Anjo Meu: Os anos 80 do século XX em versão comprimidos – parte 1

As telenovelas constituem um ponto de aprendizagem para a sociedade em geral, e para quem se interessa por comunicação em particular, que não deve ser negligenciado (1). E, para além disso, como quase todos os filmes, as telenovelas têm o chamado “brinde político”. No caso de “Anjo Meu” a política não é um brinde, é o jogo principal. A primeira fase começa depois do 25 de Abril de 1974 e como isso afectou a vida das personagens. A segunda fase, e o miolo principal da novela, acontece a partir de 1986 (2).

Eis as principais personagens:

(Personagem A) Um ex-dono de um império empresarial e de uma herdade no Alentejo, a cuja família não faltou a bênção do presidente do conselho António de Oliveira Salazar. Os seus principais objectivos são:

- Jogar (vicio que só criou nos Estados Unidos, depois de lhe tirarem os bens?!);

- Recuperar os seus bens (para essa tarefa qualquer meio é bom, pois os fins justificam-se)

- Vingar a morte da esposa que detestava, ocorrida em 1975 (mulher que ele traía com a governanta Joana Rita, e sabe-se lá mais com quem).

(Personagem B) Educada em colégios internos católicos muito restritos, apaixonou-se pelo militar que a salva de ser presa pelo COPCON. Depois, foge com o pai para os Estados Unidos. Aí, em vez de tirar um curso de enfermagem dedica-se a posar nua em escolas de belas-artes (supostamente para ajudar o pai). Chegada a Portugal torna-se, por milagre digno de Fátima, numa defensora convicta das conquistas do 25 de Abril. «Procura um tronco seguro a que se agarre, a terra onde nasceu pode sê-lo e o amor também» (3): suponho que depois de conquistados ambos se tornará mole como as maioria das mulheres do elenco.

(Personagem C) O “herói de serviço” veio de França depois do 25 de Abril para se alistar no COPCORN. Até a filha do dono de um império empresarial ser presa, não havia problema algum em cumprir ordens. Depois teve um “milagroso arrebate de consciência”: podiam-se desapropriar todas as terras para a Reforma Agrária, menos as da sua apaixonada. Por isso, foi saneado pelos seus chefes mas disse à mãe que foi ele que se demitiu. É até hoje o filho mais mimado da personagem D. Entretanto, enquanto trocava cartas com uma prima (a apaixonada) sob nome falso, engatou namoro com outra, para que tudo fique em família.

(Personagem D) Joana Rita, ex-governanta e amante do ex-dono de um império empresarial e de uma herdade no Alentejo, decidiu em 1975 ficar com ela para si. Para isso comprou-a quando a Reforma Agrária terminou com dinheiro de um falecido marido (ou dinheiro da personagem A?). Também pesam sobre ela a acusação de ter mandado matar a esposa do personagem A e de se deitar com tudo o que sejam homens com dinheiro. Resumindo, aproveitou-se do 25 de Abril porque de repente lembrou-se que era a única hipótese de levar a melhor: porque se não, seria sempre ela a perdedora. Próximo passo: tornar-se presidente da câmara. Alterna períodos de sensibilidade histérica (inclui choro) com frieza e manipulação extremas. Personagem vagamente inspirada em Fátima Felgueiras, ficamos à espera da sua fuga para o Brasil antes da novela terminar. Entretanto, trai a democracia todos os dias mas o “povo” “adora-a”.

(Personagem E) Neste ponto da história ainda estamos indecisos qual será a maior vilã: se a personagem D se a E (o personagem A não conta). Esta personagem serve, na história, para gorar os planos das personagens A e D. O seu móbil de acção: manter-se esposa do presidente da câmara da terra alentejana onde existe a tal herdade. É casada com o irmão bastardo do personagem A, um paspalhão mulherengo. É ela que planeia os serviços sujos, para o marido se manter no poder. Aguardamos o final da novela, para vê-la convertida aos bons sentimentos, provavelmente morrendo de cancro ou sendo eleita deputada.

(Personagem F) Filho adoptado pela personagem D, é constantemente lembrado desse facto, chegando-se ao cumulo de tratar a personagem por “madrinha”. É o mais inteligente da família, mesmo assim é totalmente preterido a favor do personagem C. Quer simultaneamente tornar-se o filho favorito da personagem D e casar com a personagem B: duas coisas impossíveis de conseguir ao mesmo tempo, a menos que se seja a personagem C. Portanto, usa a sua calma extraordinária e a dissimulação para ir conseguindo pequenas vitórias em ambos os campos. Mas já se sabe que está talhado a perder, é tudo uma questão de episódios.

Á volta destes seis personagens gravitam outros, com as suas tramas paralelas. Os autores tentam assim dar-nos uma lição etnográfica do que foram os anos 80. O local da acção é “Vila do Anjo”: assim, juntam-se características de uma cidade pequena com as da aldeia, num espaço só. Para dar mais liberdade a quem escreve. E para que possamos ver passar uma galeria infinita de episódios e memorias (de quem os viveu).

(1) Olhar o texto de base que é o guião; compreender o posicionamento das câmaras; ver a maquiagem e o guarda-roupa das personagens; a publicidade escondida na cena Y; etc.

(2) De recordar que, em Julho de 1985 o primeiro-ministro Mário Soares assinou o Tratado de Adesão de Portugal à CEE. E as revisões constitucionais, feitas durante o governo da AD, de 1982 e 1983 abriu o caminho às privatizações.

(3) http://www.tvi.iol.pt/novelas/anjomeu/quemequem.html

Fonte da imagem: TVmais.


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