Coisas Giras de Portugal em 2012 (11)

«A decisão de acabar com o programa da Antena 1 “Este Tempo” suscitou generalizadas acusações de censura contra a RTP. O director geral da RTP rebateu estas acusações, alegando que o fim do programa já estava previsto e não constitui, portanto, uma retaliação contra as críticas que aí emitiu o colunista Pedro Rosa Mendes (PRM) sobre o programa “Reencontro” de Fátima Campos Ferreira. PRM retorquiu que nas últimas semanas estava em discussão a alteração do formato jurídico do seu contrato, mas nunca se anunciara a intenção de acabar com o programa. E afirma que a decisão de acabar com o mesmo lhe foi comunicada como reação à sua crónica sobre “Reencontro”.

No meio desta polémica, um primeiro ponto pode estabelecer-se como coisa certa: a RTP fez uma triste figura e alimentou, no mínimo, uma suspeição de censura que mesmo o desmentido do director geral não consegue dissipar inteiramente. Supondo que fosse falso tudo o que diz PRM sobre os preparativos para uma renovação dos contratos de “Este Tempo”, e que o fim do programa estivesse efectivamente previsto, pergunta-se: e ao dar a machadada final no programa não se percebeu como essa decisão, neste momento e neste contexto, só podia ser vista como censória? E não se percebeu como a acusação de censura lesava a imagem da rádio pública? E não se percebeu como esses estragos na imagem da RDP se tornavam duplamente graves na sequência dos estragos que o programa “Reencontro” tinha deixado no prestígio da televisão pública?
E este é o segundo ponto que pode considerar-se estabelecido para além de qualquer dúvida razoável: ao escamotear a realidade angolana, o programa “Reencontro” deu, afinal, execução e cumprimento às recomendações de um relatório que a abominação pública parecia ter relegado, merecidamente, para o caixote do lixo da História – o relatório Duque. Nesse documento expendia-se a ideia peregrina de que a RTP devia tornar-se uma agência de comunicação do MNE. O programa “Reencontro” veio mostrar que o defunto relatório continua, por trás dos bastidores, bem mais vivo, perigoso e nefasto do que o clamor de repúdio da opinião pública parecia permitir.
Admitindo que sejam certas as explicações dadas pelo director geral da RTP, fica ainda uma outra questão por esclarecer: em que concepção de futuro para a rádio e a televisão públicas se inscreve a decisão de acabar com o programa “Este Tempo”? Damos por suposto que não se tomam nesta casa decisões avulsas e que cada passo pontual corresponde a uma estratégia de maior fôlego – ou seria adiado até existir essa estratégia, com a vantagem adicional de ser dado em momento mais oportuno e sem o estigma desta aparência atentatória da liberdade de expressão. Ora, se existe uma estratégia já delineada, então está-se a proceder a uma reestruturação clandestina, evitando chamá-la pelo seu nome e evitando pôr as cartas na mesa. Talvez por isso, esta CT continua sem ser ouvida sobre o dito processo de reestruturação, como a lei determina.»
Comissão de Trabalhadores da RTP (26/01/2012) (1)
Comentarium: Depois da claustofrobia democrática, um novo autoritarismo?
(1) Comunicado reproduzido no blogue Entre as Brumas da Memória.

SMS do dia

Às vezes amamos mitos.


Coisas Giras de Portugal em 2012 (10)

«A Standard & Poor’s cortou o rating da dívida portuguesa em dois níveis, de «BBB-» para «BB», o que significa que a mesma passa a ser considerada «lixo financeiro». Portugal tem agora esta classificação junto das três grandes agências internacionais de notação financeira.

Portugal não foi, no entanto, o único. Mais oito países da Zona Euro viram o seu rating revisto em baixa. Só a Alemanha manteve o rating – que fica no nível máximo, «AAA» – com outlook estável. (…)

Na explicação prestada pela S&P, a agência refere que, no caso de Portugal, como no de outros países que viram o rating cortado, esta descida reflecte o agravar dos problemas monetários, financeiros e políticos na Zona Euro. Para além disso, reflecte ainda “as pressões externas continuadas sobre o financiamento do sector privado do país, e os efeitos que isso pode ter nas finanças públicas e no crescimento da economia”.

“Para Portugal, nós acreditamos que este ambiente enfraquecido a nível europeu pode complicar o apoio político interno à implementação do programa assinado com a troika e pôr em risco a estratégia de consolidação orçamental do Governo e causar ainda maiores aumentos no já elevado stock de dívida pública, que deverá atingir 106% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2012″.

Portugal está ainda exposto à situação na Grécia, cujo processo de reestruturação de dívida pode “afastar potenciais investidores da dívida soberana portuguesa e reduzir a possibilidade de Portugal regressar ao mercado da dívida algures em 2013″.

Na decisão de colocar Portugal no “lixo” pesou ainda a “rápida deterioração dos mercados financeiros” europeus, que “acarreta riscos significativos para o financiamento do país nos próximos dois anos, à medida que os credores do seu sector privado, sobretudo bancos de outros países europeus, deverão reduzir a sua exposição a Portugal mais rapidamente do que antes se previa”. Um factor que, mais uma vez, atribui à incerteza no que toca às políticas europeias de combate à crise. (…)»

Agência Financeira (13/01/2012)

«O primeiro-ministro reiterou hoje que o Governo quer ir além do programa de ajuda externa, nomeadamente no campo das reformas estruturais. E salientou que há um “consenso nacional” quanto à vontade de mudança.

“Senhores da troika, estamos a fazer isto por nós, não por vós”, afirmou hoje Pedro Passos Coelho, dirigindo aos elementos da Comissão Europeia, do FMI e do Banco Central Europeu, que estão hoje presentes num workshop sobre reformas estruturais. Este encontro, que começou na quinta-feira, termina hoje em Lisboa, com o discurso do primeiro-ministro.

“Não tenho dúvidas que existe consenso nacional quanto a vontade de mudança”, garantiu Passos Coelho, salientando que este caminho tem de ser percorrido mesmo que alguns riscos externos se concretizem.

O primeiro-ministro voltou a dizer que o Governo quer “ir mais longe” do que o programa de assistência económica e financeira na eliminação dos bloqueios da economia. “Somos mais ambiciosos, queremos rivalizar cm parceiros internacionais”, sublinhou.

Passos Coelho destacou, nomeadamente, a necessidade de eliminar rapidamente as barreiras à concorrência em alguns sectores, acabar com o “estigma” associado à insolvência” de empresas e libertar o acesso a profissões reguladas. A isso junta-se o programa de privatizações que, segundo o primeiro-ministro, “representa uma prioridade absoluta do Governo”.»

Ana Rita Faria (21/01/2012) (1)

Comentarium: Comentários para quê?!

(1) No Público Online.

Fonte da Imagem: Vai e Vem (retirada do Público, de 22/01/2012).


SMS do dia

Podes explorar os outros, mas no fim também morres.


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