Compro o jornal Público de Sábado, 28/02/2009. Eis que, na zona da opinião, aparece numa página inteira, um texto escrito por Pacheco Pereira. A dizer o quê? Mal dos blogues e da comunicação social! Quem o ler não diria que ele tem um blogue e que distribui as suas ideias e opiniões pelo mesmo Público, pela SIC Notícias, por muitos espaços!

Pelo que leio, deveria-se pedir a opinião ao sr. José Álvaro Machado Pacheco Pereira cada vez que se escrevesse uma notícia para ele avaliasse a sua relevância e a proporção adequada a dar a determinada notícia. E ainda para mais se se tratem de escândalos envolvendo censura (caso 1, caso 2), gente ligada ao PSD, racismo, etc., etc.

E nos blogues? Por vontade do sr. Pacheco Pereira este blogue seria sumariamente apagado, pois quem escreve aqui é um bicho que só trata de temas irrelevantes!

Eis Pacheco, o irrelevante!

Leituras Adicionais:

- Pacheco Pereira, Isto é Abrupto 4

- Pacheco Pereira, Isto é Abrupto 5

- SIC Patrocina a Censura

- Ler Sem Sorrir por Favor… 1

- Ler Sem Sorrir Por Favor… 2

Última Actualização: 01/03/2009

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Apetecia-me escrever mil coisas no blogue. Mas ou tenho tempo ou tenho inspiração. É raro ter as duas coisas simultaneamente.

Fonte da Imagem: Sodahead.

Comentário de Sabine:

darwin_evolucao_2Este é apenas um excerto de um texto do escritor e viajante David Quammen publicado na National Geographic deste mês, intitulado “As primeiras pistas de Darwin”.

O autor começa por destacar a importância da evolução para biologia, pois foi esta teoria que permitiu estudar os seres vivos: as suas características e comportamento, a origem de espécies e indivíduos, e a forma como estes interagem uns com os outros e com o ambiente.

O que se pode constatar é que a porção de Terra explorada e conhecida em 1831 era metade da actual: desde meados do século XIX até à actualidade o homem explorou e contaminou praticamente toda a Terra. Diminuem cada dia o número de espécies animais e vegetais, bem como populações humanas, ainda imunes à mão do homem. É claro que esse conhecimento tem um lado positivo: foi ele que permitiu à ciência desenvolver-se. Mas o progresso não trouxe só vantagens… (linque).

A comprovação da teoria de Charles Darwin só foi possível graças a Gregor Mendel e aos seus discípulos: sem o avanço da genética a teoria da evolução seria apenas uma teoria entre outras.

Mas a teoria da evolução não é obra de um só homem… É preciso lembrar dos homens que ajudaram e influenciaram Charles Darwin:

- John Stevens Henslow, com quem estudou botânica e que foi quem o propôs ao capitão Robert FitzRoy para a viagem no Beagle;

- Alexander von Humboldt, naturalista e explorador, de quem Charles Darwin leu os livros de viajens;

- Jean-Baptiste Lamarck, naturalista francês e um dos primeiros a popôr a transmutação das espécies;

- John Gould, o ornitólogo a quem Darwin mostrou as amostras recolhidas nas Galápagos;

- Thomas Malthus, ecomista e demógrafo francês, de cujo livro Ensaio sobre o Principio da População, Darwin tirou a ideia da luta pela sobrevivência;

- Alfred Russel Wallace, naturalista que chegou à mesma conclusão que Charles Darwin praticamente na mesma altura e que o obrigou a adiantar a publicação do livro A Origem das Espécies.

Contra a teoria da evolução têm nascido recentemente teorias criacionistas, que defendem que uma ou mais identidades inteligentes estariam por detrás da origem de tudo. Estas teorias retomam alguns argumentos usados no tempo de Charles Darwin, outras vezes trazem ideias novas. Para mim, são tretas sem sentido, com resquícios de passado. E não representam sequer uma alternativa credível à teoria da evolução.

Infelizmente, o darwinismo fossilizou-se e contaminou todos os aspectos da vida humana, o que é perverso: foi incorporado em todas as ideologias existentes actualmente. Por exemplo, supõe-se que uma das fontes de inspiração de Karl Marx para a teoria da luta de classes, tenha provindo das leituras de Charles Darwin.Também não posso deixar de evocar aqui as toneladas de obras de gestão e auto-ajuda que evocam ou se inspiram no darwinismo

Fonte da Imagem: Blog Leituras Favre.

Leituras Adicionais:

Charles Darwin no Project Gutenberg

Darwin entre nós de Carlos Fiolhais;

Darwin: manusear com cuidado de Miguel Vale de Almeia;

Darwin (2) de Maria N.;

Parabens aos dois de Ludwig Krippahl.

Última Actualização: 21/02/2009

voyage_of_the_beagle2«Comemora-se este ano o 150º aniversário do livro mais incendiário da história da ciência e, coincidentemente, o 200º aniversário do inglês de modos suaves que o escreveu. Charles Darwin não inventou a ideia de evolução, tal como Abraham Lincoln (que, por acaso, nasceu no mesmo dia, 12 de Fevereiro) não inventou a ideia de liberdade. O que Darwin ofereceu em “A Origem das Espécies” foi uma teoria consistente sobre a for ema como a evolução pode ocorrer unicamente através de forças naturais, dando aos cientistas liberdade para explorar a gloriosa complexidade da vida em vez de a aceitar apenas como mistério impenetrável. “Nada em biologia faz sentido, excepto à luz da evolução”, escreveu há 36 anos o genicista Theodosius Dobzhansky. Essa luz, que começou com um vislumbre na mente do naturalista a bordo do HMS Beagle, projecta actualmente raios tão fortes que podemos ler o texto da vida graças a ela. Darwin ficaria por perceber quanto lhe ficara por saber e quanto nos aprender.

A viagem do jovem Charles Darwin a bordo do HMS Beagle, entre 1831 e 1836, é um dos mais conhecidos e meticulosamente mitificados episódios da história da ciência. Reza a lenda que Darwin embarcou no Beagle como naturalista de bordo, visitou o arquipélago das Galápagos, na região central do oceano Pacífico, e ali contemplou tentilhões. As várias espécies de tentilhões eram discerníveis por bicos de formatos diferentes, surgindo adaptações e regimes alimentares particulares.

Estas pistas obtidas nas Galápagos levaram Darwin (imediatamente? Muito depois? Neste ponto, o relato mítico torna-se vago) a concluir que a biodiversidade da Terra tivera origem num processo orgânico de descendência com modificações, ou evolução, no qual a selecção natural é o mecanismo principal. O britânico escreveu o livro “A Origem das Espécies” e convenceu o mundo de que assim era, excepto dos responsáveis da Igreja Anglicana.

Terá mesmo sido assim?

Este relato da viagem do Beagle contém uma parcela de verdade, mas confunde, distorce e omite muitos dados. Por exemplo, os tendilhões não revelaram tanto como a grande variedade de sabiás existente nas ilhas, pelo menos não inicialmente, e Darwin não conseguiu compreendê-los até receber ajuda de um ornitólogo em Inglaterra. A escala nas Galápagos foi uma breve anomalia perto do fim de uma expedição com o principal objectivo de fazer o levantamento da linha costeira da América do Sul. Darwin não fora recrutado para o Beagle como naturalista oficial. Aliás, o licenciado em Cambridge, com 22 anos, olhava com indiferença a possibilidade de uma carreira no clero rural e foi convidado para ser o companheiro de refeições do comandante durante a viagem. Com o passar do tempo, Darwin assumiu o papel de naturalista e assumiu-se como tal. Mas a sua teoria desenvolveu-se lenta e secretamente, e “A Origem das Espécies” (título completo: “Sobre a Origem das Espécies Através da Selecção Natural ou a Preservação de Raças Favorecidas na Luta pela Vida”) só surgiu em 1859. Muitos cientistas, juntamente com alguns membros do clero vitoriano, resistiram aos seus argumentos durante décadas. A realidade da evolução tornou-se amplamente aceite em 1940, depois da clarificação que lhe proporcionou a genética das populações.»

David Quammen

«A hoodia é um cacto com cerca de metro e meio. Desde a noite dos tempos os kung do Kalahari e os san (bosquímanes) do Botsuana servem-se dele para combater a fome durante as longas batidas de caça no deserto. No pé, com as dimensões de uma melancia, existe de facto um princípio activo capaz, se ingerido, de dar uma prolongada sensação de saciedade. O gene “quebra-fome”, baptizado P-57 pelo Council for Scientific and Industrial Research (CSIR) da África do Sul, foi isolado, patenteado e comercializado no inicio de 2000 por uma pequena farmacêutica inglesa, a Phytopharm, a qual cedeu prontamente a sua licença exclusiva à americana Pfizer (a mesma que fez fortuna com o Viagra). O “cacto dietético em comprimidos” revela-se, como de costume, uma verdadeira galinha dos ovos de ouro num mundo onde, segundo as estimativas da Organização Mundial de Saúde (OMS), 1,6 mil milhões de adultos têm peso a mais e 400 mil milhões sofrem de obesidade.

(…) Na gíria técnica, o roubo dos conhecimentos tradicionais dos san (e, analogicamente, dos equatorianos, a sua egoísta exploração económica tomam um nome – inventado a primeira vez por Pat Mooney da Rural Avancement Foundation International em 1993 – de “biopirataria”.

Nada de pretextos, nem venda nos olhos ou berloques parolos. A biopirataria não tem o fascínio rebelde e anticonformista de um corsário salgariano à caça de tesouros e cofres, mas o aspecto, a maior parte das vezes, um pouco frio do investigador espertalhão de bata branca. Ao serviço de universidades, fundações, indústrias agroalimentares, químicas, farmacêuticas e biotecnológicas, a biopirataria não hesita em camuflar-se de antropólogo para entrar em contacto com as populações mais remotas do planeta, com o objectivo de lhes subtrair os segredos, sejam eles sobre plantas medicinais, cogumelos, e a referida espoliação raramente prevê qualquer tipo de compensação ou indemnização (sendo os royalty, astutamente, vinculadas ao produto derivado.

Mais uma vez, e frequentemente sem levantar qualquer suspeita, os pobres encontram-se, mau grado seu, a subsidiar os ricos. Acontece que, a Eli Lilly & Co. De Indianópolis, prepara dois fármacos de êxito – a vincrastina e a vinblastina – a partir da vinca rósea, uma planta do Madagáscar, sem que ninguém, excepto a mesma, participe nos lucros. Que os investigadores da Universidade de Wisconsin, seguindo a mesma estratégia, registam a patente de uma proteína extraída da baga africana “j’oublie” (Pentadiplandra brazzena) para fazer com ela um adoçante. Que a indústria holandesa Quest International e a Universidade do Minnesota obtenham uma patente, a patente número 5919695, sobre uma bactéria do “pozol”, a bebida dos camponeses mexicanos preparam diluindo com agua uma pasta de milho fermentado, e que tem a propriedade de impedir a decomposição dos alimentos. Na prática, um conservante natural.

pirata1(…) Em Genebra o braço-de-ferro entre os nativos e as “corporations” assume contornos esbatidos e os ritmos lentos da diplomacia. Em Fevereiro [de 2008], no Palácio das Nações de Genebra, primeira sede da ONU, reuniu-se pela primeira vez um grupo de trabalho, empenhado nas negociações e redacção de um protocolo internacional que pretende assegurar às populações indígenas uma parte dos benefícios derivados da comercialização de recursos genéticos. Um objectivo ambicioso, já contemplado na convenção sobre a biodiversidade de 1992, que reconhece a soberania dos estados sobre os recursos genéticos presentes no seu território, pede uma equitativa distribuição dos lucros entre sociedades estrangeiras e países de origem e confere – no artigo 8J – grande importância aos saberes indígenas, exigindo o prévio consentimento informado das partes interessadas, antes de proceder à exploração.

“Codificando um regime internacional de acesso aos recursos e repartição dos benefícios, o Protocolo colocará fim ao escândalo da biopirataria”, afirmam os diplomatas a partir das margens do lado genebrino. De acordo. Mas será suficiente? “Tudo depende de como interpretar o conceito de biopirataria”, sublinham os militantes de Grain, uma organização não governamental que se bate contra a “erosão genética”. “Biopirata significa fundamentalmente que se toma alguma coisa que pertence a outrem, sem pedir licença e sem pagar. Implicitamente, isso significa que, se houver um acordo sobre algum tipo de licença e correspondente compensação – que aliás é o sentido do Protocolo Internacional e da própria convenção –, o crime deixa de existir. Mas, para nós, uma tal transacção não resolve o verdadeiro problema, que se prende, pelo contrário, com o conceito de pertença. Quem decidiu que a biodiversidade pertence a alguém?”.

A solução “legalista”, por outras palavras, embora estudada para favorecer e defender os governos do Sul, as suas riquezas naturais e os seus saberes antigos, acabaria apenas por facilitar a apropriação dos recursos genéticos, limitando-se a fixar o preço e a escolher o melhor oferente. Para alinhar na querela, só resta decidir se (e eventualmente quanto) o mundo está à venda».

Irene Amodei

Comentário da Sabine: Encontrei este texto na revista Além-Mar de Novembro de 2008 e não resisti a reproduzir aqui alguns excertos.Quais os limites da investigação em universidades, fundações, indústrias agroalimentares, químicas, farmacêuticas e biotecnológicas? Será que tudo deve ser patenteado? Será que uma compensação aos países e povos de onde são originárias as fontes (plantas, sementes, animais) para a investigação – ou seja, a tal solução legalista – é suficiente? Fica aberta, a discussão.

Leituras Adicionais: Convenção sobre a Diversidade Biológica; Genómica, biopiratería y puebos indígenas; Biopirataria: crime e paranóia; Contra a biopirataria; O Xhoba ou Hoodia – Despeça-se do apetite e dos kilos com o Hoodia.

Fonte da Imagem: Anatomias.com de Pedro Veliça.