Ensino Superior, IPL, Leiria, 2008
16/12/2008
(Na sequência do postal anterior, decidi escrever este longo texto, numa altura em que estão quase a fazer dois anos lectivos que conclui o meu curso)
Vou falar do que observo de longe na Escola Superior de Educação de Leiria (ESEL, IPL) mas penso que poderia falar de outro qualquer estabelecimento do ensino superior, público ou privado. Na altura em que o nosso projecto nasceu o ensino superior estava a passar por uma mudança. Essa mudança atingiu uma espécie de clímax este ano.
1.
Depois de passar pelo ensino secundário, é necessário aos estudantes e seus pais escolherem uma opção de vida. Ir trabalhar nesse momento significa ser explorado, para além de toda a humilhação inerente a essa escolha. Por outro lado, os sucessivos governos afirmam sonoramente que Portugal precisa de gente qualificada, com estudos superiores, cujo ratio no país ainda é muito baixo, comparado com outros países da União Europeia. Certo.
O problema é que está instaurado no sistema pré-universitário o facilitismo. Vejo cada vez mais gente do ensino básico e secundário com pouca vontade de ler, de descobrir, de pesquisar, de memorizar e de escrever:
a) A culpa não é dos professores: pelo que eu já pude ver com os meus próprios olhos, aos docentes do pré-universitário só falta “fazer o pino” para interessar os alunos.
b) A culpa também não é dos pais que querem sempre o melhor para os seus filhos (mesmo se às vezes o melhor se torne no péssimo a longo prazo).
c) O ensino universal é uma conquista preciosa do pós-25 de Abril: não deve ser retirado.
A culpa é sim das sucessivas reformas do ensino pré-universitário, daquilo a que se chama Eduquês:
- O aluno é colocado de tal forma no centro do ensino que deixa ser possível exercer qualquer tipo de autoridade sobre ele. E esta falta de autoridade fomenta o desinteresse. Por isso se vai para o ensino básico e secundário por obrigação. Nesse contexto, é quase impossível haver professores que se tornem referência na vida dos alunos (como eu tive). Pelo contrário, os professores são um alvo a abater: porque passa um trabalho chato, seja na aula seja como TPC, porque não os deixa falar o telemóvel na aula, etc.
- Ao professor é dado um milhão de tarefas: tem de ser simultaneamente burocrata, animador, disciplinador, assistente social, actor de reinserção social, sociólogo, gestor, etc.
2.
Por isso são poucos os estudantes que entram no ensino superior com real vontade de descobrir uma profissão. Apenas querem ter boas notas e sair dali o mais cedo possível. Essa dificuldade já se sentia quando lançámos o Akadémicos e pelo que observo apenas quadruplicou nestes anos: ninguém quer arriscar e experimentar jornalismo, relações públicas, multimédia, marketing, publicidade, televisão ou rádio sem ter sucesso e lucro imediato. Com brilhantes excepções, a maioria quer ser Manuela Moura Guedes ou outra estrela semelhante da constelação mediática, de um dia para o outro, com o mínimo esforço.
Vivemos também numa sociedade que apenas premeia antes de mais nada o consumo. E tirar um curso superior, no contexto actual, é também é consumir.
3.
Trata-se consumo, sem dúvida: provam-no as propinas exorbitantes cobradas aos alunos. A ideia do ensino superior gratuito foi varrida como um mau pensamento. Em vez disso as universidades são financiadas pelo número de alunos que têm, quando o financiamento não é cortado (o que também acontece). Para assegurar a sua sobrevivência a ESEL precisa de ter muitos cursos e muitos alunos a pagarem propinas. Graças a isso as turmas estão entupidas de alunos. Há turmas onde não é possível terem todos as aulas na mesma sala. Isso ainda não acontecia em 2002 (quando entrei no curso) mas é uma realidade que se vê hoje.
O que já acontecia em 2002 era a criação de cursos para ocupar professores do ensino superior, que de outra forma estariam em situação muito má. Por isso as escolas, públicas ou privadas, não se preocupam com as condições logísticas para um curso existir: criam-no e pronto. Criam-nos para responder a uma certa necessidade de mercado: oferta de alunos + ocupação de professores e/ou pedidos de empresas. Penso que os sucessivos ministérios que tutelaram o ensino superior também têm responsabilidade nisso.
Nesta conjuntura, os cursos de Filosofia, História e Ciências Puras (tudo o que não seja tecnologia de ponta) deixaram de ter qualquer valor, porque o que conta é a sua utilidade a curtíssimo prazo. Paradoxalmente, os cursos de Professor também caíram no descrédito, numa altura em que eles engrossam os supranumerários ou os desempregados-profissionais.
E não interessa muito que a pessoa X tenha interesse real ou vocação no curso Y. O que interessa é que o tire com boas notas. Mesmo se depois o resultado seja o desemprego.
4.
Agora apareceram os CETs (Cursos de Especialização Tecnológica) que são uma espécie de cursos técnicos de equivalência ao secundário e que dão preparação para alguns cursos ensino superior. Também existe o Ano Propedêutico (vulgo ano zero). Isso tem permitido a muitos adultos voltar a estudar, o que é óptimo. E entrar no ensino superior. Enquanto ex-trabalhadora-estudante a ideia agradar-me-ia muito, mas…
Agora a escola está atafulhada de alunos que muitas vezes nem se conhecem. Os professores do ensino superior têm de dar aulas a gente exausta de um dia de trabalho. E a esses o curso interessa mais como formação ou progressão de carreira, estão pouco interessados em conteúdos. Uns poucos já estão na área e o curso é um complemento. Uns poucos interessar-se-ão a partir do 2º ano ou, enventualmente, num terceiro. Mais uma vez é o consumismo que impera, e é o Eduquês que se começa a surgir neste quadro. Ora isso é muito preocupante.
5.
E por fim, temos Bolonha e a Estratégia de Lisboa.
Bolonha demorou a arrancar. Aumentou a burocracia interna nas universidades. Isto para além dos ajustamentos de transição. E tenta uniformizar aquilo que muitas vezes não deve ser uniformizado. Deu grandes dores de cabeça aos alunos na fase de transição. E agora apenas tem um significado: 3 anos de curso = Licenciatura. Mas o saldo não é totalmente negativo: nalguns casos Bolonha foi pretexto para melhorias e ajustamentos benéficos para os currículos do curso.
Já em relação à Estratégia de Lisboa, resume-se a: “economia sustentável”, “conhecimento-competitividade”, “coesão social”, “cultura de excelência”. Tudo palavras ocas. No fundo, é a bênção final para tudo o que foi descrito atrás.
Fonte da Imagem: Afilosofia.no.Sapo.pt – Conhecimento.


