Sinais
07/06/2009
Sinal 1:

Capa da Visão, de 12 a 18 de Março de 2009. Neste número Angola é apresentada como a terra prometida da nova emigração portuguesa. O local ideial para quem foge da crise e do desemprego. É dito que 100 mil portugueses já lá estão. É vendido o sonho angolano, onde os recém-licenciados encontram o emprego bem-remunerado que sempre imaginaram ter. Problemas? Estes emigrantes não sabem o que é isso, por enquanto.
A reportagem apenas respira um mal-estar difuso quando Francisco Ferro, engenheiro de telecomunicações, há dois anos em Angola, é citado: «A relação com os angolanos é boa. Podem sentir que lhes estamos a retirar postos de trabalho, mas também precisam de nós».
Sinal 2:

Capa do Jornal de Leiria de 21 de Maio de 2009. Em destaque, entrevista com Pepetela, escritor e político angolano. Este homem acredita que Angola no futuro se tornará um pólo estratégico mundial. Ainda assim, não deixa de reparar que há cada vez mais portugueses em Angola que angolanos em Portugal…
Sinal 3

Capa do jornal I, de 16 de Maio de 2009. Em destaque, uma reportagem sobre os chineses em Portugal. Que estão a abandonar Portugal ou a desistir de vir. Que estão a preferir ir para Àfrica ou para a Europa de Leste. Que a crise e a quota de vistos são obstáculo à vinda. Toda a reportagem é muito favorável aos comerciantes chineses, nem por um momento se falando dos malefícios da sua estadia cá para os comerciantes portugueses.
É citado Jorge Malheiros, professor e investigador da Universidade Nova de Lisboa, que afirma que os previlégios aos chineses são um “mito”: «Não têm quaisquer privilégios nos impostos, nem no crédito. Quando têm regalias é porque negociaram como todos os outros». Y Ping Chow, da Liga dos Chineses, também reforça essa ideia.
Para além disso, toda a reportagem passa a ideia que a maioria dos produtos vendidos pelos chineses são feitos em Portugal. Como é isso possível, se muitas fábricas portuguesas têm vindo a fechar?!
Última Actualização: 08/06/2009
Fonte das Imagens: sabine



Sabine: estas “notícias” correspondem a uma estratégia que tem estado a ser seguida de “minimizar” os impactos da imigração/emigração em Portugal.
Por um lado vende-se a ideia(tão cara ao actual regime) que é bom os portugueses saírem daqui – dessa forma a taxa de desemprego mantém-se “estável”.
Por outro e paralelamente vende-se a ideia de que a imigração é boa para Portugal e que não causa problemas económicos, sociais e de xenofobia.
Discutir as causas disto, e os problemas estratégicos que isto causa ao país e aos portugueses, é algo que estas revistas/jornais e estas notícias não discutem – nunca discutem.
Importa perguntar porque é que nunca discutem e porque é que veiculam sempre estas “opiniões politicamente correctas”, insinuando dessa forma que quem não concorde com estas opções será da extrema direita/esquerda.
Será demonizado.
Mas no entanto os problemas mantém-se. O que é que se percebe com a observação critica destas estratégias e da verificação da realidade subjacente a estas opções?
Dissidente:
Precisamente.
Isto são sinais que algo não está bem. Que nos andam a atirar areaia para os olhos. Os problemas destas publicações é que apenas pegam nas coisas muito superficialmente.
Há aqui problemas muito graves quando é considerado normal mandar pessoas produtivas em massa para fora do país simplesmente para manter uma balança comercial mais equilibrada. É que nem a suposta esquerda que diz “abominar” os métodos salazaristas de poder (e a emigração semi-forçada era um dos preferidos) consegue criar um discurso coerente de crítica não só à perda de potencial como ao próprio sistema económico que gera estas enormidades e que está na causa de todas as acções governativas, aliás a cegueira chega ao ponto de nem sequer se perceber que desde meados da primeira República que não existe sequer uma esfera política e que mesmo antes desta data já o seu poder estava a ser comido pela esfera comercial e económica.
Só posso concluir que se verificam duas situações quanto ao conjunto de pessoas que percebem o que se passa mas não se vendem: 1) Uns são demonizados como fala o dissidente, ostracizados de todas as formas e feitios de forma a limitar a dispersão e credibilidade das suas ideias (aqui o sistema prefere destruir a pessoa em vez das ideias) e 2) Os que estão “institucionalizados” e que não podem ser completamente afastados são postos à margem do discurso público e encostados a questões técnicas de forma a que mesmo que alguma informação passe para sociedade ela nunca possa causar muitos estragos já que muitos poucos percebem sequer o seu significado e impacto – aliás quem afirmar que o eleitor deveria perceber este tipo de dados será categoricamente acusado de elitismo (que tempos mais medíocres que vivemos em que isto é acusação ou indicio de culpa de seja o que for, a própria qualidade está em vias de ser semi criminalizada).
Pedro:
Li à pouco tempo num jornal gratuito que regressámos em números à emigração dos anos 60. Essa foi uma das razões porque decidi escrever este post. E porque emigração e imigração estão correlacionadas.
Aqui não é só a questão de demonizados vs. ostracizados. É também uma questão de falta de oportunidades para quem quer trabalhar (a única alternativa é a precaridade) e de não coincidência entre o discurso oficial e a realidade.
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