Arquivo do dia: 2008/09/28

Leituras: Gorbachev, Determinismos e o Pós-comunismo – parte 2

Continuação da Leitura de O Pós-comunismo: do Atlântico aos Urais, de Jacques Lesourne e Bernard Lecomte (Venda Nova, Bertrand, imp. 1991):

No capítulo seguinte os autores debruçam-se sobre o “império deslocado”, ou seja, as repúblicas que faziam parte da União Soviética mas que na altura (1990) estavam a pedir a sua independência. Segundo a tese oficial comunista, o regime tinha erradicado o racismo e promovido a paz e a união entre os povos. Ora a realidade era bem diferente. Especialistas como Michel Garder, Andrei Amalrik, Emmanuel Todd e Hélène Carrère d’Encausse nunca acreditaram nessa tese. Apesar da homogeneização crescente promovida durante decénios na União Soviética, os povos nunca perderam totalmente as suas características específicas. Estes povos têm características que os diferenciam, seja do ponto de vista religioso, nas tradições, na demografia e mesmo na história. Ora, a glasnost deu oportunidade de manifestações a todas estas especifidades nacionais e regionais, trazendo para primeiro plano o nacionalismo latente. Os autores fazem notar que em muitos casos Estaline apoiou as independências nacionais para depois, em 1940 as anexar e submeter.
Para os autores, o desmembramento da União Soviética era algo que não podia ser adiado eternamente, visto que mais tarde ou mais cedo seria inevitável acontecer. As políticas de Gorbatchev apenas deram o impulso inicial necessário.
Jacques Lesoune e Bernard Lecomte comentam que durante todo o processo de desmembramento da União Soviética Mikhail Gorbatchev teve um acção dúbia. Se por um lado não conteve totalmente as revoltas nacionalistas por outro tentou, de todas as formas possíveis, manter o poder e a influência da Rússia sobre os outros estados.
A independência declarada de várias nações levou ao despertar do nacionalismo russo. Este nacionalismo manifestou-se pela «preservação da Natureza, restauro dos monumentos históricos, o estudo da História, o restabelecimento dos antigos nomes de ruas e de cidades» e renascimento da igreja ortodoxa. No entanto, com o tempo (e isso já se notava em 1990) sobressaía a sua componente xenófoba, com «um triplo alvo: os judeus, os outros povos da União Soviética e o estrangeiro em geral». Nesse contexto nasce o movimento Pamiat (que significa memória em russo), que glorifica a Rússia pré-revolucionária e tem carácter neo-fascista, entre outros.

Leitura Complementar, relativa à situação actual: Estado e Igreja russos cada vez mais fundidos; A Juventude NASHI.
Fonte da Imagem: The Berdichev Revival.

Fim da 2ª Parte


Leituras: Gorbachev, Determinismos e o Pós-comunismo – parte 1

Nota: Leitura de O Pós-comunismo: do Atlântico aos Urais, de Jacques Lesourne e Bernard Lecomte (Venda Nova, Bertrand, imp. 1991).

1990: o prémio Nobel da Paz é atribuído ao ainda presidente da URSS, Mikhaïl Gorbatchev. Reunificação alemã. Em face de tudo isto, Jacques Lesoune (economista e na altura director do jornal Le Monde) e Bernard Lecomte (jornalista francês, que na altura trabalhava para o L’Express) escrevem uma obra para tentar explicar como se chegou até ali e quais as perspectivas de futuro.
Os autores, como base para as suas análises, usaram os dados de Emmanuel Todd, um cientista social francês. Ele desenvolveu uma tipologia de famílias e relacionou isso com as ideologias, sistemas políticos, crenças e acontecimentos de determinado país. Em 1976 previu o colapso da União Soviética, baseado em vários indicadores, como por exemplo a mortalidade infantil. Este tipo de abordagem trouxe novas possibilidades para a teoria e praticas política. No entanto, é uma concepção determinista (para cada povo só há uma ou duas hipóteses de regime, a partir dos dados demográficos).
Os autores não acreditavam na ideia de fim da história, ressuscitada em 1989 por Francis Fukuyama, e usaram o capítulo inicial para esclarecer isso mesmo. Para eles o fim da União Soviética traria novos problemas. Para eles, a acção da União Soviética durante a Guerra Fria trouxe indirectamente alguns benefícios e alguns equilíbrios, que o seu fim iria pôr em causa.
A figura em destaque de toda a obra é Mikhail Gorbatchev. A ele é dedicada a primeira parte do livro, onde os autores tentam perceber quais as condições para o seu aparecimento, qual o seu percurso até ao poder, como e porquê actuou de determinada forma entre 1985 e 1990. Para os autores a ascensão de Mikhail Gorbatchev foi tanto produto do acaso como da necessidade. Em 1981 ninguém poderia prever que um homem assim assumisse o poder, dado que o regime tinha ganho uma certa estabilidade, e os apartchiks e a numenklatura estavam no auge da sua força. Por outro lado, havia necessidade de alguém como Gorbatchev, dado que a crise do modelo soviético em 1985 era uma realidade. Por isso alguns dos chefes do Bureau Politico soviético viram nele alguém que lutaria contra imobilismo e com ideias claras, tanto para a política interna como externa. Gorbatchev era o modelo de bom aparatchik («Sedutor, obstinado, boas falas», com capacidade de persuasão e tenacidade).
Seguidamente, os autores fazem um pequeno resumo do que foi a politica de Gorbatchev entre 1985 e 1989. Antes porém, fazem um pequeno apontamento acerca das características das famílias russas, a partir de Emmanuel Todd:
«A família camponesa russa é, com efeito, uma família comunitária exógama que, dentro das características tradicionais deste tipo de famílias (igualdade de irmãos nas regras de sucessão, coabitação dos filhos casados e dos seus pais, ausência de casamento entre filhos de dois irmãos), acrescenta um “igualitarismo marcado pelas relações entre os sexos, manifestando-se por uma diferença de idade muito fraca entre um homem e a sua mulher”». Um tal sistema leva a que, na família, o pai seja uma figura todo-poderosa «que domina os seus filhos mesmo adultos concentra nele raiva e amor», uma igualdade entre filhos que «asfixia a iniciativa individual, excepto nos limites da coerência familiar; igualdade que se harmoniza com a propriedade colectiva, do mir aldeão ao kolkhose soviético; igualdade que reina, enfim, no seio de um mesmo estrato social da burocracia».
Essa ideia do pai todo-poderoso foi usada pelos sucessivos dirigentes do país, de Pedro, o Grande, passando por Catarina II a Estaline, que se diziam “pai do Povo”. Está ligada a um governo centralista, com uma hierarquia de previligiados. Por isso, «a despeito da revolta latente dos filhos, que fazem da morte do pai uma das constantes da vida política russa, é sempre de cima que partem as reformas (…). Trata-se de reformas muitas vezes violentas, porque a sociedade opõe aí uma enorme resistência passiva». Algo de semelhante se passou durante a chefia de Mikhail Gorbachev.

Seguindo Emmanuel Todd, os autores concluem que não foi o comunismo que fez a Rússia, mas a Rússia que fez o comunismo, numa produção autóctone. Pelo contrário, nos países de Leste ele foi imposto e nunca aceite completamente. Jacques Lesoune e Bernard Lecomte também chamam a atenção para as relações ambíguas que a Rússia mantém desde sempre com o resto da Europa: os russos desde sempre culparam os europeus por tudo o que de mal lhes acontece. Por outro lado sempre tentaram importar os modelos e as ideias europeias:
«A autocracia czarista e o totalitarismo comunista alimentaram-se dessa relação psicanalítica conflitual com a Europa, cobiçada e difamada. A “Terceira Roma” pôs em prática a mentira propagandística ou a chantagem afectiva para impressionar o Ocidente. Servindo-se dos seus abomináveis sofrimentos, como Custine observava desde 1839, que eram os únicos capazes de alimentar o messianismo de um povo pouco seguro de si. E cioso da sua especificidade».
Assim, os nacionalistas mais radicais podem dizer hoje, por exemplo, que o comunismo foi uma importação do Ocidente, já que Karl Marx era um judeu exilado em Londres. Os autores consideram que, dado que os russos consideram a democracia e o respeito pelos Direitos do Homem como importados da Europa, não têm pressa em aderir a esses valores.
Entre 1985 e 1990 Mikhail Gorbatchev estabeleceu várias politicas internas na URSS, entre elas a glasnost e a perestroika:
- A glasnost foi uma politica de transparência de informação, como forma de abrir a economia soviética e reabililitar o comunismo através da renovação da massa critica e da conquista de intelectuais, cientistas, engenheiros e estudantes) e criar u contra-poder para lutar contra a burocracia, para alem de mobilizar os responsáveis dos meios de comunicação russos para apoiarem as reformas politicas. Para Jacques Lesoune e Bernard Lecomte o objectivo primordial da glasnost não era o aumento da liberdade de expressão, mas isso foi uma consequência inesperada desta politica.
- A perestroika consistiu na produção sistemática de legislação reformista ao nível da economia. Esta legislação teve como consequência uma economia desorganizada e o descontentamento, tanto das populações como dos funcionários do estado (os burocratas). O fracasso da perestroika criou condições para o fim da União Soviética. Para os autores, a perestroika foi «conduzida de uma forma ao mesmo tempo superficial, precipitada e incoerente». Mas nem o melhor dirigente do mundo conseguiria em quatro anos mudar a economia de alto a baixo na União Soviética, sem que isso tivesse consequências negativas.
Por fim, os autores destacam a corrida ao poder pessoal de Mikhail Gorbatchev. Depois de em 1986 ter renovado as gerações dentro do Bureau Politico. De em 1987 demite Boris Ieltsine da direcção do Partido de Moscovo. Depois muda a Constituição, para um regime presidencialista forte, criação de um Congresso dos Deputados do Povo (provindos dos sovietes) e redefinição do papel do Partido Comunista, que de condutor do estado passa a ser apenas espaço de reflexão ideológica.
Assim, nas eleições de Março-Abril de 1989 apareceram candidaturas múltiplas, mesmo se muitos dos candidatos foram designados pelo Comité Central do Partido Comunista soviético e outras “organizações sociais” do género. O resultado é um Parlamento com 80% de deputados do Partido Comunista e 20% de reformadores desse mesmo partido. E a eleição de Mikhail Gorbatchev como presidente da União Soviética. Mas é precisamente em 1989 que a União Soviética se começa a desmembrar, pelo que o seu poder real é muito pouco.

Fontes das Imagens: Breakthrough Blog; Cover Browser – Time Covers.

Fim da 1ª Parte

Última Actualização: 29/09/2008