Meses depois de terem descoberto que o facto da presidente da câmara se candidatar pelo PS ou pelo PSD é a mesma coisa, João e Xavier voltaram à esplanada onde tinham estado anteriormente, ou melhor, ao local do crime

João – Tens andado muito caseiro, Xavier!

Xavier – Saio do trabalho cansado, não me apetece ir estar com o pessoal…

João – Mas não devia ser assim… Tens de sair mais… Olha, vamos organizar um jantar para a semana…

Xavier – Mas o que há para comemorar?

João – O facto de estarmos vivos, bem de saúde, e das legislativas já terem passado. Agora, só faltam as autárquicas!

Xavier – Tu e as tuas piadas políticas!

João – Queres melhor pretexto para um jantar?!

Xavier (com desânimo) – Está bem, eu vou…

CIMG0076João – Tens visto os cartazes espalhados pela cidade?

Xavier (com aborrecimento) – Sim, são muitos! Que mais?

João – Sabias que neste ciclo eleitoral Leiria distingue-se por ter um movimento de cidadãos anónimos que apela ao voto em branco? Já devias ter reparado! Começou nas europeias…

Xavier – Eu de facto reparei que alguns cartazes estavam escritos com letra preta, com insultos.

João – Eu tenho um zine deste movimento. Eles dizem que não têm preferências partidárias: todos os partidos sem excepção merecem um voto em branco! (sorri)

Xavier – Mas tu vais entrar nisso? Não será demitires-te como cidadão?

João – Olha que sinto-me tentado… Já viste o que os partidos PS e PSD fizeram por Leiria?

CIMG0079Xavier – Bem, julguei que tu eras o optimista de serviço! Afinal, não te conheço… De facto não fizeram muito.

João – Pelos vistos não! O meu optimismo é irónico, só serve para organizar jantares (gargalhada). E não é só uma coisa de PS e PSD… O sistema está podre! Os votos em branco têm aumentado, e este movimento quer que aumentem ainda mais!

Xavier – Pois eu, vou votar! Isso é uma coisa tipica de Leiria, como as brisas do Lis?

João – Pelo que sei sim, é uma coisa local. Porquê?

Xavier – Curiosidade.

Fonte das Imagens: sabine

Publico1808091. No dia 18/08/2009 o Público noticiava em manchete: “Presidência suspeita estar a ser vigiada pelo Governo”.

Um mês depois (a 18 de Setembro) o Diário de Notícias publicava um e-mail de Luciano Alvarez, para o seu colega da Madeira, José Tolentino Nóbrega, em que explicava o que se passava e onde era evocado o nome de Fernando Lima, acessor da Presidência da República (e um dos estrategas da comunicação de Cavaco Silva desde os tempos do cavaquismo) como fonte da notícia. O estranho aqui é que a notícia em causa tenha sido assinada por São José Almeida e não por este jornalista.

2. O Sol desta semana noticia que a Comissão da Carteira Profissional do Jornalista abriu um inquérito ao Diário de Notícias por essa revelação de fontes de outro jornal, o que pode levar à quebra de confiança entre jornalistas e fontes.

3. O questionamento do provedor a propósito da notícia “Presidência suspeita estar a ser vigiada pelo Governo” causou, pela primeira vez, mal-estar entre Joaquim Vieira e José Manuel Fernandes. O provedor estranhou não haver contraditório na noticia e não serem aproveitadas as informações versão enviada pelo correspondente no Funchal sobre a visita de Cavaco à Madeira.

O director do Público afirmou que não respondia a mais perguntas do provedor e censurou por escrito o jornalista Tolentino de Nóbrega, correspondente do Público no Funchal, pela resposta escrita dada ao provedor sobre a matéria da crónica e considerou uma “anormalidade” ter falado com ele ao telefone.

Por outro lado, na crónica seguinte, “A questão principal”,  Joaquim Vieira questionou se o jornal tinha agenda escondida. Obviamente, sim:

O director José Manuel Fernandes sempre se deu bem com o cavaquismo e demonstrou-o durante a campanha presidencial e mesmo depois, fazendo editoriais onde Cavaco Silva era apresentado como a melhor escolha.

Belmiro de Azevedo, empresário e proprietário do jornal, gaba-se à muito da sua independência perante o poder politico. Essa independência tem como contraponto a dependência do poder político perante este empresário. Belmiro sempre condicionou as opções editoriais do seu jornal.

4. José Manuel Fernandes alegou que havia escutas do SIS na redacção, informação negada pelo chefe do SIS. Quem está enganado? Quem mente? Se não houve escutas, como um e-mail pessoal de Luciano Alvarez se tornou noticia num jornal concorrente?

Entretanto, o jornal Expresso noticia que a Presidência da República “insiste” em manter as informações sobre a suspeita de que assessores de Cavaco Silva tenham estado sob vigilância.

5. O Diário de Notícias, com gestão pública ou privada, tem sido uma caixa de ressonância do poder. Olhando-se para as manchetes dos últimos meses, fica-se com a sensação que se quer agradar ao governo em funções a todo o custo. Tenho a certeza que se houver mudança de partido no governo, a necessidade de agradar manter-se-á.

capa18-09-20096. João Marcelino adaptou-se bem a essa politica de agrado ao PS. Passou de editoriais de ataque ao PS no Correio da Manhã à defesa incondicional das politicas propostas e aprovadas por este partido. Isso inclui a criação de manchetes como “Cavaco obviamente demitiu-o” (Diário de Notícias, 22/09/2009).

O Sol chama a atenção para o seu modo de proceder dúbio: em 14 de Agosto de 2004 apelidava de «acto nojento» a publicação no extinto semanário O Independente do conteúdo de cassetes roubadas ao jornalista Octávio Lopes, que continham conversas com fontes sobre o processo Casa Pia. Agora defendeu em editorial a publicação do e-mail do jornalista do Público, alegando: «Notícias são notícias».

7. Entretanto, Cavaco Silva apenas retirou funções a Fernando Lima, o acessor citado no e-mail, mas manteve-o no cargo. Numa primeira fase saiu a noticia que ele tinha sido «demitido», mas não foi isso que se passou. O Presidente da República dá apenas um passo atrás, para depois das legislativas puder dar dois à frente… Cavaco Silva prometeu falar depois das eleições.

8. Estranho: Francisco Louça (líder do Bloco de Esquerda) já tinha revelado no dia 9 de Setembro que quem levantou as suspeitas sobre as escutas do Governo à Presidência da República foi Fernando Lima, assessor de imprensa de Cavaco Silva. Como ele soube disso?

9. O PSD tem desenvolvido a campanha sob mote de muito soundbite. Um dos motes tem sido a questão da «asfixia democrática». É um tema apropriadíssimo: este governo PS deu uma contribuição importante para que a Democracia se torne cada vez mais uma palavra oca. O problema é que o PSD-governo também tem dado o seu pequeno contributo para esta situação. Essa quota de ajuda não pode ser esquecida.

Com a exoneração de funções do acessor Fernando Lima, Manuela Ferreira Leite resolveu esvaziar a polémica. No entanto, Pacheco Pereira, o não-militante mais activo do PSD, admitiu que este caso condiciona os resultados eleitorais e que o Presidente deu «uma ajudinha desnecessária” ao PS.

Fonte das Imagens: Herdeiro de Aécio; Jumento.

Um grupo de jornalistas alemães insurgindo-se contra a Declaração de Hamburgo criou o Manifesto Internet. O manifesto teve um enorme sucesso, sendo traduzido para várias línguas, incluindo a portuguesa. Decidi analisa-lo mais de perto, para perceber o que esconde.

ManifestoInternet

Ponto 1 (A Internet é diferente). Isto é um facto. A Internet é um meio diferente do papel, da rádio e do multimédia.

Ponto 2 (A Internet é um império dos media tamanho de bolso). Aqui começa a mistificação. As organizações jornalísticas sofrem alterações a partir do momento em que a Internet se difunde como meio de comunicação informativo. Mas o equipamento para ter uma redacção móvel com ligação online também tem custos. Não tão altos como um programa de televisão ou a edição de uma revista, mas ainda assim há que haver um investimento. Ou então será jornalismo feito a partir do telemóvel dos leitores…
Por outro lado, se na Internet os oligopólios existentes ganham nova concorrência (felizmente), a rede também tem permitido a criação de novos impérios. Aliás, este item do manifesto não esconde isso. O que está em causa é a luta de um cartel – o dos proprietários de grupos de media europeus – contra o império do Google. Assim sendo, ninguém é inocente e todos querem ter o máximo de lucro investindo o mínimo.

É preocupante notar que os jornalistas que conceberam este manifesto consideram o esvaziamento da função de guardiã do jornalismo uma coisa positiva. Fica a sensação que eles apoiam um jornalismo sensacionalista baseado nos instintos básicos dos leitores que concebe tudo, inclusive a política, como um mero entretenimento. É isso «qualidade jornalística»? Não.

Ponto 3 (A Internet é a nossa sociedade é a Internet). Concordo com estas afirmações. A Internet é cada vez mais um espelho da sociedade em muitos países.

Ponto 4 (A liberdade da Internet é inviolável). Este ponto pretende pôr em causa os interesses escondidos por detrás da Declaração de Hamburgo. Concordo com ele.

Ponto 5 (A Internet é a vitória da informação). Há de facto mais informação disponível depois do aparecimento da Internet. No entanto, não podemos falar em vitória da informação. Há muita opinião. E os motores de busca tanto podem trazer verdadeiros tesouros como coisas completamente irrelevantes e nada informativas. Da mesma maneira que os motores de busca não fazem jornalismo, os órgãos de informação não se podem substituir aos motores de busca.

Ponto 6 (A Internet muda melhora o jornalismo). A Internet trouxe a oportunidade de acompanhar os acontecimentos ao minuto. Mas isso nada tem a ver com o papel socioeducativo do jornalismo, pelo contrário. Ficamos também por saber quais as «novas ideias jornalísticas» têm aparecido no fazer da informação.

Ponto 7 (A Internet requer gestão de ligações). Aqui os jornalistas tentam explicar o bê-à-bá da Internet aos barões da comunicação social. Esperemos que eles percebam…

Ponto 8 (Ligações recompensam, citações enfeitam). De facto as ligações compensam, traduzindo um interesse real por determinado órgão de comunicação social. Para além disso, a maioria dos blogues é feita por quem não recebe nada em troca. Por isso apoio estas afirmações.

Ponto 9 (A Internet é um novo palco para o discurso político). Aqui os jornalistas assumem uma concepção ingénua de Democracia, de Internet e de Jornalismo. E contradizem-se, em relação ao afirmado atrás. A Internet tem aberto campos de discussão mas também fecha outros. Por isso, através da Internet, o debate não foi tão alargado como se pensa.
Apoio a ideia que o jornalismo deve envolver os cidadãos e promover debates, mas não será o jornalismo online a tábua de salvação para a Democracia.

Ponto 10 (Hoje, liberdade de imprensa significa liberdade de opinião). Na Internet coexiste o amador e o profissional, numa relação de parceria. Por vezes o amador é muito bom e o profissional muito mau. Isso não significa, como pretende sugerir este ponto, que se coloquem no lixo as regras jornalísticas ou que se possa pensar que a distinção entre jornalismo pago e não pago desaparece num passe de mágica. A liberdade de opinião que se pretende que exista na Internet fica de facto facilitada a partir do momento em que se dá acesso livre aos conteúdos. Mas a distinção entre jornalismo pago e não pago tem de continuar a existir, a bem do primeiro. Sob pena de todo o jornalismo deixar de ter qualidade, o que já é uma tendência.

Ponto 11 (Mais é mais – não existe algo como demasiada informação). Aqui há uma concepção ingénua das capacidades humanas. Existe algo como demasiada informação, e isso causa confusão nas pessoas. A única salvação é o filtro pessoal que cada pessoa tem, e que foi referido atrás. Aliás, informação não é conhecimento.

Ponto 12 (A Tradição não é um modelo de negócio). Pode de facto ganhar dinheiro na Internet. Mas a tradição pode ser também um modelo de negócio. O jornalismo oferece imensas possibilidades. E mais uma vez os jornalistas tentam explicar aos barões o básico.

Ponto 13 (Os direitos de autor tornam-se um dever cívico na Internet). Concordo: os direitos de autor são importantes, mas é possível compatibilizá-los com a difusão da informação, através de licenças da Creative Commons, por exemplo.

Ponto 14 (A Internet tem muitas moedas). Concordo. De facto a publicidade é o grande financiador dos conteúdos online, e outros tipos de financiamento têm de ter em conta o público-alvo, que tem de ser um nicho.

Ponto 15 (O que está na Net fica na Net). A Internet permite de facto a criação de memórias do passado, o que é uma coisa muito boa. Têm sido criadas algumas apresentações online de grande qualidade, mas a maioria do que está online é a reprodução, e muitas vezes a cópia, do que as agências noticiosas produzem.

Ponto 16 (A qualidade permanece a mais importante das qualidades). Não é bem assim. A Internet tem de facto conteúdos homogéneos. As pessoas acabam por escolher um jornal ou um conjunto de jornais que seguem (e lincão caso tenham blogue), criando uma rotina. Isso poucas vezes tem algo a ver com qualidade, infelizmente.

Ponto 17 (Tudo para todos). A Internet mudou de facto as relações, provocando uma «mudança social». A capacidade da «geração Wikipedia» de «seguir a notícia até à sua fonte original, pesquisá-la, verificá-la e avaliá-la – sozinha ou como parte de um esforço conjunto» existe de facto, mas nem todos o têm e para isso é necessário tempo.
Concluindo: Este manifesto acaba por mistificar o que é a Internet, o jornalismo e a democracia, defendendo pontos de vista contraditórios e irreais. A única coisa positiva é que ensina o básico aos barões que assinaram a Declaração de Hamburgo.

Leitura Adicional: Realidade “nua e crua” do jornalismo (em dez tópicos).

Retomando

21/09/2009

sabine_originalFoi necessário intervalar este blogue para repensá-lo, assim como a vida pessoal. Agora, depois de decepções e de um casamento, é tempo de retomar este blogue. Acabei por decidir manter tudo como até aqui, sendo este blogue mais reflexivo e menos pessoal, com derivas pseudo-intelectuais.

Fonte da Imagem: sabine