passado se reprecurte no presente achei que era tempo de voltar atrás, à boa maneira Marty McFly de Regresso ao Futuro.

O seu autor, Anthony Sampson (1926-2004) foi um jornalista britânico, que iniciou a sua actividade em meados dos anos 50 e foi especialmente profícuo nos anos 60 e 70. The new europeans é antecedido de Anatomy of Britain (1962) e Common sense about Africa (1960). Sampson foi também um dos fundadores do Social Democratic Party (1981-1988) e em 1999 escreveu uma biografia não autorizada de Nelson Mandela.

O livro é um retrato da Europa, focalizado sobretudo na atmosfera que rodeava a construção europeia nos anos 60, mas procurando também compreender o dia-a-dia das pessoas que não estavam à frente do poder.

O Conselho da Europa, primeira pedra do projecto europeu, surgiu em 1949 na consequência da Conferência de Haia. Todos os políticos queria ver uma Europa unida, mas ninguém, a começar por Winston Churchill queria abdicar da soberania para isso. Cada um tinha uma ideia diferente do que devia ser uma Europa unida.

O autor começa por nos apresentar Jean Monnet (1888-1979) é unanimamente considerado o “pai do Mercado Comum”. Sem partido político definido, cultivava uma aura apolítica e tecnocrata, notabilizando-se como economista e diplomata. Monnet soube manter-se afastado de querelas entre países em nome daquilo que considerava um ideal mais elevado. O autor refere que agia muitas vezes de acordo com a sua formação empresarial: «alicia políticos sem se aproximar muito deles e contrata peritos e técnicos para colaborarem consigo sem se deixar prender nas respectivas especialidades. (…) Sempre soube delegar, como arrumar ideias e administrações em compartimentos diferentes. A única altura em que ele esteve mais directamente envolvido – quando dirigia a Comunidade do Carvão e do Aço – foi a que menos lhe agradou». Era também um filo-americano. O seu legado mais importante, para o autor, foi a reconciliação europeia e o comércio livre.

O percurso de Jean Monnet junta muito dinheiro com diplomacia: abandonou a hipótese de um curso universitário para se tornar negociante da fábrica de aguardentes do pai; quando a 1ª Guerra Mundial começou trabalhava para o governo francês e sugeriu uma aquisição conjunta, anglo-francesa, de armamento norte-americano; foi vice-secretário da Liga das Nações, ficando chocado com o nacionalismo vigente neste organismo internacional; foi banqueiro nos Estados Unidos; reorganizou a industria do fósforo sueca, a moeda polaca, bem como os caminhos de ferro chineses. Durante a 2ª Guerra Mundial voltou a coordenar as aquisições anglo-francesas de armamento aos Estados Unidos e depois propôs a Winston Churchill uma aliança anglo-francesa, descartando no entanto Charles De Gaulle. Tornou-se na altura funcionário público e viajou para os Estados Unidos, onde pressionou Franklin Roosevelt para aumentar a ajuda, sendo um percursor da política Lend-Lease. Depois da guerra, já em França, elaborou o Plano Monnet para a modernização da industria francesa. Em 1950 apresentou a Robert Schumann, na altura Ministro dos Negócios Estrangeiros francês, uma proposta para a criação da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (CECA), tentando combater dessa forma o nacionalismo vigente. Mais tarde essa comunidade teve de fazer face a problemas de superprodução e de questões levantadas pelo proteccionismo vigente nos países que faziam parte dela, mas foi o embrião da Comunidade Europeia da Energia Atómica (CEEA ou Euratom) e depois do Mercado Comum, traduzido na Comunidade Económica Europeia (CEE). Em 1955 reformou-se, auto-exonerando-se do cargo que ocupava na CECA e criou o Comité de Acção para os Estados Unidos da Europa, que na prática era o clube dos amigos de Jean Monnet, gente de todos os partidos políticos e de sindicatos, que se reunia uma vez por ano para emitir um parecer.

Jean Monnet defendeu, num discurso pronunciou em Londres em 1962: «A natureza humana não muda, mas quando as nações e os homens aceitam as mesmas leis e as mesmas instituições para as fazerem vigorar, o comportamento de uns para com os outros mudará. É esse o processo da própria civilização» (1).

Noutro discurso, no mesmo ano: «A história da unificação europeia demonstra que, quando as pessoas se convencem de que se está a verificar uma mudança que irá criar uma situação nova, actuarão de acordo com os seus planos prévios, devidamente corrigidos, antes de a situação se verificar».

Em 1963 Charles De Gaulle vetou a entrada do Reino Unido na Comunidade Europeia. Jean Monnet correu para Bruxelas, onde elaborou um documento recomendando que os restantes países continuassem a negociar com o Reino Unido, independentemente da opinião francesa. No entanto, o Reino Unido só entraria em 1973.

(1) Esta frase faz lembrar outra, de Cavaco Silva em 2005: «Pessoas inteligentes, com a mesma informação, chegam às mesmas conclusões». Ver Cavaco Silva,  a realidade e o mito.

Fonte das Imagens: Amazon; Wikipedia; Time.