Arquivo do dia: 2012/01/30

Coisas Giras de Portugal em 2012 (14)

«António José Seguro quis ter ontem uma palavra a dizer sobre a aparente tensão entre Cavaco Silva e São Bento por causa das recentes medidas de austeridade e das visões diferentes sobre o modelo social. O líder do PS alertou que este “não é o momento” para “desavenças” entre a Presidência da República e o Governo, declaração que surge depois de a imprensa ter noticiado durante o fim-de-semana que Cavaco não vê com bons olhos a política ‘ultraliberal” do ministro das Finanças e o Estado mínimo de Passos Coelho. O jornal Público avançava mesmo que alguns cavaquistas defendem a saída de Vítor Gaspar.

Apesar de nos últimos meses Seguro ter por várias vezes invocado os recados de Cavaco para reforçar a sua oposição ao cortes nos subsídios e o seu apelo a favor de uma política de crescimento económico – o que lhe valeu críticas de colagem a Belém dentro do próprio partido -, o líder socialista optou ontem por uma mensagem conciliatória. “Este não é o momento para termos desavenças entre os principais órgãos de soberania, em particular entre a Presidência da República e o Governo”, disse o líder socialista aos jornalistas depois do encerramento do encontro de autarcas socialistas, em Ourique.

Seguro quis deixar claro que este é o momento de “concentrarmos todos os esforços” com o objectivo de “resolver” a actual crise. Mas não deixou de mandar uma farpa ao Governo, a quem acusou de estar “de braços caídos” e de estar “a matar os sonhos dos portugueses”. Porque, disse, é “um Governo que só aplica o programa da ‘troika”.»

Inês David Bastos (30/01/2012) (1)

(1) Com Lusa, no Diário Económico.

Fonte da Imagem: O Secretário Chocado.


Passa para cá a soberania

«Os olhos cobiçosos da Alemanha voltam-se de novo para a soberania dos países “periféricos”. De facto, confirmando uma notícia avançada pelo “Financial Times”, a AFP revelou que uma “nota informal” apresentada ao Eurogrupo pela Alemanha (que ainda é devedora à Grécia de muitos milhares de milhões que foi condenada a pagar-lhe a título de dívidas de guerra) no sentido de que a Grécia seja forçada a ceder a sua soberania orçamental em troca de novo pacote de “ajuda”.

Os olhos cobiçosos da sra. Merkel não são substancialmente distintos, senão nos processos, dos que uma outra Alemanha deitou há décadas à soberania dos países vizinhos, Grécia incluída. Taxas de juro usurárias e batalhões de burocratas com “certos poderes de decisão” que reforcem “o controlo dos programas e das medidas ‘in loco’” são coisa mais discreta mas não menos arrasadora do que “panzers” e exércitos de ocupação. O seu efeito prático é, porém, o mesmo: a sujeição de um país e de um povo.

Que o actual Governo português, vendo as barbas gregas a arder, persista em atirar o país para o desastre, vergando-se a “ajudas” arma(dilha)das e afundando a economia no ciclo infernal da austeridade e da recessão, ou é cegueira obstinada (do género da de quem não quer ver) ou coisa pior.

Neste contexto, a intenção do mesmo Governo de pôr fim ao feriado que recorda a data da Restauração da Independência assume hoje uma involuntária carga simbólica.»

 

Manuel António Pina

 Comentarium: Reproduz-se na íntegra a crónica de Manuel António Pina, posto que não há mais nada a acrescentar (por enquanto).

Fonte da Imagem: Casa da Imprensa.