3.

Fiquei feliz por, pela primeira vez, haver uma mulher e um negro a candidatar-se à presidência dos Estados Unidos. E ainda outra candidata à vice-presidência. Já era tempo disso acontecer!

4.

Toda a campanha, de todos os candidatos foi feita à base de marketing: ao jeito norte-americano, com mais encenação e um mínimo de verdade. Mas Barack Obama revelou-se o “candidato-marketing”, conseguindo dar lições de retórica de antologia. Para além disso inovou: ao usar as chamadas redes sociais para espalhar a sua palavra (Facebook, Flirck, YouTube). E também os videojogos. Colocou norte-americanos e não só a gritar “Yes, We Can” não se percebendo ainda o que eles podem… E tornou-se um ícone global.

5.

Sarah Palin, a candidata à vice-presidência pelo Partido Republicano, foi a estrela da campanha depois da sua nomeação, em Agosto. Ela pode ser considerada, no seu país, a norte-americana genuína, ou pelo menos representa esse ideal de genuinidade. Profundamente religiosa, opõe-se ao aborto e é totalmente favorável à posse de armas e à caça. Dizendo-se feminista, não passa de uma mulher emancipada antifeminista. Foi acusada, entre outras coisas, de exigir às mulheres violadas de Wasilla, no Alaska (onde era mayor), que pagassem o material para colectar o DNA para fazer prova do crime. O único mérito de Sarah Palin foi mostrar que a Síndrome de Down pode ser olhada com normalidade.

Ela foi ainda o porta-voz do medo dos norte-americanos, ao insinuar que Barack Obama era muçulmano e depois ao dizer que ele era terrorista.

6.

cartoons_05Ambas as candidaturas, de John McCain e de Barack Obama, colaram-se à ideia de mudança. Embora no caso de John McCain ele tenha sido honesto suficiente para declarar que tinha alguma divida, e se revia de alguma forma, nas políticas do seu antecessor.

7.

“Momentos sujos” na campanha de John McCain:

- Quando anunciou que suspendia a sua campanha, de modo a poder regressar a Washington e ajudar no trabalho legislativo para tentar superar a grave crise financeira em que os EUA mergulharam (Setembro 2008)

- As acusações de Sarah Palin e John McCain a Barack Obama, já faladas aqui (Outubro-Novembro 2008).

“Momentos sujos” na campanha de Barack Obama:

- O uso da vida pessoal de Sarah Palin como arma de arremesso politico (Setembro-Outubro de 2008)

- O uso da idade de John McCain como arma de arremesso politico (Agosto-Setembro 2008)

8.

Barack Obama venceu com 364 votos eleitorais (65937955 votos, 53%), enquanto que John McCain ficou com 163 votos eleitorais (57756059, 46%). Ao contrário do que alguns blogues fizeram passar, não creio que houvesse assim tanta unanimidade à volta de Barack Obama e tanta vontade de mudança. Os Estados Unidos da América (USA para os amigos) estiveram divididos ao longo de toda a eleição. Apenas nos últimos dias, com o apoio expresso de alguns norte-americanos apoiantes do actual presidente houve decisões de voto para o Partido Democrático, praticamente à boca das urnas. O apoio a Barack Obama pode se esvair a qualquer momento, sendo que para já vai passar por um “estado de graça” próprio dos principiantes.

9.

Sempre tive a convicção (e mantenho-a) de que qualquer que fosse o vencedor, a mudança não seria assim tão grande nos Estados Unidos e no mundo. Uma coisa é estar em campanha eleitoral e prometer, outra é governar e agir. Para além disso, os Estados Unidos têm uma dinâmica interna própria. Nunca partilhei do “american dream” de alguns europeus. Por outro lado, não me considero anti-americana. O meu maior desejo é que Barack Obama: reponha os direitos civis a nível interno e feche Guantanamo (dando um julgamento e uma punição justa aos suspeitos de terrorismo aí detidos). Quanto ao resto, será o regresso ao “estilo Bill Clinton de governo”, tendo sido chamados para integrar a equipa de Obama muitos protagonistas da anterior administração democrata… e alguns do Partido Republicano.

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10.

Resenha de linques para mais tarde recordar:

- Resultado das eleições na CNN

- As análises político-mediáticas de João Lopes no Sound+Vision (de onde foram retiradas as imagens para este postal):

- O que Barack Obama lhe pode ensinar sobre Marketing Social e Sucesso?

- McCain vs Obama: the campaigning just got virtual

- No Feministing:

- McCain Racism, Hypocrisy on Khalidi Issue

- A campanha da Internet

- Sarah Palin blamed by the US Secret Service over death threats against Barack Obama

- Yes he did. Now what?

- Uma América pós-racial

- Pensamento dissidente

- American Civil Liberties Union – Transition

- Obama confirma nome de Hillary Clinton para secretária de Estado

Fim desta Análise

Última Actualização: 04/12/2008

«Os acontecimentos da Europa de Leste e o despertar do nacionalismo no império soviético desde o Verão de 1989, sem mencionar as dolorosas recordações ligadas à reunificação alemã, surpreenderam toda a gente e voltaram a colocar as questões nacionais no coração da Europa. É um pouco como se os quarenta anos de guerra fria se tivessem traduzido num congelamento da questão nacional a ponto de ter sido considerada ultrapassada quando, de facto, ela reaparece intacta e inteira. Pensámos estar desembaraçados da questão nacional entendida como factor de mobilização e de identificação dos povos, ou até como factor de conflito, tendo as duas guerras mundiais servido para ilustrar o modo sinistro a loucura nacionalista. Apercebemo-nos actualmente de que o problema se encontra no ponto em que o abandonámos em 1944, ou em 1918, ou em 1900, consoante os binóculos usados para olhar a Europa. A construção da Comunidade económica ilustra perfeitamente essa ambiguidade. Desejada justificadamente para reconstruir uma Europa numa base não nacionalista, esbarra após trinta anos de progressos lentos e pacientes no desejo profundo de reunificação da “nação alemã” e, em menos de um ano, é todo o capital de confiança, pacientemente acumulado desde a guerra, que ameaça ruir. E não apenas em França! De tanto que se ter tratado a questão nacional como prova de arcaísmo, ela regressa hoje com uma força intacta.

Isolated Television (with Clipping Path)É aqui que se volta a encontrar o papel essencial da televisão. Viu-se sobretudo como um factor de desenclausuramento, descobre-se o seu papel de vínculo social. Contudo, esse papel foi fundamental depois da guerra, quando a maior parte das representações ruíam e que a rapidez de transformação de uma sociedade confrontada com o conflito entre os mundos capitalista e comunista, com as guerras coloniais e com o triunfo progressivo da sociedade de consumo, aí encontrou uma espécie de fio de condutor da modernidade. Se a televisão surgiu então como uma transformação no meio de outras, não se viu o suficientemente que ela era um factor de estabilidade e não de instabilidade. Coloca-se hoje em dia o mesmo problema mas invertido. O duplo movimento de universalismo e individualismo triunfou mas sem mas sem propôr outro valor positivo para além da recusa de modelos caducos e da assunção dos valores da liberdade até à sua consequência extrema, a solidão. Neste contexto de liberdades individuais mas também de solidões institucionalizadas, a televisão pode desempenhar um papel de identificação colectiva, sem por isso ser alvo de suspeita de querer suscitar um regresso ao passado! Reconhecer actualmente a importância do factor nacionalista é assim essencial, sob pena de o dar amanhã de presente à extrema-direita. Apesar das aparências, a televisão não é um instrumento universal de comunicação: só o é a partir de uma identidade construída. Aliás, esta dupla característica parece ser indispensável. Como poderia a televisão desempenhar esse papel de abertura, e portanto de constante desestabilização, e mesmo de problematização dos esquemas e valores, se simultaneamente não representasse, para os espectadores, um elemento de unidade nacional? Não podemos ver o mundo, sobretudo se o olhar e a imagem alargam sem cessar as suas fronteiras, a não ser a partir de um lugar fixo, identificado, e com a consciência das nossas raízes. Senão, somos arrastados pelo fluxo das imagens!»dwolton_5maio03_25

Dominique Wolton

Comentário da Sabine: É claro que este texto se encontra datado (1990) e situado (o autor é francês). No entanto estas palavras têm muito que se lhe digam… Durante o meu curso superior deixei praticamente de ver televisão. Ler o Elogio do grande público de Dominique Wolton. O autor apresenta-se como um defensor da televisão, sobretudo da televisão generalista pública. E tenta demonstrar que o ódio dos intelectuais à televisão generalista não só é injustificado, como por vezes é hipócrita. Neste excerto o autor foca a importância do carácter nacional da televisão generalista e dos perigos de um internacionalismo cego (não só ao nível dos meios de comunicação). Deixar o nacionalismo à extrema-direita é o que vê mais hoje. Aparentemente, só é democrata só vê benefícios na globalização e nos caminhos da União Europeia. Este postal foi dedicado à Helena Araújo, sob os auspícios do 1 de Dezembro de 1640.

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Fontes das Imagens: CECS U. Minho – Seminário com Dominique Wolton; O Maior Clube do Mundo; Penates Publiciti.