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«A maior parte dos homens que ali se encontravam serviria, pelo menos, a quatro governos; e teriam vendido a França ou o género humano para garantir a sua fortuna, para não sofrerem um mal-estar, uma dificuldade, ou até por simples baixeza, por adoração institiva da força. Todos declararam crimes políticos indefensáveis»

Gustave Flaubert

«(…) Também mostrava que a cruzada corporativista podia avançar por estes métodos patentemente autoritários e continuar a ser aplaudida como sendo democrática só porque havia eleições (…)»

Naomi Klein

Compreendendo porquê o Estado Novo durou tanto tempo, é pertinente que se faça uma análise sintética & ponto de partida para outras análises da situação portuguesa actual, 35 anos depois do 25 de Abril:

- Antes tudo o que era feito era “a bem da nação”. “A bem da nação” não havia discussão. Hoje tudo é feito a bem do “desenvolvimento do país”, do “progresso” e da “competitividade”. Mesmo quando o que se faz prejudica o país. A bem da “competitividade” temos:

  • Aposta única e exclusivamente no turismo como indústria em desenvolvimento.
  • Aposta na imigração, na mão-de-obra barata e na precaridade como desenvolvimento interno.
  • Aposta no fecho de hospitais e serviços públicos por todo o país, com especial prejuízo no interior.
  • Colocação de grande parte do território nacional na mão de estrangeiros ou de grandes empresas e não preservação dos espaços naturais do país – esta política, seguida por vários governos, atingiu um climax com a invenção dos chamados PIN (Projectos de Interesse Nacional).

- O Estado Novo fazia questão de deixar grande parte do país analfabeto. Hoje a todos são dadas novas oportunidades de estudar, sucesso a rodos no primeiro e segundo ciclos e diplomas universitários. Mas o eduques oficial esconde mal a iliteracia funcional (e mesmo o analfabetismo funcional) de pessoas com diploma. Continuamos analfabetos, agora com diploma!

- Não criamos nada: todas as nossas ideias – políticas, culturais, económicas, etc. – ou são importadas dos Estados Unidos, recicladas e vendidas como novas, ou vêem em forma de directiva ou resolução da União Europeia.

- Quem quer ser apelidado de bom democrata temos de escolher entre o neo-liberalismo versão PSD e o neo-liberalismo versão PS. Eventualmente, podemos escolher neo-liberalismo versão CDS. As diferenças entre propostas desvanece-se cada vez mais. E Cavaco Silva, na sua campanha, tentou ressuscitar o mito do político apolítico!

- Quem pensa de uma forma diferente é tachado de comunista ou de extrema-direita. Na prática, a mão invisível do mercado oferece às pessoas a hipótese de escolha entre um pensamento quase único e ser marginalizado politicamente.

- Continuamos com a mentalidade que já vem do absolutismo:

  • Subserviência aos poderosos e aos poderes instituídos (poderes político e económico).
  • Amor pela “ordem”, que é uma forma falsa de resolver todos os problemas. Promoção da passividade e da não-discussão.

- Existe um claro apoio dos grandes empresários à situação actual, que lhes traz vantagens.

- Continuamos no Estado Novo…

  1. Alimenta-se a ideia de que a caridade é uma forma de solidariedade e que substitui a justiça social. Esta ideia é alimentada, esquecendo-se muitas vezes que a caridade também recebe financiamento estatal!
  2. Voltámos a ter os números de emigração dos anos 60 do século XX.
  3. O Estado continua a alimentar-se de impostos e coimas (que depois são mal geridos porque se pensa mais em interesses privados que nos interesses dos cidadãos contribuintes).
  4. Os cofres de alguns empresários mantém-se cheios, tendo este cada vez mais móbil com que despedir.
  5. Quere-se convencer toda a gente, que se vive no melhor dos mundos.
  6. Promoção da corrupção, do clientelismo, do amiguismo tudo isso agora às claras (sem a capa da “moral e bons constumes” do Estado Novo) entre interesses públicos e privados.

- Corporativismo: a UGT é um sindicato dependente do regime, sempre a fazer acordos proveitosos.

- Têm sido cada vez mais completamente ignoradas as manifestações dos descontentes, especialmente de professores e agricultores. Os governos comportam-se como se elas não existissem, como se não se baseassem em motivos reais de descontentamento.

Fonte da Imagem: Grandes Empresas.

Leituras Adicionais (neste blogue):

João & Xavier falam de política

Sinais

Máquina Alegre

Testemunho: formadoras(es) do sector público

Duas situações, 81 anos de diferença

Última Actualização: 25/06/2009

4 Respostas para “Estar atenta aos sinais: Portugal, 2009”

  1. Hopes disse

    Sabine,
    Gostei imenso do teu post e fiquei impressionada como tu conseguiste resumir num só texto, os problemas fundamentais que minam o nosso país. Persistem os mesmos vícios do Estado Novo. Como dizes e bem, em nome da prosperidade ou outrora “a bem da nação”, é a mesma elite que se está a proteger, o mesmo status quo a ser preservado enquanto os direitos do cidadão comum são enterrados. O desinvestimento na educação, o incentivo à passividade e ao conformismo social, o objectivo é sempre manter o status quo e impedir qualquer esforço de mudança.
    Resta-me a esperança de saber que existem pessoas como tu, a perceber o que se passa e a denunciar a situação, sem medo de serem apelidadas de extremistas ou comunistas…

  2. dissidentex disse

    Eu gostei da comparação com os aspectos do antes e do depois.
    E gostei do salientar da questão dos rótulos.
    Que como menciona a Hopes, quem fala sobre este estado das coisas é apelidado de ser “x” ou “y” apenas porque sim.

  3. De reparar que até o Estado Novo não criou muitas dessas situações apenas as perpetuou de uma forma particularmente agressiva… é tudo parte de um processo degenerativo mais vasto em que as várias esferas da actividade humana vão sendo esvaziadas (e o individuo desumanizado e cada vez mentalizado que é dispensável) para ganho de um conjunto de interesses muito reduzido que ganha assim uma fantástica coutada neste país.

    Lembro também que as mesmas pessoas que hoje se queixam noutros dias apoiaram reformas igualmente agressivas contra outros grupos e outras esferas humanas com grande gozo e prazer por verem os privilégios de uns a desaparecerem. Agora tocou-lhes a eles (agora a sua atitude mesquinha já lhes pesa no espirito e pedem altos valores de solidariedade aos outros). Mas não é com defesas meramente de circunstância ou sectoriais que param o avanço desta máquina descontrolada.

  4. sabine77 disse

    Hopes:
    Obrigada pelas tuas palavras. Eu sei que não soun comunista, mas não me importo de ser tabelada como tal!

    Dissidente-x:
    Existia entre o comunismo e o neo-liberalismo um espaço que foi totalmente esvaziado. Portugal, como viveu o Estado Novo, não teve nunca esse espaço. E cada década que passa é mais difícil que esse espaço seja ocupado. Mas é importante que o seja, em nome da democracia!

    Pedro Fontela:
    Tens razão, isto é uma “continuação” de outras “continuações”.
    Quanto ao facto das pessoas que se queixam agora antes apoiarem as coisas, é infelizmente verdade, mas não há muito a fazer: tudo isso faz parte da dinâmica em curso que referes – esvaziamento do ser humano & individualismo.

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