Porque ainda não comecei a túitar
22/11/2009
Decidi limitar a minha participação nas redes sociais a meia dúzia de aderências (logo, de empresas) porque:
- Somos cada vez mais indivíduos atomizados, com cada vez menor noção de pertença a um sítio. Tudo é efémero, mas hoje tem-se essa consciência maior disso, porque para além da morte, as relações pessoais parecem ter prazo de validade para muitos (veja-se o aluguer de amigos). Somos muitos sentados à frente do nosso computador a emitir opiniões ou a dialogar com alguém virtualmente (afinal, é para isso que servem as redes sociais), com uma ligação vaga a pessoas ou comunidades reais.
- Revolta-me a hipótese de se saber de tal forma os gostos, a vida e o que pensa cada pessoa, deixando assim pouco espaço para a privacidade – e para respirar. Sou constantemente bombardeada com publicidade, de inúmeras formas, até ao cansaço!
- Nem toda a publicidade-a-si-mesmo é positiva: todos temos um lado negro que se manifestará mais tarde ou mais cedo. E aquilo que uns vêm como qualidade, para outros será defeito.
- Não há tempo sequer para blogar como desejaria. Milhões de lençóis de texto ficaram por escrever por falta de tempo, que inclui motivação para pesquisar mais e para pensar mais antes de escrever (por sua vez, o Twitter está limitado a 140 caracteres!).
- Dizer o que pensamos a todo o momento: esses pensamentos ficam para os amigos de carne e osso, não para ilusões sociais de conhecimento, pessoas que têm um alcance limitado na nossa vida. Concedo que o Twitter seja útil a um jornalista no exercício da sua profissão – que se pode actualizar constantemente com novas informações – não a mim.
- A blogosfera já teve o seu ponto alto como moda. Agora é moda estar no Twitter e no Facebook. Qual será a próxima moda? Escrever mensagens infográficas?
- É melhor fixar meia dúzia de locais virtuais onde estar, em vez de se dispersar informação e atenção pessoal por muitos sítios.
Nota: Agradeço ao Pedro Jerónimo a palavra: túitar.
Leitura Adicional: Virtual communities: abort, retry, failure?
Fonte da Imagem: Flammarion Cysneiros.
Jorge Ferreira e a morte
21/11/2009
Morreu Jorge Ferreira, professor de Direito da Comunicação Social na Escola Superior de Tecnologia de Abrantes. Durante a licenciatura comecei a ser leitora assídua do seu blogue, Comunicar a Direito. Depois, conheci-o pessoalmente quando veio a Leiria participar no ENEJC 2006, de cuja organização fiz parte. Pareceu-me uma pessoa dinâmica, sempre a tentar movimentar os alunos, demasiado parados para a sua energia. Também acompanhei durante algum tempo o seu blogue Tomar Partido e sei que froi um dos fundadores do Partido Nova Democracia. Em termos políticos, teríamos pontos de vista quase totalmente divergentes. Em termos pessoais, ficam os sentimentos à família e aos amigos.
NOTA: Daniel Pádua, activista do software livre brasileiro também morreu ontem. Ele deixou um poema que gostei de descobrir hoje: Tenha experiências…
Fonte da Imagem: O Templário.
Última Actualização: 22/11/2009
Não me identifico com o comunismo. Desde pequena foi-me dito que votar nos comunistas era mau. Mas o único voto que eu conseguia dar é um voto de protesto, não um voto “útil”! Depois de mais de uma década a exercer os meus direitos de eleitora, decidi que desta vez o meu voto teria de ser para os comunistas.
O Bloco de Esquerda parecia inicialmente uma boa opção para exercer este tipo de voto, mas dado que fui constatando uma grande deriva dentro do partido, com alguns rostos a mostrarem desejar apenas o poder pelo poder, acabou por ser preterido, depois de vários anos em que foi escolha para voto de protesto. A colagem de Francisco Louçã ao PS no final da campanha das legislativas deixou-me com a ideia que tomei a decisão certa.
O PS era o partido em que desejava ter votado. Mas um PS social-democrata, não este, que desde os anos 80 colocou o socialismo na gaveta! Com as suas reformas neo-liberais sob capa de “preocupação social” e com a sua retórica “nós somos a salvação” tornou-se o pior partido possível. A concordar com essas reformas que implicam perda de direitos dos trabalhadores, seria mais coerente votar no PSD ou no CDS-PP!
A CDU (ou melhor dizendo, o PCP) tem um anti-americanismo primário e uma noção de regime político no qual não me revejo. No entanto, têm sido os mais coerentes defensores dos trabalhadores. Também têm sido dos poucos partidos que têm resistido às luzes da União Europeia – cujos fundos e políticas ofuscam o juízo da maioria dos partidos portugueses. Não sou anti-capitalista, mas para defender as empresas portuguesas nenhum dos outros partidos tem feito nada de relevante.
(Assim, o meu voto no PCP assegura aos maledicentes a desculpa das minhas simpatias comunistas para explicar determinado comportamento meu. Assim, é-lhes dado uma oportunidade única para confirmarem as suas teorias ocas).
Termino citando Adolfo Casais Monteiro:
«E quem não compreenderá que um homem simples e sincero prefira ter-se como comunista a estar condenado à inacção, pois que, por motivos tão evidentes que não me parece necessário alongar-me a tal respeito, o prestigio do nome é algo que polariza vontades de acção de outro modo inutilizadas? Isto que o bom-senso mostra é, evidentemente, ignorado pelo “anti-comunismo”, o melhor aliado de Salazar, sem dúvida possível. (…) Sob o anti-comunismo, está a mesma reacção. Uma reacção inimiga da tortura, da censura, etc. Mas inimiga, também, dos mais elementares direitos de um povo a uma vida económica com um nível mínimo de dignidade que tornará possível falar na sua liberdade. Porque não há liberdade com fome. E fome não se suprime com palavras, mas com leis que não podem limitar-se a mudar a fachada (…)».
Fonte da Imagem: Spectrum.
Última Actualização: 22/11/2009
Para que conste 5
13/11/2009
- O Público mudou de director recentemente. Mas continua a sua longa e difícil caminhada para se tornar algo tão inútil como um jornal gratuito, que se lê e se deixa num vão de escada.
- Entretanto, o director do Sol veio dizer que a homossexualidade é uma moda. Uma moda desde 2400 a. C.! José António Saraiva nãosabe o que é ter de se assumir a homossexualidade ainda hoje perante a família. E não acredito que a homossexualidade seja um contágio, como afirma.
- Tozé Martinho é um actor, argumentista (de telenovelas). Também é político: concorreu à Assembleia Municipal de Benavente pelo PSD. A sua última novela, Sentimentos, está muito bem escrita: muito levezinha, cheia de conflitos facilmente resolúveis, e algum mistério policial para contrabalançar. Só tem um ou dois vilões, porque é toda a gente muito boa.
Entre as personagens: uma comunista e um fascista. Incentivados por um padre, eles vão trabalhar para um supermercado para maiores de 65. Só acção, só boas intenções! Enquanto eles se convertem à democracia (já que ambos são pessoas cheias de bons sentimentos), vende-se o comunismo e o fascismo como coisas boas, que até podem coexistir pacificamente, desde que devidamente arbitradas por um padre. Faz-se também a apologia da não-política – local neutro sem conflitos ideológicos. Enfim, um paraíso anti-democrático…
Retro 80
02/11/2009
Na sociedade de consumo as pessoas não podem parar de fazer o dever de consumir (ter emprego é apenas para um grupo cada vez mais selecto; consumir é um direito universal, individual e intransmissível). Por isso é necessário periodicamente renovar os objectos de consumo – e de desejo). Assim aparecem periodicamente (ultimamente até anualmente) as tendencies que vão ao retro e tornam-no in, através da renovação.
(Está bem, foi uma década importante para mim, porque a vivi (com menos intensidade que as décadas posteriores, é certo). É claro que eu gosto dos anos 80!… Sobretudo dos desenhos animados e de certos programas televisivos, mas…)
Para quem não os viveu, ou para quem é obrigado a revivê-los agora porque quer seguir a tendency, os anos 80 do século XX aparecem agora em versão resumida e condensada: um pastiche-XXI. Nessa imitação não faltam diários de Ronald Reagan, reedições de Duran Duran, filmes sobre Michael Jackson (cuja morte beneficiou a procura), amens a Madonna, concertos dos U2, coleccionáveis de Bruce Springsteen, quedas do Muro de Berlim (as comemorações vêem mesmo a calhar), botas horríveis, entre outros objectos de culto!
Para que nada nos falte, a Visão, na sua submarca Visão Estilo+Design, tem um número dedicado à causa – o retro 80 – em que Miguel Esteves Cardoso, um dos gurus portugueses daquela década se dedica a tecer rasgados elogios e pesarosas criticas. A mais sentida critica é esta:
«O defeito dos anos 80, aqui em Portugal, foi pensar que, com muito trabalho e muito entusiasmo, podíamos acompanhar o mundo. Não podemos. Mas aquilo que ficou de termos tentado – uma vida nocturna à medida do freguês; coisas que desistiram de tentar ser como as estrangeiras e se viram devolvidas à originalidade (ou só graça) de serem portuguesas – já não foi mau».
Assim, o grande guru nos diz que Portugal só faz sentido como macaquinho de imitação. Entre os elogios, há que destacar Manuel Reis (fundador do Frágil), José Pedro Croft, Herman José, Vicente Jorge Silva (!!), Mário Soares (surpresa!), Margarida Martins (presidente da Abraço) e Cavaco Silva (!!!). Portanto um re-Independente versão da Visão-século XXI.
Fonte das Imagens: Lixo Pop (1ª); sabine (2ª).
Última Actualização: 03/11/2009
Pois é: Jorge Fernando encontra o hip-hop
24/10/2009
Gosto de música de fusão, gosto de fado. E gosto de algum hip-hop. Daí gostar desta música. Que ainda por cima tem uma mensagem política…
Sexta-feira em Leiria, a primeira depois das eleições autárquicas. À tardinha, a cidade desentope-se de carros e de pessoas. Enquanto as filas stressam os mais apressados, João e Xavier voltam a reunir-se num café, a comentar as últimas e a ler jornais. Fazem um balanço das autárquicas em Leiria, já cientes de que o PS venceu as eleições.
João – Esta Segunda-feira isto tinha um clima diferente do habitual, Xavier. Toda a gente falava dos resultados.
Xavier – Imagino… Precisa-se de mudar de vez em quanto.
João – Foi a primeira vez que o PS venceu umas eleições em Leiria. Ainda assim, mantém o empate em número de mandatos que tinham antes: cinco cada. Mas anda tudo excitado a pensar “como vai ser”. Entretanto, podemos olhar para os vencedores…
Xavier – José António Silva, do PSD…
João – Sem dúvida. Ele queria candidatar-se e era apoiado pelo PSD local. Mas o PSD nacional não quis.
Xavier – Pois, agora paga a factura… Achas que se avizinham mais lutas intestinas dentro do PSD?
João – Penso que sim. Ainda por cima, até a direcção nacional foi posta em causa nestas eleições. Mas penso que também haverá polémicas dentro do PS local. Luciano de Almeida, por exemplo: ligado ao PS, candidatou-se como independente pelo PSD. Qual será o seu futuro politico?
Xavier – Ele de certeza achará esse futuro. Não te preocupes.
João – Estou só a comentar! E Isabel Gonçalves, que saiu do CDS-PP, fundou um movimento independente e se candidatou à espera de uma maioria absoluta?
Xavier – Veremos “como vai ser”, então. Não vale a pena estares nessa excitação, agora! Sabias que o Correio da Manhã destacou o cartaz do Bloco de Esquerda em Leiria como um dos melhores: “Gente por to ó cidade”. Carlos Coelho, criador de marcas…
João – Esse não é o presidente da Ivity Brand Corp? O nome da empresa dá vontade de rir.
Xavier – Seja como for: esse senhor diz que o slogan faz lembrar o Zeca Afonso.
João – E com razão. Desta vez todos os partidos se esmeraram. Vê isto: aqui atribui-se a vitória do PS a João Vasconcelos, acessor do primeiro-ministro, que convenceu Raul Castro a concorrer de novo e a uma boa campanha de marketing.
Xavier – Este João Vasconcelos diz no jornal da concorrência que o mérito é todo do PS, que as pessoas estavam cansadas…
João – Se estavam, não o demonstravam. E a diferença de votos não foi assim tão grande: não te esqueças que o número de mandatos é o mesmo. Há o boato que ela caiu graças ao fantasma do seu antecessor, Lemos Proença.
Xavier – Boato interessante, esse. São do mesmo partido, ele é padrinho dela… É um bocado de mau gosto pensar que ele se tenha aliado a gente do PS. Mudando de assunto: diz neste jornal que esta semana houve uma reunião camarária de apenas 5 minutos.
João – Pois, agora é prematuro decidir seja o que for sem antes os eleitos tomarem posse. Sabias que estas eleições foram ganhas graças ao porco no espeto?
Xavier – Sabia. Houve comida à borla em todas as freguesias. Isto para além da distribuição de calendários, canetas…
João – Aqui diz que um dos vencidos foi o director do jornal que tens na mão, Xavier!
Xavier – Pois, parece que acabamos sempre por falar dele, aquele que dizia que Isabel Damasceno podia concorrer por qualquer partido, que tudo era indiferente: José Ribeiro Vieira.
João – Pois, foi mandatário dela mas nunca apareceu publicamente com ela.
Xavier – Provavelmente por estar demasiado ocupado. Ou por medo… que lhe tirem o lugar de consciência critica do partido. Deixa ver a crónica desta semana…
João – Pois, ele apelou ao voto no PS nas legislativas.
Xavier – Ele faz uma análise fria dos resultados. Tão fria que nem parece ser apoiado uma das candidaturas. Eis o primeiro parágrafo:
«Depois de mais de três décadas de gestão PSD, a Câmara de Leiria caiu finalmente, dirão alguns, na órbita do PS, apesar do presidente eleito nas listas deste partido não ser seu militante. Faz parte do grupo dos independentes que, em época de eleições, por conveniência ou não, aceitam dar uma mão aos partidos, respondendo ao repetido apelo de abertura à sociedade civil! O facto de Raul Castro ser um desses independentes parece não ter penalizado os resultados, como alguns queriam fazer crer. A maioria dos munícipes o que deseja é, para além duma gestão rigorosa e independente, uma administração obreirista e eficaz. Só alguns esperam tirar desta vitória vantagens especiais, seja porque esperam que isso lhes faculte alguns favores a nível individual, seja nos projectos empresariais que têm».
João – Eis o futuro presidente da distrital do PS a falar. Como falaria se fosse Isabel Damasceno a vencer?
Xavier – Não tentes fazer previsões à Oráculo de Belini, João! Nem sequer és astrólogo!
João – Tens razão!… O que é uma pena… (sorri com um ar misterioso).
Fonte das Imagens: Região de Leiria; Jornal de Leiria.
Última Actualização: 18/10/2009
Maitê Proença é uma actriz brasileira, cujo modo de vida é entreter e impacientar os brasileiros. Para indignar, e para ganhar a vida, usa vários recursos: telenovelas, peças de teatro, um talk show e nos últimos anos livros. É uma pessoa frágil psicologicamente, e por isso tem-se reflectido nos seus livros – pelo menos é isso que dá para perceber pelos resumos disponíveis na Internet e pelas entrevistas que li dela. No Brasil é olhada por muitos como uma “tia”.
Como os brasileiros, e especialmente a rede Globo, tem exportado a sua cultura em doses industriais, também Portugal tem tido a sua dose de Maitê Proença. Desta vez apareceu um vídeo de 2007, perdido num site de partilha de vídeos, que indignou a blogosfera portuguesa. Este vídeo fez parte do programa “Saia Justa“, um programa onde mulheres brasileiras artistas comentam a actualidade, falam do seu quotidiano secante ou gozam com quem lhes apetece, normalmente brasileiros. Falam sempre como se não existisse nada de mais interessante no mundo que as suas palavras vazias. E isto é entretenimento!
Olhando à superfície deste caso, esta indignação da blogosfera portuguesa não tem qualquer justificativa, pois ninguém vilipendia Portugal como os portugueses! Nem ninguém goza com o próprio país mais que nós! E pior: nós temos toda a razão para fazê-lo! Por isso, e porque existem programas em Portugal parecidos com o “Saia Justa”.
Olhando o que encobre esta indignação, vemos outra coisa. Os portugueses estão cansados de serem colonizados pelos brasileiros, tanto os do Brasil como os de Portugal. Cansados de ser ultrapassados em todos os domínios por eles, o últimos dos quais foi a marcação dos Jogos Olímpicos. Cansados que os brasileiros lhe imponham coisas (uma dessas imposições foi o Acordo Ortográfico). Indignação haver gente portuguesa a dizer que queria ir para o Brasil, porque não se sente acarinhado o suficiente em Portugal. Essas e outras indignações…
Assim, a raiva perante as palavras de Maitê Proença é legítima, não por aquele vídeo ser especialmente ofensivo, mas porque todo este caso é um reflexo da impotência e do complexo de inferioridade português que é necessário combater. Esse sentimento não desaparecerá com um vídeo da actriz a pedir desculpas, mas com outras políticas portuguesas, menos subservientes aos interesses brasileiros.
Por fim, tanto o vídeo da actriz brasileira (com a sua pose gozona e snob) como a reacção portuguesa indignada escondem um racismo mútuo, mais ou menos visível consoante a pessoa com quem falamos: os portugueses colonizaram o Brasil logo estes só podem dizer bem de Portugal; os brasileiros estão no primeiro mundo, logo os portugueses são uns aprendizes.
Leituras Adicionais:
- Maitê Proença grava novo vídeo a pedir desculpas.
Fonte da Imagem: Patricia Kogut.com.

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- B
- Esta corrida ao Nobel já me cansa! 

